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Os talentosos devem-nos alguma coisa?

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Nick Kyrgios é um poço andante de jeito para jogar ténis e jogou, pela primeira vez, a final de um Grand Slam aos 27 anos

Nick Kyrgios é um poço andante de jeito para jogar ténis e jogou, pela primeira vez, a final de um Grand Slam aos 27 anos

Julian Finney/Getty

A mochila que um tenista leva para o court abarca o mundo, se olharmos bem para a coisa. É mais farta do que uma qualquer sacola escolar, de viagem ou de um trabalho de secretária e não é pelas raquetes, as mudas de roupa, as peças de fruta, as bebidas preparadas para repor eletrólitos, o par de sapatilhas a mais. A escassez é ditadora da relevância e pelo seu cariz individualista, de querer pôr quem o joga a resolver problemas sem ajudas de fora, o ténis é das práticas mais solitárias a que uma pessoa se pode dedicar, assim o queira e o jeito lhe permita. É ele, o saco que carrega às costas e todo o sobrepeso lá colocado por fulanos e beltranos que foge ao seu controlo.

No domingo, ainda nas catacumbas floreadas e cheias de laivos de realeza do All England Club, onde, apesar de o ténis ser a colisão de indivíduos deixados à mercê deles próprios, os adversários usam sempre o mesmo balneário, Nick Kyrgios de lá saiu para subir escadarias rumo ao campo que o ia ter na final de um Grand Slam pela primeira vez na carreira. Com 27 anos e ao fim de 278 jogos, o australiano encaminhava-se para o relvado que é o pináculo mais comummente almejado por tenistas e no qual convergem sonhos das suas versões de criança.

E o que fez Kyrgios? Fechou os olhos, abriu a boca, rasgou um bocejo sentido e deu um gargantuesco vislumbre da sua quiçá indiferença ou de um hipotético aborrecimento.

Seria de todo errado arriscar concluir que para o filho de um grego emigrado em Camberra e de uma mãe que renunciou à sua linhagem de realeza na Malásia é indiferente ganhar ou perder. Com o seu serviço martelo absurdo, capaz de ir buscar ases sem esforço, aliado às pancadas sem preparação que marram bolas para perto das linhas, Nick ganhou o primeiro set a Novak Djokovic, o tenista de quem só se poderia esperar uma reação que é tão sua e reveladora da matéria de que é composto: quando parece estar enferrujado e um quê fora dele, o sérvio adapta-se ao que o adversário usa para o machucar, molda-se ao jogo do outro e depois frustra-o, ao cair-lhe em cima com a sua mecânica constância de incríveis respostas ao serviço e capacidade atlética para devolver todas as bolas.

O australiano perdeu e era expectável que perdesse, nada de catastrófico virá ao seu mundo por ser derrotado, em Wimbledon, pelo astro vindo de um planeta desconhecido que é Djokovic, agora dono de 21 majors e sete vitórias na relva que o fez cravar uma raquete aos pais aos quatro anos, quando viu Pete Sampras a ganhar ali, pela televisão. O que se abateu de novo sobre Nick Kyrgios mais uma vez, com outra repetição e demais tautologias aplicáveis, foi uma sucumbência à mochila que leva consigo cada vez que pisa um court de ténis. A questão nele não é ter chegado tão longe com ela, mas apesar dela.

Kyrgios disse e repetiu que jogar a final de um Grand Slam era uma honra que julgava já o ter evadido, há muito, admissão em parte explicável pelas pirraças em campo da sua autoria. Nas três horas que demorou a ser vencido, o australiano barafustou com o público e até fez o árbitro expulsar uma mulher da bancada, teve monólogos irritados com ele próprio e berrou contra as pessoas que tinha na sua box por não estarem a apoiá-lo na forma como idealizava na sua cabeça, essa bagageira sobre a qual se tem por costume exigir um auto-controlo que nem um monge budista com mil e um retiros de privação.

É por aí que Nick Kyrgios se fez uma contradição andante. Porque o talento no australiano é flagrante, do mais descarado que a modalidade tem e isso vê-se nas bolas que bate por entre as pernas, na aptidão que tem no pulso, nos braços, nos gestos de corpo com que arranjou maneira de golpear com uma raquete sem grande respeito pelos cânones com que ensinam miúdos em academias de ténis. O australiano é capaz de inventar coisas em court a que outros almejam chegar pelo trabalho e repetição e a ele saem-lhe sem um aparente pingo de esforço. Apenas saem por a sua excentricidade querer e estar para aí virada.

No final, Nick Kyrgios referiu-se a Novak Djokobic como "uma espécie de deus" o ténis.

No final, Nick Kyrgios referiu-se a Novak Djokobic como "uma espécie de deus" o ténis.

Simon Stacpoole/Offside

Por ter tamanho talento guardado em si é que Kyrgios vive hoje no campo das obrigações morais. Quem nasce com talento sem teto para o desporto é arrastado para lá por pessoas nadas e criadas sem particular jeito para tal, mas que creem ser dever de quem domina uma arte ter o maior usufruto possível das suas capacidades. Mas porquê?

Por ter uma aptidão desmesurada para o ténis, o australiano deveria viver para ele e submeter-se à regrada existência necessária para dar ao talento o árduo trabalho de que este necessita? Deveria Kyrgios treinar várias vezes por dia, todos os dias do ano, privar-se de noitadas e medir ao grama a alimentação? Tem a obrigação de se rodear de treinadores, fisioterapeutas, gurus e psicólogos para amestrarem o seu volátil caráter e tornarem-no capaz de praticar a contrição, estado que se dá por garantido ser uma exigência de qualquer tenista? Tenho para mim que não, que ele pode bem fazer o que lhe apetecer.

Mas o talento, mesmo que individual e respeitante a cada um, é das matérias que as pessoas mais ousam meter o bedelho, não vindo, por génese, de um sítio mau - queremos ver os melhores a darem o seu melhor, queremos presenciar grandeza a acontecer, quereremos sempre assistir a desportistas a serem sublimes para nos imaginarmos nas suas vestes. Constatar como Nick Kyrgios é uma sucedânea de implosões, de sabotagens feitas a ele próprio, puxa pela imaginação através do reboque menos aprovado, do what if?. E se o australiano tivesse uma cabeça como à de Djokovic, Nadal ou Federer?

Mesmo que a tivesse, ele nada nos deveria e essa é uma das falácias do ténis (e tantas outras modalidades), achar que os talentosos têm alguma dívida para com as almas mais terrenas.

Esta é uma modalidade onde vivalma joga por agremiações ou clubes, todos e todas investem do seu próprio pêlo e só uma ínfima fatia de tenistas lucra muitos mais euros do que aqueles que gastam. Daí o “sem dúvida que não” de Nick Kyrgios e a confissão de estar “tão cansado de tanto ténis” quando, ainda em court e pontuado por um boné vermelho de Michael Jordan que lhe valerá uma multa por não respeitar o código de branco integral que Wimbledon impõe às roupas, lhe perguntaram se se imaginava a voltar a jogar uma final. A sua candura aponta para o que o faz ser tão divisório: nada deve a ninguém, mas, vendo-lhe o talento, as pessoas sentem-se credoras do australiano por lhe emprestarem esperanças que ele, como qualquer desportista, não pediu.

E está tudo bem assim.

O que se passou

Foram cinco primeiros minutos infernais, a seleção nacional feminina já perdia por 0-2 em Leigh, a meia hora de Manchester, na estreia no Campeonato da Europa, mas as tropas arregimentaram-se para lograrem o empate e acabarem com oportunidades para mais. Portugal está a participar pela segunda vez no torneio que reúne as melhores do continente e o nosso Pedro Barata por lá anda a acompanhar os dias da seleção e a farejar histórias para contar.

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Apesar do bromance, o sábio Djokovic castigou o caos de Kyrgios na final de Wimbledon

Novak Djokovic conquistou pela sétima vez o torneio de Wimbledon, igualando Pete Sampras e William Renshaw, ficando apenas a um triunfo de Roger Federer. O sérvio somou ainda o 21.º <em>major </em>da carreira, encurtando a distância para Rafael Nadal (22), que abandonou o torneio por lesão. Depois do jogo, Djoko confirmou o " <em>bromance</em>" com o adversário e o australiano chamou-lhe "quase deus"

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Sim, elas sangram. E devia estar tudo bem com isso

“Está sujo?” A pergunta já foi feita, a meio de um jogo, entre colegas da seleção nacional feminina, que se estreia no Europeu este sábado, frente à Suíça (17h, RTP1). A preocupação de manchar a roupa é fator extra de ansiedade e controlar os ciclos de menstruação é algo que entra no planeamento de treino

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A seleção entrou no Euro com um empate (2-2) frente à Suíça, numa partida que foi uma montanha-russa. Aos 5’, as helvéticas já ganhavam por 2-0 mas, após uma primeira parte desastrada, Portugal jogou um segundo tempo cheio de energia e futebol ofensivo, empatando por Diana Gomes e Jéssica Silva e ficando perto do triunfo

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Rodrigo Defendi desejou ser homem do lixo para andar pendurado num camião, mas um treino de captação do irmão mais velho acabou por colocar-lhe o futebol no caminho. Aos 15 anos saiu de casa para jogar no Cruzeiro e pouco depois o central já estava do outro lado do oceano, no Tottenham, depois Itália. Não vingou ali e quis voltar a ser feliz na terra natal, o Brasil, de onde saiu novamente para jogar no V. Guimarães. Domingo leia a segunda parte deste Casa às Costas

Zona mista

Não estou vacinado e não planeio ser vacinado.

A confirmação veio de Novak Djokovic, era esperada desde a polémica que protagonizou na Austrália, em janeiro, e foi dita após a conquista de Wimbledon. Portanto, a não ser que o governo dos EUA mude entretanto as regras de entrada para cidadãos estrangeiros, só daqui a pouco mais de 10 meses voltaremos a ver o sérvio jogar num torneio do Grand Slam: não podendo aterrar em Nova Iorque, também não lhe será permitida viajar para Melbourne, no início de 2023, já que qualquer cidadão deportado da Austrália fica impedido de entrar no país durante três anos.

Segunda-feira, 11

🎾 Fechado o Grand Slam de Wimbledon, o circuito ATP segue para o mais terreno torneio 250 de Bastad, na Suécia, onde estará João Sousa. No calendário WTA e na mesma categoria, começam-se a jogar as provas de Budapeste, na Hungria, e Lausanne, na Suíça.

Terça-feira, 12

🚴‍♂️ Feito um dia de descanso, o Tour de France regressa à estrada para a 10.ª etapa (12h15, Eurosport 1).
⚽ Os jogos particulares de pré-época entram naquela fase de digressões por terras pouco típicas no futebol. Manchester United e Liverpool defrontam-se em latitudes asiáticas na Tailândia (14h, Sport TV1).
⚽🏃‍♀️ No Europeu de futebol feminino, é dia de jogo dos grandes: Espanha e Alemanha defrontam-se (20h, RTP Play).

Quarta-feira, 13

🚴‍♂️ 11.ª etapa da Volta a França (11h, Eurosport 1).
⚽ O Sporting joga contra o Union St. Gilloise em mais uma partida de pré-temporada (19h, Sport TV1).
⚽🏃‍♀️ Após o empate (2-2) contra a Suíça, seleção nacional feminina tem o segundo jogo da fase de grupos do Campeonato da Europa, frente aos Países Baixos (20h, RTP1).

Quinta-feira, 14

🚴‍♂️ 12.ª etapa do Tour de France (11h55, Eurosport 1).
⚽ O Vitória de Guimarães arranca a época oficialmente com a primeira mão da 2.ª eliminatória de acesso à Liga Conferência, contra o Puskás Academia, da Hungria (20h30, Sport TV1).

Sexta-feira, 15

🚴‍♂️ 13.ª etapa da Volta a França (11h55, Eurosport 1).
🎽⏱️ Arrancam os Mundiais de Atletismo em Eugene, no estado de Oregon, nos EUA, onde Portugal levará 23 atletas, a sexta maior delegação de sempre. A competição realiza-se até 24 de julho (RTP).

Sábado, 16

🏉 Depois de ganhar, pela primeira vez na história, um jogo aos All Blacks no seu quintal, a Irlanda enfrenta novamente a seleção da Nova Zelândia (8h05, Sport TV). A ação oval segue de rompante durante toda a manhã com mais partidas das restantes seleções europeias que estão em digressão pelo hemisfério sul: Austrália-Inglaterra (10h05), África do Sul-País de Gales (16h05) e Argentina-Escócia (20h10).

Domingo, 17

⚽🏃‍♀️ Portugal fecha a participação na fase de grupos do Europeu feminino com o encontro diante da Suécia (17h, RTP1).

Hoje deu-nos para isto

A figurada chapada de luva branca que Eder deu em toda a gente, em Paris, já foi há seis anos.

A figurada chapada de luva branca que Eder deu em toda a gente, em Paris, já foi há seis anos.

Matthias Hangst/Getty

Era um dia escaldante, não tanto quanto a vaga de calor destes dias, mas os graus tórridos derretiam o estádio de Saint-Denis, em Paris. A temperatura roçava um limiar quase criminoso, se não existe lei a estipular estados de espírito do termómetro aceitáveis para pedir a humanos que corram atrás de uma bola, o 10 de julho de 2016 poderia ser chamado como evidência de que a sensatez também deveria jogar na escolha das ocasiões. Não estivessem antes dela coisas como a história, o simbolismo dos lugares, o orgulho patriótico ou o mais simples bê-à-bá desportivo que é uma equipa querer ganhar à outra na luta por um caneco.

Nesse dia, uma seleção de Portugal jogou a final do Campeonato da Europa na capital do país para onde mais portugueses emigraram no século passado, noutras décadas, quando os pratos eram escanzelados em comida para muitos, os bolsos secos em moedas para tantos e os olhos embaciados para demasiados, que não conseguiam augurar melhores tempos. À final de Paris chegou a seleção aguardada lá por poucos, dessa cidade saiu um feito futebolístico para um país que o tomou com mais uns quantos simbolismos.

O pontapé na bola do patinho feio Eder, afamado pelos golos que não marcava, derrubou a França no prolongamento e fez o avançado vestir uma luva branca para a figurada chapada enquanto Cristiano Ronaldo pululava no banco com um joelho ligado, frenético a rondar Fernando Santos, nesse momento que encapsulou uma conquista nas barbas do povo onde dezenas de milhares de portugueses se fizeram à vida nas obras, a cuidar de prédios, a atirarem-se a trabalhos braçais a que os nativos torciam o nariz, fugidos do quase nada para recomeçarem do zero. O remate de Eder veio da força dessa muita gente.

Fez seis anos no domingo que a seleção venceu o Europeu e incontáveis portugueses rejubilaram com todos os seus singulares motivos, à boleia de uma conquista comum. O futebol, sendo a mais popular das modalidades, não é que também seja feito disto, é, sim, sobretudo erguida desta semente: a identidade coletiva de um povo que reluz as suas pequenas vitórias pessoais com uma conquista desportiva feita por um conjunto que o representa. Eu estive em Paris nesse dia e antes em França, durante um mês, e a pele ainda se engalinha com essas memórias e a ninharia de noção que pude reter do quão esta vitória significou para os portugueses em França.

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