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A casa às costas

“Estás habituado a correr 10 km, achas que é o teu máximo. O Lito Vidigal consegue que corras 14 km. É assim que ganha as coisas, no físico”

Após a passagem pela China, onde ganhou mais dinheiro, Rodrigo Defendi jogou dois anos no Maribor da Eslovénia, onde diz ter sido feliz, antes de voltar a Portugal. Nesta segunda parte da entrevista, o brasileiro fala dos quatro treinadores que teve no Desportivo das Aves e de como soube logo no dia em que rompeu o tendão de Aquiles que a sua carreira terminara, com apenas dois jogos feitos pelas cores do Estoril Praia

Alexandra Simões de Abreu

NurPhoto

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Quando foi para a China em 2015, a perspetiva de poder “desaparecer” para o mundo do futebol, pelo menos na Europa, não o assustava?
Não. Eu ainda era novo, tinha mercado em Portugal, onde tinha feito coisas boas, era por um ano apenas, sabia que quando saísse ia conseguir algo bom.

Que ideia tinha da China?
Tinha uma imagem completamente errada da China. Ouvimos falar de carne de cachorro, de escorpião e, afinal, não tinha nada disso. O progresso chegou lá com força. Carros novos na rua, shoppings fantásticos, muita iluminação nos prédios. Tudo muito bom.

A língua foi uma barreira?
Não, porque eu tinha tradutor.

A família também foi?
Foi. A minha esposa sofreu um pouco porque ficava mais em casa. Eu saía para treinar, jogar, viajar e ela ficava com as crianças em casa porque não tínhamos amizades. Éramos apenas quatro jogadores estrangeiros no clube. Eles não levaram as esposas, então ela sofreu mais por isso.

Como foi a experiência futebolística?
É um futebol sem muita técnica. A minha equipa tinha um treinador búlgaro, Petrov, por isso a maneira de treinar era parecida com a da Europa. Dos outros clubes não sei como era. Não é um futebol muito bonito, porém está a evoluir muito. Tem jogadores muito bons.

O que estranhou mais na China?
A comida. Não gostava. Era a minha esposa que cozinhava para mim e quando íamos fora, era a um italiano ou ao sushi. Não gostava do tempero da comida chinesa. Não é que seja ruim, mas não era o meu paladar.

Do que gostou mais?
Da modernidade. A China é muito bonita. Visitámos a muralha da China e outro lugares. Os meus pais, os meus sogros também foram conhecer e adoraram.

Qual foi a situação mais caricata que lhe aconteceu?
Para ir ao mercado às vezes era complicado quando o meu tradutor estava ocupado ou não estava na cidade. Como o alfabeto deles é muito diferente do nosso, o meu tradutor tinha de escrever uma mensagem, eu parava o táxi e mostrava para o taxista, ele levava-me até ao lugar, porque eu não conseguia nem falar o nome do shopping [risos]. Mas não tive nenhuma situação constrangedora lá.

Como passou da China para a Eslovénia?
Quando acabou o meu contrato na China, o Cabral, ex-jogador e agora empresário, apresentou o Maribor ao meu empresário. Eu não conhecia, comecei a pesquisar, aceitei a proposta e fui para a Eslovénia. Nunca tinha ouvido falar do Maribor e da cidade, foi tudo novo para mim novamente. Tudo muito diferente da China. Uma cidade bem pequena, cheguei no inverno, fazia muito, muito frio. O estádio era pequeno, mas foi um dos lugares onde mais joguei, senti-me muito bem lá. Ganhei a Taça no primeiro ano e no segundo o campeonato.

Rodrigo (4º atrás a partir da direita) com a equipa chinesa Cangzhou Mighty Lions Football Club

Rodrigo (4º atrás a partir da direita) com a equipa chinesa Cangzhou Mighty Lions Football Club

D.R.

Que tal o futebol esloveno?
Não chega a ser igual ao campeonato português, é inferior devido ao poder financeiro, não tem tanto dinheiro para investir, porém, o meu clube, o Maribor, é um clube que disputa sempre a Liga, algumas vezes vai à Champions League. Era dos clubes que mais investia. Na época, o diretor era o [Zlatko] Zahovic, que jogou no Benfica.

Com que opinião ficou do povo esloveno?
É um povo muito caloroso, fiz muitos amigos. Um pessoal educado, honesto, tudo o que prometeram, cumpriram. Inclusive até hoje falo com uns amigos de lá, coisa que é raro acontecer, sair de um país e cinco anos depois ainda manter amizade. Adorámos. A comida é boa. O único ponto negativo era o frio, de resto tudo, tudo muito bom.

Histórias para contar da Eslovénia, tem alguma?
Uma vez, após um jogo, estávamos em 2.º no campeonato, a três pontos do primeiro, faltavam cinco jogos ainda para o fim, os adeptos entraram no campo, fizeram com que tirássemos as camisolas e rasgaram-nas, todas. Foi assustador.

Tinha assinado por quanto tempo pelo Maribor?
Um ano e meio. Eles quiseram renovar, mas eu estava em negociação com outros clubes, que não deu certo.

Que clubes?
Eram clubes dos EUA, da Tailândia, o meu empresário é que estava a tratar. Entretanto, estava no Brasil de férias quando apareceu o convite do Desportivo das Aves, que estava com um projeto muito bom, estava com bastante dinheiro.

Foi Ricardo Soares quem o quis?
Sim, muito bom treinador. Infelizmente, não teve tempo para colocar em prática o trabalho que tinha em mente, mas é um treinador muito inteligente, que estuda muito futebol e tem ambição de chegar lá em cima.

O que o levou a aceitar?
Quando recebi a proposta eu não sabia onde é que ficava a Vila das Aves, coloquei no Google e vi que ficava a 17 quilómetros de Guimarães. Pensei, beleza, vamos embora. Porque eu já sabia que ia viver em Guimarães. Eu queria ficar num sítio bom de viver, porque nós vamos para o clube e ficamos duas, três horas a trabalhar, mas passamos 21 horas em casa. Então, quando vi que era ao lado de Guimarães, aceitei na hora, independentemente se o clube era pequeno. Embora o Aves, apesar de ser um clube pequeno, tem um estádio bom, uns adeptos muito apaixonados, foi gostoso o tempo que estive lá.

Na muralha da China com a mulher, os três filhos e o pais

Na muralha da China com a mulher, os três filhos e o pais

D.R.

Esteve duas época no Aves. Qual foi o treinador que mais o marcou?
O Lito Vidigal. De início, todos os jogadores sofrem muito com os treinos dele, porque é tudo muito intenso, muito físico, e é muito longo. Só que o Lito Vidigal consegue retirar do jogador aquilo que nem o jogador imagina que ele consegue dar.

De que forma?
Vamos supor, estás acostumado a correr 10 quilómetros a vida inteira e achas que esse é o teu máximo. O Lito Vidigal com o treino dele, consegue que tu corras 14 quilómetros, apesar de pensares que nunca o conseguirias. Acho que é assim que ele ganha as coisas, no físico, ou maioria das vezes ganhou assim.

Dos restantes treinadores, com que opinião é que ficou do José Mota e do Augusto Inácio, por exemplo?
O José Mota acho que foi o treinador com quem tive mais tempo no Aves. Gosto dele, do jeito de trabalho dele, é muito honesto. Só tenho coisas positivas para falar a respeito dele. Com o Inácio trabalhei muito pouco e não gostava do trabalho dele, para ser sincero, porque ele dava treino ao grupo que jogava, para o que não jogava o treino era outro e ele não ia ver sequer. Enfim, se estás a jogar com ele, estás muito satisfeito; só que o treinador tem de ser bom para os dois lados, para quem joga e para quem não joga. Porque o grupo não tem 11 jogadores, tem 25. Eram 11 felizes e 14 infelizes. Ele conseguiu a manutenção com o Aves, mas depois disso só teve insucesso.

Na passagem do Maribor da Eslovénia para o Aves, não houve interesse do Belenenses?
Do Belenenses e do Moreirense, mas a proposta do Aves foi melhor.

Não continuou no Aves porquê?
Porque acabou o meu contrato, fiz dois anos e eles já estavam mal de dinheiro, começaram a atrasar pagamentos, no final, tanto que os jogadores que permaneceram, que tinham contrato, saíram todos porque não conseguiam pagar-lhes.

Depois só teve convites da II Liga?
Sim, depois surgiu o Estoril que tinha uma estrutura muito boa para estar na II Liga.

Não teve mais propostas de outros clubes, nem de fora?
Que eu saiba, não. Eu também estava numa fase da vida em que não ia aventurar-me fora. Estava com dois filhos, com vontade de ter o terceiro e não ia para qualquer lugar, para ganhar uma ninharia, teria de ser alguma coisa bem grande. Eu sabia que ao sair do Aves, com a minha idade, não ia conseguir coisa assim grande. Ou era Brasil ou Portugal. Foi aí que surgiu o convite do Estoril Praia, que foi muito bom na época.

Mas as coisas não correram bem…
Rompi o tendão de Aquiles no meu primeiro jogo. Profissionalmente, não correu nada bem, porém, tive toda a estrutura necessária para a fisioterapia, estava numa cidade maravilhosa que é Cascais, com um clima muito agradável. Se olharmos só pelo lado profissional, com certeza não foi o que eu esperava. Esperava jogar 35 jogos num ano. Mas ainda bem que estava numa cidade como Cascais e num clube como o Estoril Praia, que me proporcionou um tratamento de clube de I Liga. Só fiz o jogo da Taça e o primeiro do campeonato.

Com a mulher, Thais e os três filhos

Com a mulher, Thais e os três filhos

D.R.

Quando rompeu o tendão de Aquiles percebeu logo que a sua carreira tinha acabado?
Sim. Na hora em que rompi o tendão já sabia que a minha carreira tinha acabado porque ia ficar um ano parado. Ainda recebi proposta de um clube perto de Guimarães, mas não lembro nem de que divisão era. Pensei, vou começar a ir de um clube para o outro, sem estrutura, não quero. O que eu tinha de ter feito no futebol, ganhado o que tinha de ganhar, já ganhei. Decidi parar.

Sabia o que queria fazer após deixar de jogar?
Eu vinha pensando nisso há algum tempo. Os meus dois irmãos são engenheiros e eu fiz parceria com eles; entrei como investidor, abrimos uma construtora, construímos e vendemos casas.

Voltou a ser pai?
Sim, ainda estava no Estoril. A minha filha Isabella nasceu em Cascais.

Nunca lhe passou pela cabeça continuar ligado ao futebol?
Não me apetecia. Fiquei tanto tempo fora de casa que queria ficar um tempo em casa. Devemos jogar enquanto estivermos bem e nos sentirmos felizes, com prazer no que fazemos. Quando me lesionei acabou esse prazer e por isso resolvi parar. Só antecipei dois anos a minha reforma.

Está a viver em Ribeirão Preto?
Sim. Já tinha comprado o meu terreno e construído a minha casa.

Dos cinco países onde jogou, incluindo o Brasil, qual foi aquele onde foi mais feliz a jogar futebol?
Em Portugal. Se eu tivesse que viver em algum outro país, seria Portugal. Talvez pela língua, pelos amigos que fiz aí, pela facilidade que é morar em Portugal. A única coisa que diferencia daqui é o clima. Aqui não faz frio, e aí faz um um bocadinho de frio. De resto, para mim é tudo a mesma coisa. A comida, as pessoas, tudo igual.

Os balneários por onde passou eram muito diferentes uns dos outros?
Sim, mas como eu disse, havia muitos brasileiros em Portugal e os portugueses convivem muito com brasileiros, pegam o nosso jeito, muita música brasileira, querem até falar igual ao brasileiro, então, um balneário aí era a mesma coisa que estar aqui no Brasil. Nos outros países eram mais sérios; na Itália não podias ouvir música antes do jogo, na Inglaterra tinha de ser de auscultadores. Na Eslovénia também era mais tranquilo, mas nada parecido com Portugal e Brasil.

Rodrigo esteve duas épocas no Desportivo das Aves

Rodrigo esteve duas épocas no Desportivo das Aves

Gualter Fatia

Onde ganhou mais dinheiro?
Na China.

Nunca investiu num negócio de restauração, por exemplo, ou outro?
Entrei numa sociedade de um restaurante, no Brasil, mas não fui muito feliz e continuei nos imóveis.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Fazer a casa dos meus sonhos.

Tem algum hóbi?
Tomar uma cervejinha no final da semana [risos]

Tatuagens?
Não.

É um homem de fé?
Sim. Mas não costumo frequentar igreja.

Superstições, tem ou teve?
Tinha de usar a mesma cueca sempre. Eu lavava mas usava sempre a mesma. Era a cueca da sorte do jogo.

Qual foi o adversário mais difícil que teve pela frente?
Tive dois adversários que me marcaram de duas maneiras diferentes. Joguei contra o Cristiano Ronaldo, só que eu estava no banco; era um Roma contra Manchester United. Perdemos em Manchester 7-1, na Champions League, quando eles foram campeões. O adversário com quem joguei, e que também é português, foi o Luís Figo. Joguei contra ele e marquei-o quando ele já estava em final de carreira. Mas ele deu-me muito trabalho. Eu tinha 19 anos e ele era o Luís Figo.

Segue ou pratica outro desporto para além do futebol?
Não. Só futebol.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Eu não tenho frustração na minha carreira.

O momento mais feliz?
É difícil falar só um momento que me marcou, fui feliz várias vezes.

E o maior arrependimento que tem na carreira?
Se eu não voltasse para o Vitória de Guimarães, talvez esse fosse o maior arrependimento. Depois de sair arrependi-me só que, felizmente, voltei. Talvez fosse esse. Mas eu não tenho arrependimento.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Eu joguei no Palmeiras, o meu clube do coração, o clube por quem toda a minha família torce, mas joguei na equipa B, se pudesse escolher, seria nos seniores.

Quem foi o jogador com quem fez melhor dupla?
Com quem me dei melhor na defesa foi com o João Paulo, no Vitória, parece que nos entendíamos no olhar.

Algum jogador com quem gostava de ter partilhado a defesa?
Eu adorava o Maldini. Tinha muita classe a jogar, inclusive até hoje eu vejo vídeos dele. Ele jogava duro, mas limpo, na bola. Era o que eu queria fazer. Eu não era maldoso, eu chegava duro, porém na bola, igual a ele.

Com a equipa do Estoril Praia na época 2019/20. Rodrigo é o 3 atrás à esquerda

Com a equipa do Estoril Praia na época 2019/20. Rodrigo é o 3 atrás à esquerda

D.R.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Fiz várias amizades. No Vitória de Guimarães, tenho o Anderson Santana, o Bruno Teles, André André, Douglas, o goleiro, o Nilson, o João Paulo, o Nuno Assis. São pessoas espetaculares. Não tenho contacto igual ao que tinha na época em que jogava, mas são muito amigos, são pessoas de quem gosto muito.

Tem ou teve alguma alcunha?
Não.

Alguma lei ou regra do futebol que, se pudesse, alterava?
Talvez permitir mais substituições.

Em que se sente mais e menos brasileiro?
Onde me sinto mais brasileiro talvez seja na cervejinha que eu gosto de tomar, isso é muito brasileiro. Menos brasileiro, talvez seja na tranquilidade O pessoal nos clubes dizia sempre “tu não pareces brasileiro”. Talvez pela minha serenidade, dava palpites na hora certa, enfim, não era samba no pé.

Qual o momento mais difícil da vida até hoje?
Ter saído de casa aos 15 anos.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Provavelmente bombeiro igual ao meu pai [risos]

Uma última história para contar. Tem?
Tive um treinador, não vou falar o nome, que atirava sal grosso nos bancos de suplentes e atrás da linha de golo. Tive outro que toda a vez que tinha uma bola parada, ele pedia uma garrafinha de água e bebia de costas para o campo.