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Do começo desastroso ao entusiasmo cheio de coração, a reviravolta de Portugal esbarrou no poste

A seleção entrou no Euro com um empate (2-2) frente à Suíça, numa partida que foi uma montanha-russa. Aos 5’, as helvéticas já ganhavam por 2-0 mas, após uma primeira parte desastrada, Portugal jogou um segundo tempo cheio de energia e futebol ofensivo, empatando por Diana Gomes e Jéssica Silva e ficando perto do triunfo

Pedro Barata, enviado ao Euro 2022

Telma Encarnação lamenta-se pelo remate ao poste

Martin Rickett - PA Images/Getty

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Havia jogadoras no chão a cada instante. Cada perda de bola levava a um contra-ataque perigoso. Francisco Neto já vivia fora da área técnica, para desespero da quarta arbitra. Joana Marchão e Catarina Amado evitavam perigo de um lado, Diana Silva não conseguia concretizar do outro. Até que a bola chegou a Kika, que mesmo jogando pouco tempo e na ressaca de uma amigdalite é um perigo constante. A jovem passou para Telma, que fez o que faz melhor. Olhou e rematou. A bola foi ao poste, esbarrando ali uma reviravolta que teria sido épica.

A entrada de Portugal no Europeu começou por ser de pesadelo, mas acabou com alguns sorrisos entre a comitiva e, sobretudo, a ideia reforçada de competitividade e resiliência desta equipa. O 2-2 contra a Suíça, perante 5.902 animados espetadores em Leigh, não cumpre o objetivo da vitória, mas deixa minutos vibrantes da equipa de Francisco Neto, que soube canalizar o coração para um jogo de elevada cadência ofensiva, o qual permitiu contrariar as adversidades.


E adversidades foi o que não faltou logo no arranque. Os minutos que antecedem as partidas do Europeu são um misto de banda sonora de feira popular com uma discoteca que tente fazer uma playlist repleta de êxitos do house ou da dance music. Mas esses sons não pareceram ativar Portugal para o encontro, bem pelo contrário.

James Gill - Danehouse/Getty

Sem Kika, Francisco Neto apostou em Diana Silva tentando cair entre-linhas, com Ana Borges a partir mais da esquerda e Jéssica Silva da direita. Mas nem houve tempo para avaliar as intenções portuguesas antes de Inês Pereira começar a ir buscar a bola ao fundo da baliza. Aos dois minutos, praticamente no primeiro ataque do embate, Coumba Sow aproveitou uma bola solta à entrada da área para rematar cruzado, fazendo o 1-0.

Portugal sentiu o golpe e, logo a seguir, a gigante central Rahel Kiwic ganhou uma falta já no meio-campo português. O livro da direita encontrou a defesa que, mais alta que toda a gente, fez o 2-0. O sonho do Euro mal tinha começado e já ganhava contornos de pesadelo.

Em desvantagem, a Suíça cedeu a iniciativa a Portugal. A seleção nacional não tinha paciência nem capacidade para ligar futebol por zonas interiores, caindo muito na tentação de jogar na profundidade, o que levava a uma série de duelos que beneficiava as helvéticas. Só Andreia Norton parecia fugir à tendência de precipitação, mas era pouco perante o panorama geral. Sem um único remate à baliza nos primeiros 45 minutos, o intervalo chegou com muitos pontos de interrogação sobre a equipa de Francisco Neto

Rahel Kiwic cabeceia para o 2-0

Rahel Kiwic cabeceia para o 2-0

Martin Rickett - PA Images/Getty

O mesmo onze luso voltou para o segundo tempo, mas desde o recomeço que tudo pareceu diferente. Portugal ganhava cantos, ganhava duelos, empurrava a Suíça para trás. Uma finalização de Jéssica Silva foi por cima, mas era outra a jogadora que colocava todo o coração em cada momento.

Diana Gomes cortava os ataques suíços com vigor, transformando-os em situações ofensivas para Portugal. Num desses lances, roubou a bola e abriu em profundidade para Diana Silva, merecendo grande aplauso de Franscisco Neto e, noutro, avançou até rematar, ganhando um canto.

E foi, justamente, de canto que Diana Gomes reduziu. À segunda, depois de cruzamento de Ana Borges — que chegou às 145 partidas por Portugal, igualando Carla Couto como a mais internacional de sempre —, a central atirou para o 2-1 e o festejo foi uma espécie de garantia que a seleção estava ali para dar luta.

Diana Gomes faz o 2-1

Diana Gomes faz o 2-1

OLI SCARFF/Getty

Eram os minutos da tempestade ofensiva de Portugal. Tatiana Pinto e Andreia Norton pressionavam melhor e davam melhor continuidade às posses de bola. Marchão e Amado apoiavam com critério, numa torrente de jogo cheio de energia, mas também de qualidade. Aos 65', de um cruzamento de Tatiana Pinto da direita, Jéssica Silva atacou o primeiro poste e rematou para o 2-2.

Feito o empate, a seleção nacional continuou por cima, com vigor reforçado pelas entradas de Kika Nazareth e Telma Encarnação. Diana Silva, duas vezes servida por Joana Marchão, não conseguiu desviar a bola de Thalmann.

Os minutos finais foram de vertigem e loucura, de perigo em ambas as balizas. A Suíça acertou na barra, Telma atirou ao poste. Amado evitou o golo helvético, Kika quase desviou um cruzamento de Telma.

O apito final trouxe mais sorrisos portugueses do que suíços, ainda que ambas com a sensação de uma vitória que escapou por pouco. A estreia no Europeu começou em pesadelo, teve contornos de sonho, mas a realidade é de um ponto que evidencia a competitividade da equipa de Francisco Neto. Seguem-se os Paísos Baixos, rival de alto nível, na quarta-feira.