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Apesar do bromance, o sábio Djokovic castigou o caos de Kyrgios na final de Wimbledon

Novak Djokovic conquistou pela sétima vez o torneio de Wimbledon, igualando Pete Sampras e William Renshaw, ficando apenas a um triunfo de Roger Federer. O sérvio somou ainda o 21.º major da carreira, encurtando a distância para Rafael Nadal (22), que abandonou o torneio por lesão. Depois do jogo, Djoko confirmou o " bromance" com o adversário e o australiano chamou-lhe "quase deus"

Hugo Tavares da Silva

Julian Finney

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Há muitos jogos num jogo de ténis. A mão afinada, a decisão, a antecipação, a carapaça mental, a coragem, a criatividade e a fiabilidade são algumas dessas contendas que se misturam, ora furiosamente ora gentilmente, e criam um puzzle glorioso que culmina, algumas horas depois, no levantamento de um magnífico e brilhante troféu.

Novak Djokovic, uma lenda deste deporto ainda no auge aos 35 anos, batia as bolas em busca do 21º major, procurando encurtar a distância para os 22 de Rafael Nadal, que abandonou o torneio de Wimbledon por lesão, oferecendo ao deslumbrante e errático Nick Kyrgios umas pernas frescas e algumas noites mal dormidas, por nervos, admitiu o próprio. Afinal, e apesar do bocejo antes de entrar no court principal do All England Lawn Tennis and Croquet Club, o ténis ainda mordisca a alma do australiano.

Novak Djokovic era super-favorito, é certo, mas o que Kyrgios representa é algo fantástico, virtuoso, inesperado. Caótico. Caos é talvez a melhor palavra para o definir. Toni Nadal, nas páginas do “El País”, escreveu este domingo que era imprevisível saber-se que versão de Nick estaria no court. “A aparente insensatez, que o leva a desperdiçar não poucas oportunidades de vitória, entendo que é uma incontrolável intranquilidade perante a dificuldade”, refletiu o ex-treinador e tio de Rafa. “Creio que ele não tem o costume de conter-se nos pontos decisivos e essa falta de hábito pode ser hoje o seu maior problema.” Resumindo, “a cabeça” e a “falta de controlo das emoções” ditam o lado negativo do seu ténis. Novak teria de navegar nessas águas.

E teve problemas no primeiro set. O sereno, capaz, fiável e genial Kyrgios (n.º 40) fez o que costuma fazer quando está bem: bateu bolas com um tal descaso e qualidade que criou fatais dificuldades ao sérvio. Amortis, acelerações, contra amortis, volleys, enfim, tudo isso a juntar a um serviço autoritário. E, perante o recordista de finais em torneios do Grand Slam (32), Kyrgios ganhou mesmo o primeiro set por 6-4, sendo decisivo o 3-2 quando quebrou o serviço do adversário. O ténis de Nick era variado, até com travessuras como uma bola por baixo das pernas, e Djokovic não estava mal, simplesmente não chegava para aquela versão do australiano.

Mas Novak tem aquela fibra de supercampeão e parece saber calibrar o seu ténis ao nível da exigência que surge do outro lado do court. Talento não é só saber executar o que se pensa e se decide, mas é também arranjar-se soluções para os problemas em que se tropeça. E Djokovic foi, é e será sempre um feroz competidor, inteligente. Venenoso. Então, tudo mudou. Começou com um jogo em branco no segundo set e, com a sorte de um beijo da rede na bola para o lado certo da relva, conseguiu igualmente com um jogo em branco quebrar o serviço portentoso de Kyrgios, chegando ao 3-1 e à certeza de que o vento soprara agora ao contrário, até porque o australiano começou a soltar as suas agruras.

O sérvio estava mais agressivo, do outro lado aterravam dúvidas na cabeça do homem que usaria um boné vermelho na cerimónia final, quebrando o protocolo, lembrando toda a gente que se mantém como o bad boy do circuito, apesar da fundação do improvável bromance com Djokovic. No último jogo, que sentenciaria o segundo set em 6-3 para Novak, Kyrgios esteve com 40-0 e deixou-se superar, queixando-se depois, já sentado na sua cadeira, de uma forma violenta contra as pessoas na sua box. Parecia dizer que quando ele estava na frente de um jogo por 40-0, eles relaxavam. A mirada do tenista era agressiva. A tensão tinha quase cheiro e forma.

Djokovic comporta-se como o campeão que é, tal a serenidade e a certeza com que bate na bola e se move no court. Kyrgios, de 27 anos, estava fora de si e ia acumulando erros e mais erros. O que é absolutamente notável é que alguém assim, que parece instável ou dependente de um rumor de calma interior, consiga discutir um jogo e um set inteiro contra um dos maiores tenistas da história deste desporto.

Novak havia prometido “fogo de artifício” nesta derradeira partida de Wimbledon, onde todos se fardam de um imaculado branco e os pontos geniais de parte a parte cumpriram com o acordo, mas também o jeito de se afobar e afogar de Nick era parte do espectáculo. O australiano queixou-se mais do que uma vez ao árbitro que o ruído na bancada o estava a incomodar, especialmente uma “senhora de vestido” que parecia já ter bebido umas "700 bebidas” alcoólicas. O árbitro pegou no telefone, deu uma qualquer ordem e o show seguiu. Apesar das emoções que a liberdade e o descaso que transmite Nick Kyrgios, todos sentiam no ar para onde nos encaminhávamos. E o jogo confirmou-o.

Julian Finney

Mesmo debaixo e dentro de um caos enorme, este duelo foi levado até ao tie break neste quarto set e aqui o sérvio castigou o adversário severamente: 1-0, 2-0, 2-1, 3-1, 4-1, 5-1, 6-1, 6-2, 6-3 e 7-3. Depois do último erro libertador de Kyrgios, Djokovic abriu os braços e respirou fundo. No aperto de mão entre ambos os atletas, o que perdeu sorria mais e admitiria poucos minutos depois, a seguir a chamar “quase deus” a Djoko, que não estava nada virado para voltar às finais, já que ele e a sua equipa estão “exaustos” de tanto jogar. Novak contrariou-o, disse que ele voltará a jogar a este nível e que ele é um “jogador fenomenal” com um “talento incrível”. A seguir, beliscando a má relação que sempre tiveram e que está resolvida depois de interações nas redes sociais, o humor: “Não pensei dizer tantas coisas boas sobre ti… OK, é oficialmente um bromance”. Das bancadas chegavam risos ternos e gargalhadas.

Com este triunfo, o quarto consecutivo, o número 3 do circuito iguala as lendas William Renshaw e Pete Sampras, com sete levantamentos de troféu em Wimbledon, ficando apenas a um de Roger Federer, o mago da relva que ganhou este torneio pela última vez em 2017.

O sérvio contou que foi Pete Sampras, naquele mesmo campo no início da década de 90, que o levou a pedir ao pai uma raquete. Tinha apenas quatro ou cinco anos. “Já o disse muitas vezes: [Wimbledon] foi e sempre será o mais especial [torneio] no meu coração, o que mais me motivou e inspirou para começar a jogar numa pequena zona montanhosa na Sérvia”, reforçou. Surpreendido por ver agora a filha pequena na bancada, pois ainda não tem idade para testemunhar ao vivo o edifício superlativo que o pai está a construir, parecia mais feliz ainda e agradeceu a toda a gente que o acompanha.

Sue Barker, mestre de cerimónias e campeã de Roland-Garros em 1976, que se despedia esta tarde desta tarefa, perguntou ao tenista, depois de o convidar a falar para a sua equipa e box, se queria dizer algo em dia de aniversário de casamento. Djokovic agradeceu a lembrança por lhe poupar o embaraço e prometeu-lhe flores.