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Para elas, já não é só um sonho

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Kika Nazareth vai aos 19 anos fazer a estreia em grandes competições por seleções a nível sénior. O Europeu arranca na quarta-feira

Kika Nazareth vai aos 19 anos fazer a estreia em grandes competições por seleções a nível sénior. O Europeu arranca na quarta-feira

Gualter Fatia/Getty

Kika Nazareth é, provavelmente, o mais próximo que o futebol feminino português - e porque não o futebol, apenas futebol, “sem género” como ela própria diz - tem de uma futura estrela. Não só pelo que joga, mas também pela ginga, pelo carisma, o à-vontade de quem ainda olha para uma bola como a coisa que mais a diverte no mundo. Na sua maior pureza. Tem 19 anos e vai estrear-se em grandes competições enquanto sénior. O Europeu feminino arranca na próxima quarta-feira e Portugal tem o primeiro jogo no sábado, frente à Suíça.

É a segunda participação consecutiva de Portugal na prova continental, ainda que repescada para substituir a Rússia, impedida de estar em Inglaterra por motivos que todos conhecemos. Um passo para um país que acordou tarde para o futebol feminino. Sabem quão tarde? É só ler o que diz Kika, 19 anos apenas, não se esqueçam, que quando era criança não tinha nem “o sonho nem objetivo” de jogar no clube do seu coração, o Benfica, porque o seu Benfica era então, tal como tantos outros clubes, um sonho exclusivo dos rapazes futebolistas. Aqui há dias falava com o meu camarada Pedro Barata e ele referia precisamente esse dado curioso, que tantas vezes nos passa ao lado: até há bem pouco tempo, as meninas que gostavam de jogar futebol não podiam ter sonhos. Por isso é que Ana Borges, Carole Costa, Carolina Mendes ou Dolores Silva, algumas das mais veteranas da nossa seleção, foram obrigadas a sair, obrigadas a ir sonhar para outro lado, a correr o mundo antes de voltarem a Portugal, quando finalmente Sporting, Benfica e SC Braga chegaram ao futebol feminino. Cláudia Neto, a grande figura de Portugal até deixar o futebol de seleções, em 2021, vai jogar na próxima temporada na nossa liga depois de passar por alguns dos melhores campeonatos do mundo.

O percurso de Kika Nazareth já foi outro: com a chegada do Benfica ao futebol feminino, teve a oportunidade de já fazer parte da formação no clube, estrear-se na equipa principal, ser campeã nacional pelo emblema que cresceu a adorar, sem imaginar sequer que um dia poderia jogar no Estádio da Luz. Se um dia quiser sair, não será por não ter condições para jogar cá: será porque o seu talento já não cabe neste retângulo. E isso são boas notícias.

Mas ainda há muito caminho a percorrer. Portugal estará no Europeu e está longe de ser favorito. No seu grupo estão duas das maiores potências, a Suécia e os Países Baixos. Passar à fase seguinte seria um feito histórico. Mas há vitórias que se poderão retirar desta participação: saber que, em Portugal, milhares de meninas estarão a ver a sua seleção a jogar nos maiores palcos, a sonhar um dia ali estar, será a maior delas.

Por cá, há cada vez mais clubes a avançar para a criação de equipas femininas, como o Vitória de Setúbal ou o Moreirense ainda recentemente (até porque isto não pode ser só um trabalho dos grandes). Só assim o futebol feminino em Portugal estará ao nível dos melhores, ao nível do talento que as nossas jogadoras têm nos pés. Nessa conversa com o Pedro Barata, ele também referiu que em breve chegará à seleção nacional a primeira geração de jogadoras que já cresceu com a oportunidade de ter como objetivo envergar a camisola do seu clube do coração, do clube da sua terra, de Portugal. Não só sonhar, não só de olhar para o impossível. E não haverá motivação maior.

(Por falar em Pedro Barata, ele e a Tribuna estarão a acompanhar Portugal em Inglaterra já a partir desta semana. Vão ficando por aí)

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O que aí vem

Segunda-feira, 4

🎾 Começa a segunda semana de Wimbledon, com Rafael Nadal em ação. E Nick Kyrgios também (11h, Sport TV1 e 2)

Terça-feira, 5

⚽ Não perca o sorteio da nova temporada da I Liga, bem como os prémios relativos à época passada (19h, Sport TV+)
🚴 Depois do descanso, o Tour está de regresso e já em estradas francesas, para a etapa 4, entre Dunquerque e Calais (13h, Eurosport 1)

Quarta-feira, 6

⚽🏃🏻‍♀️ Pontapé de saída no Europeu feminino, com o Inglaterra - Áustria (20h, 11)
🚴 Dia importante no Tour, com a passagem do pelotão pelo pavé do norte de França (13h25, Eurosport 1)
⚽ Na Libertadores, o Palmeiras de Abel Ferreira recebe o Cerro Porteño (23h15, Sport TV1)

Quinta-feira, 7

⚽🏃🏻‍♀️ Euro feminino: Noruega - Irlanda do Norte (20h, RTP Play)

Sexta-feira, 8

⚽🏃🏻‍♀️ Euro feminino: Espanha - Finlândia (17h, 11) e Alemanha - Dinamarca (20h, RTP Play)
🏁 Fórmula 1: GP Áustria, qualificação (14h, Sport TV4)
🚴 Primeiro dia de verdadeira montanha na Volta a França, com chegada em La Super Planche des Belles Filles (13h, Eurosport 1)
🥋 Grand Slam de Budapeste em judo, com Catarina Costa e Telma Monteiro em competição (16h, Sport TV6)

Sábado, 9

⚽🏃🏻‍♀️ Não perca a estreia de Portugal no Euro feminino, frente à Suíça (17h, RTP). Países Baixos e Suécia, do mesmo grupo da seleção nacional, também jogam (20h, 11)
🎾 Wimbledon: final feminina (13h45, Sport TV1)
🏁 Fórmula 1: GP Áustria, corrida de sprint (15h30, Sport TV4)
⚽ No campeonato argentino, há dérbi de Buenos Aires: San Lorenzo - Boca Juniors (19h30, Sport TV2)

Domingo, 10

⚽🏃🏻‍♀️ Euro feminino: Bélgica - Islândia (17h, RTP Play) e França - Itália (20h, RTP Play)
🎾 Wimbledon: final masculina (13h45, Sport TV1)
🏁 Fórmula 1: GP Áustria, corrida (14, Sport TV4)

Hoje deu-nos para isto

Mark Thompson/Getty

Ora aí está uma semana onde uma fotografia como esta me faz sorrir ainda mais. Aqui está o ator Tom Cruise a observar o carinho entre Anthony Hamilton, pai de Lewis Hamilton, e Antonio Pérez Garibay, pai de Sergio Pérez, enquanto os filhos festejavam o pódio do GP Grã-Bretanha. É uma fotografia particularmente bonita - os anglo-saxónicos têm uma boa palavra para aquilo que ela nos faz sentir, é wholesome - tirada depois de um dos melhores grandes prémios da época e após de dias e dias em que Fórmula 1 foi motivo de conversa por causa de duas personagens que resolveram voltar lá do tempo das cavernas.

Começou com Nelson Piquet, tricampeão mundial, a referir-se a Hamilton com um termo racista, jogando depois a cartada do “desculpem, porém no meu país toda a gente diz isto”, como se de repente isso tornasse a palavra mais aceitável - e mais tarde, cavando ainda mais na caverna, percebeu-se que alguém de termos racistas, o brasileiro também usou uma expressão homofóbica para falar do heptacampeão mundial.

E depois, the one and only Bernie Ecclestone, a assumir que “levaria uma bala por Vladimir Putin” e defendendo Piquet, o que obrigou a Fórmula 1 a lançar um comunicado, afastando-se das declarações do homem que durante décadas foi o líder supremo da categoria.

Acontece que hoje a Fórmula 1 é um sítio muito mais aberto e preocupado com o que se passa à sua volta do que nos tempos de Piquet e Ecclestone. Hamilton reagiu com a ponderação do costume, lembrando que não pode haver palco para pessoas racistas e discursos que agridem e até Max Verstappen, genro de Nelson Piquet, deixou duras críticas às palavras do sogro.

É a eles e ao carinho que as personagens que andam por estes dias no paddock parecem ter umas pelas outras que devemos dar palco. O resto, como disse Hamilton, são “vozes velhas”, fora de tom, fora de lugar.

A última semana foi de alegria para a Tribuna Expresso, que seis meses depois está de regresso à sua casa, onde poderá continuar a acompanhar como sempre não só a atualidade desportiva como as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook, Instagram e no Twitter. Tenha uma boa semana!