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Nils Nielsen: “É mau que as jogadoras tenham de sair do seu país muito jovens para melhorarem. Os clubes devem assumir responsabilidades”

Em conversa com a Tribuna Expresso na zona mista de Leigh depois do Portugal-Suíça, o técnico das suíças, vice-campeão europeu em título, ligou o crescimento da seleção nacional ao "desenvolvimento" da liga interna, algo "fundamental" para a consolidação do futebol feminino

Pedro Barata, enviado ao Euro 2022

Eurasia Sport Images/Getty

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2022 não está a ser um ano fácil para Nils Nielsen. O técnico dinamarquês, de 50 anos, ainda não conseguiu levar a seleção da Suíça a qualquer triunfo na presente volta ao sol. O empate contra Portugal foi o terceiro das helvéticas em 2022, aos quais se juntam quatro derrotas — incluindo um 7-0 contra a Alemanha e um 4-0 face a Inglaterra.

Tendo em conta este panorama, é de entender algum descontentamento em redor da equipa suíça. O desagrado dos jornalistas já era evidente na conferência de imprensa de antevisão do embate contra Portugal, ainda que Nielsen tentasse desanuviar o ambiente recorrendo ao humor. Ao entrar na sala, o dinamarquês colocou os auriculares para a tradução simultânea e questiona "onde está o canal da música rock?", talvez desejando melhorar o clima em torno do conjunto que dirige através de canções.

Passadas 24 horas dessa conferência de imprensa, o estado de ânimo helvético não era melhor. A Suíça deixou escapar uma vantagem de dois golos contra Portugal, queixando-se vários jornalistas nas bancadas da "inoperância" do treinador, que até ao período de descontos só fez uma substituição.

Depois de ter marcado presença na sala de conferências de imprensa, Nils Nielsen passa, ao contrário de Francisco Neto, pela zona mista. Naquele pequeno corredor, pára várias vezes para responder a questões de suíços. No final, já perto da porta, o vice-campeão europeu em título — levou a Dinamarca ao segundo lugar do Europeu 2017 — detém-se para falar durante mais alguns minutos com a Tribuna Expresso.

NurPhoto/Getty

Nielsen começa por reconhecer que, "provavelmente", "Portugal esteve mais perto de ganhar" do que a sua equipa, elogiando a "pressão e velocidade" das portuguesas. O dinamarquês considera que "Francisco [Neto] fez um grande trabalho juntando esta equipa", repetindo várias vezes que "a rapidez de jogo" é uma "grande arma" das lusas.

Questionado quanto às diferenças da primeira para a segunda parte, Nielsen sublinha que Portugal "não surpreendeu", dado que "sabia bem do que elas eram capazes", mas o que o "irritou" foi que a Suíça "não conseguisse lidar" com o jogo das suas oponentes. Ainda assim, o nórdico entende que "o empate não traz grande vantagem a nenhuma das equipas" na luta do grupo C.

Na conferência de imprensa de antevisão, Nielsen mencionou, várias vezes, que o facto de haver mais jogadores da seleção portuguesa a atuarem na liga interna era uma vantagem que espelhava o "desenvolvimento" da competição, o que é "fundamental" para o crescimento do futebol feminino, lamentando que na Suíça a "mudança esteja a ser mais lenta". E explicou a sua ideia:

"É mau que as jogadoras tenham de sair do seu país muito jovens para melhorarem. Os clubes devem assumir responsabilidades. As raparigas muito novas, quando têm de ir para fora, muitas vezes acabam sozinhas num pequeno apartamento, passando mais tempo no banco do que no campo, sem se desenvolverem como deveriam como seres humanos. Veja-se Itália, que têm melhorado graças a ter mais jogadoras da liga interna, ou Espanha, que começou o caminho antes. Hoje em dia, só as espanholas de topo é que saem, e não é quando são jovens. Isso faz a diferença".