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A casa às costas

“Não queria ser lembrado como um central que só dava chutões. Mas no FC Porto tive a minha fase de bem mauzinho, é verdade, eu bati muito”

Filho de um mecânico numa família de oito irmãos, Aloísio decidiu numa semana o seu futuro, após o sermão de um tio sargento. Do Brasil de Pelotas até ao Internacional foi um pulinho. Depois Cruyff viu-o jogar e abriu-lhe as portas da Europa, através do Barcelona. Seguiu-se a decisão que mudou a sua vida, a vinda para o FC Porto, embora Portugal não fizesse parte dos seus planos. Esta é a primeira parte do Casa às Costas com o central brasileiro com uma estátua no Museu do FC Porto e que aos 58 anos faz um curso de psicanálise clínica, online

Alexandra Simões de Abreu

Reuters Photographer

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Nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Brasil. Comece por nos apresentar a sua família de origem?
O meu pai é Oleto Alves, a minha mãe Teresa Ferreira Pires, já falecida, só o meu pai ainda é vivo. A minha mãe era doméstica e o meu pai foi mecânico durante quase toda a sua vida. Somos uma família bem grande, agora infelizmente menor porque já faleceram três irmãos. Éramos quatro homens e quatro mulheres, eu sendo o mais novo dos homens, e o segundo mais novo de todos.

Quais as primeiras memórias de infância?
Morávamos no interior, era uma cidade grande, mas sempre morámos em casas, nunca em apartamento. Então criei-me com pátio, com espaço à frente da casa ou atrás, com uma certa liberdade, isso marcou muito a minha infância. Lembro de poder brincar com os meus irmãos, poder jogar bola. Essa liberdade de espaço que tinha é a minha primeira memória.

Que tipo de criança foi?
Eu era muito inquieto, muito arteiro na verdade, tinha muita energia e a bola sempre esteve muito presente na minha vida. No verão, com o calor, gostava de estar com os pés na lama, no barro, e fazer brincadeiras.

Desde pequeno que queria ser jogador de futebol ou teve aquela fase em que queria ser médico, bombeiro ou outra coisa?
Na escola, no segundo ou terceiro ano, a professora perguntou o que vai querer ser quando for grande e eu disse que queria ser jogador de futebol ou ir para a Marinha. É que numa outra fase, um pouco mais velho, eu tinha um colega que morava na casa em frente e que era da Marinha e eu achava bonita a farda dele. Gostava de vê-lo fardado chegando a casa, então também foi meu desejo servir a Marinha do Brasil.

Tem alguma história de infância que ainda hoje toda a gente na família se lembra e conta?
Nessa fase da minha infância, em que eu fazia assim algumas artes, como se costuma dizer aqui no Brasil, era muito arteiro, havia um senhor que tinha umas carroças e fazia fretes, carregando coisas. Ele tinha três cavalos que levava para o campo para pastar e depois nós íamos buscar esses cavalos para levar para a casa. Era uma grande aventura, éramos miúdos, tinha 12, 13 anos, montávamos em pêlo, sem freio nem nada. Colocávamos uma corda por dentro da boca do cavalo e fazíamos o freio [risos]. Eu tinha a mania de inventar de fazer corridas de um espaço até outro, o que era muito divertido, mas perigoso. Por acaso nunca caí do cavalo [risos].

Gostava da escola?
Eu gostava da escola pelo facto de termos aquele convívio na sala de aula, com a professora e depois o recreio. Mas eu era tímido e muito introvertido quando era pequeno, e gostava de estudar.

Quem eram os seus ídolos?
Eu admirava muito o meu pai e a minha mãe, com quem convivi mais. Ainda miúdo lembro de sair com ela, de ela pegar na minha mão, sempre foi uma pessoa que admirei bastante pela forma de criar e educar os filhos, conseguiu passar-nos coisas boas. No futebol, eu era bem novinho mas já se falava no Pelé, achava um jogador fabuloso. Depois fui crescendo e o meu ídolo até hoje, como central, era o Luizinho, que na época jogava no Atlético Mineiro, era o central da seleção do Brasil de 82, na Espanha e jogou no Sporting.

Tinha algum clube pelo qual torcia?
O meu clube do coração era o clube onde comecei a jogar, o Brasil de Pelotas [Grêmio Esportivo Brasil].

Como e quando começou a jogar lá?
A minha história em relação ao futebol definiu-se numa semana. O meu sonho era jogar futebol e como morava perto do estádio, os meus pais, sobretudo a minha mãe, cobrava o meu estudo, e eu não trabalhava. Nós éramos uma família bem humilde, eu sempre fui maior que as outras crianças com a mesma idade, sempre fui mais alto, e chegou uma certa altura em que eu tinha de ajudar em casa, tinha de começar a trabalhar. Só que, para além do estudo, eu queria jogar futebol e era bem complicado. Naqueles testes onde tinha cento e tal jogadores, era muito difícil ter tempo para poder mostrar o teu talento, e tinha muitos bons jogadores. Eu tinha um tio que era sargento da polícia militar e morava noutra cidade, mas a minha mãe chamou-o para ter uma conversa comigo.

O que ele lhe disse?
Ele veio dar-me um sermão, porque eu tinha de começar a trabalhar para ajudar em casa porque ele com 13, 14 anos já ajudava e tal. Fez-me um ultimato, disse que o futebol não dá nada, é ilusão, aquelas coisas. Nessa semana eu só pensava, eu ainda nem comecei e vou ter que desistir? Fiz uma avaliação na equipa do Brasil de Pelotas, mas não deu, eu treinei pouco. Mas não desisti, entretanto mudou o treinador, eu voltei, fizemos um jogo treino em que eu me destaquei. Era aquela a minha oportunidade. No intervalo, estava a beber água e ele veio e deu-me uma camisa, supostamente da equipa titular. E pronto, foi aí que deu o volte-face na minha vida, tinha eu 15 para 16 anos.

Não chegou a ter de trabalhar para ajudar em casa?
Não.

Começou logo a receber dinheiro do futebol?
Não, o clube era perto de minha casa, não tinha despesa com estadia nem alimentação, tinha uma ajuda de custo. Eu tinha 16 anos, jogava num escalão acima e disputei o campeonato estadual, enfrentávamos o Grêmio e o Inter [Internacional], as duas equipas grandes da cidade, da capital. Eu joguei bem contra o Grêmio e contra o Inter, acabei por destacar-me. Eu era muito novo, com 16 depois já treinava com a equipa principal e jogava nos juniores. Com 18 fui vendido para o Internacional, ainda nos juniores.

Quando ganhou o primeiro ordenado, só quando assinou com o Internacional?
Eu tinha uma ajuda de custo, na verdade, não era nem um salário porque eu era menor e não tinha um contrato profissional. Era uma ajuda de custo que dava para comprar algumas coisas para mim, nem dava para ajudar muito em casa. Era mais simbólico do que outra coisa. Mas fez-me crer que podia ser um atleta profissional e à família também. Deu-me outra motivação, outra perspectiva da realidade em relação ao futuro.

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