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A casa às costas

“Nos anos 90 havia um sentimento de ódio e raiva complicado em relação ao FC Porto. Quiseram tirar o mérito do nosso trabalho e conquistas”

Nesta segunda parte do Casa às Costas, Aloísio fala sobre os 11 anos passados no FC Porto como jogador, recorda feitos e feitios, tanto de jogadores como de treinadores. Conta como foi passar de jogador a técnico-adjunto de um dia para o outro e revela pormenores de Mourinho, Fernando Santos, Del Neri e Fernandez, antes de falar sobre o regresso ao Brasil. Confessa que tem vontade de assumir novamente um papel em campo e que pode acontecer em breve no Brasil ou em Portugal

Alexandra Simões de Abreu

Jon Buckle

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Bobby Robson revolucionou o futebol do FC Porto quando chegou, em 1993/94?
Sim, nada a ver com Ivic. Ele já veio com Mourinho como auxiliar, que é uma pessoa que já vê o futebol de forma diferente e que tinha bastante influência no mister. O mister Robson gostava do futebol mais solto, mais bonito, tinha um plantel de qualidade e deu-nos essa liberdade, fez um sistema de jogo que era compatível com os jogadores que tinha. Voltou a alegria. Das minhas 11 temporadas no FC Porto, essas épocas com Bobby Robson foram as que o FC Porto jogou muito mesmo, tanto em casa como fora. Nós goleávamos, estávamos imparáveis e era muito bonito ver o FC Porto jogar, pela qualidade dos jogadores, pelo treinador que tinha, ele cobrava muito sobretudo na parte tática e técnica. Casou muito bem o senhor Bobby Robson com o FC Porto. Eu sentia-me muito feliz.

É com Bobby Robson que evolui mais a sua forma de jogar?
Sim, já estava com outra cabeça. Apesar de no início ouvir os adeptos na bancada a gritar "O que é que estás a fazer, chuta para a frente", até poderia cometer um erro ou outro mas eu estava confiante naquilo que ia fazer e de alguma forma eu ia dar alegria ao sócio por fazer uma jogada diferente, por isso corria algum risco.

Ele fez-lhe uma “maldade” ao colocá-lo a marcar Stoichkov num jogo da Liga dos Campeões contra o Barcelona…
Com o Bobby Robson joguei em três posições. Joguei a lateral esquerdo uma vez contra o Feyenoord, outra joguei também como 5, mas aí tudo bem foi uma emergência. Acho interessante um jogador fazer mais de uma posição. Nesse jogo com o Barcelona, na época o lateral esquerdo era o Rui Jorge e o Mourinho um dia antes do jogo, depois do jantar, chamou-me, disse que o mister queria falar comigo. Eles andaram a conversar, viram os jogos e acharam que eu seria a melhor opção para a esquerda porque o Rui em princípio era mais lento do que eu e o Stoichkov jogava pela direita, fazia aquela diagonal, era muito rápido, e achavam que eu podia fazer a função.

Qual foi a sua reação?
Era o meu primeiro jogo contra o Barcelona, depois de ter saído de lá. Para mim era um jogo especial, queria fazer um bom jogo. Disse-lhe que não esperava, que gostaria de jogar na minha posição mas eu queria jogar. Se aquela era a decisão deles, eu ia jogar onde eles queriam. Mas não deu certo, sofremos dois golos pelo meu lado e foi um jogo que as pessoas ainda hoje lembram [risos]. Fiquei muito chateado depois do jogo. Se eu tivesse jogado na minha posição, não que tivéssemos ganhado, não sei, mas eu teria tido com certeza um desempenho melhor do que como lateral esquerdo. Mas faz parte.

Que característica do Bobby Robson achava mais engraçada?
Ele era muito expansivo e natural. Naquele português arrevesado, em que ele misturava o português com o inglês, foi o treinador mais humano que apanhei na minha carreira. No sentido de conversar contigo, de estar próximo, de te abraçar e olhar nos teus olhos e dizer a palavra certa na hora certa. Tinha uma forma muito diferente de tratar os jogadores, do género tu és meu jogador mas ao mesmo tempo meu filho, tu precisas de uma palavra. Parecia que adivinhava. O jogador não estava feliz, não estava contente, ele sabia, colocava a mão no ombro, dava moral para o jogador, falava muito bem, elogiava mas ao mesmo realçava o colega da posição. "Tu és um grande jogador, jogas muito, grande profissional, grande jogador mas o fulano também é um grande jogador”, como quem diz, é o momento do outro, não é o teu, mas o teu pode chegar por isso não baixes a cabeça. Ele conseguia motivar. Mesmo um jogador que estivesse muito chateado por dentro, ele conseguia tirar um sorriso.

É verdade que ele dava notas aos jogadores?
Sim. Ele falava do jogo, o que aconteceu ou não e depois dizia Vítor Baía, nota 6, Fernando Couto, nota X, era muito engraçado. O grupo era muito bom, muito eclético, muito alegre.

Qual era realmente o papel de José Mourinho na altura?
O Mourinho já tinha muitos conhecimentos da parte treino e da parte física. Elaborava os treinos. Quem comandava era o mister, mas o Mourinho também comandava, embora a figura principal fosse o mister Robson. O Mourinho teve uma base espetacular. Depois do mister ele ficou com o Van Gaal no Barcelona, numa conversa ele disse que com o Van Gaal foi com quem fez a sua pós-graduação, porque o Van Gaal era muito acima da média. E foi aí que o Mourinho decidiu que já estava pronto para treinar.

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