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GP Grã-Bretanha. As muitas vidas de Carlos Sainz, que acabou com a segunda maior espera de sempre para chegar à primeira vitória na F1

Num grande prémio marcado pelo acidente grave que fez Guanyu Zhou andar às voltas no ar com o Alfa Romeo e levou Alex Albon para o hospital, Carlos Sainz passou por todas para vencer pela primeira vez na Fórmula 1. O piloto da Ferrari, errou, voltou a erguer-se, defendeu-se, teve sorte com os azares dos outros, para no final ser mesmo o primeiro a ver a bandeira de xadrez, à 150.ª tentativa

Lídia Paralta Gomes

JUSTIN TALLIS/Getty

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Poderá ter sido um misto de sorte, azares alheios, estratégia e de escolha da própria equipa, mas no final o que conta são aqueles braços no ar no topo do pódio. E Carlos Sainz levantou-os pela primeira vez, 150 corridas depois, conquistando a vitória no GP Grã-Bretanha. Só Sérgio Perez, que curiosamente até terminou em 2.º em Silverstone, tinha demorado mais tempo a vencer, 190 corridas.

Tudo isto num grande prémio cheio de voltas e reviravoltas, acidentes que nos sustiveram a respiração, abandonos inesperados e não livre de falhas para o espanhol da Ferrari, que partia da pole (a sua primeira também) e logo no arranque se viu ultrapassado por Max Verstappen, com pneus macios - o espanhol partia de médios.

Mas na primeira curva um grave acidente que envolveu cinco carros fez chamar as bandeiras vermelhas. O voo com várias voltas do carro de Guanyu Zhou preocupou, após um toque com Gasly e Russell ter feito o Alfa Romeo ficar de pernas para o ar, dirigindo-se a alta velocidade para a parede de pneus. Os longos minutos em que não houve imagens do acidente fizeram temer pelo estado do chinês, que no final de contas se tornou, felizmente, apenas em mais um piloto salvo pelo halo: o carro ficou enfaixado entre os pneus e o gradeamento da bancada, com a parte posterior destruída. Zhou saiu de maca, mas no final da corrida já andava pelo próprio pé, provando que quando se fala em segurança na Fórmula 1, não há cuidados que sejam demasiados. Alex Albon, também envolvido no acidente, seguiu para o hospital de Coventry, por precaução. George Russell ficou também na primeira curva, terminando a sequência de top 5 que durava desde o início da temporada.

A corrida ficou parada quase uma hora e o recomeço foi feito de acordo com a grelha de partida, com nova oportunidade para Carlos Sainz se defender de Max. E à segunda, o espanhol já não se deixou enganar: agarrou a posição com unhas e dentes, de forma agressiva, enquanto lá atrás Charles Leclerc tentava pressionar o neerlandês e Pérez, a partir de 4.º, a fazia o mesmo com o monegasco. Quem sofreu foram as asas dianteiras dos carros de Leclerc e Perez. O homem da Red Bull foi obrigado a parar, o da Ferrari continuou.

A boa partida de Sainz não significaria, no entanto, fuga para o número 55 da Ferrari. Sem ganhar tempo a Verstappen, o campeão do Mundo rapidamente se colou ao espanhol, que à volta 10 errou, saiu de pista, deixando caminho livre para o Red Bull. E o que parecia o início de mais uma vitória tranquila para Verstappen não seria mais do que uma ilusão: duas voltas depois, o neerlandês furou, foi à box e a partir daí teve de lidar com um carro cheio de problemas, que não lhe permitiu lutar pelo pódio - terminou em 7.º.

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Era outra vez corrida para os Ferrari, mas com Lewis Hamilton por perto, numa demonstração de evolução do Mercedes W13. À volta 31, a Ferrari deu ordens para Sainz, mais lento, deixar passar Charles Leclerc, mas um safety car a 13 voltas do fim, depois de Esteban Ocon deixar morrer o seu Alpine na zona da antiga reta da meta, voltou a trocar as voltas à prova. Sainz parou, tal como Hamilton, com a Ferrari a deixar Leclerc em pista. E no recomeçou, uma vida nova para o espanhol: com pneus macios e com mais saúde, Sainz rapidamente ultrapassou o colega de equipa e, desta vez, fugiu.

Atrás dele começava uma luta cinematográfica entre Leclerc, Hamilton, Pérez e Alonso, com momentos espectaculares de duelo em pista, incluindo uma dupla ultrapassagem do britânico ao Ferrari e ao Red Bull. No final, o melhor desempenho do Red Bull daria a Sérgio Perez um inesperado 2.º lugar, tendo em conta que o mexicano andou pela 17.ª posição antes de paulatinamente recuperar, beneficiando também do abandono de Ocon e do aparecimento milagroso do safety car.

Hamilton venceu no braço de ferro com o Ferrari de Leclerc, de todos o que tinha pneus mais desgastados, para lá de danos no carro. E num grande prémio com seis abandonos, Mick Schumacher (Haas) conseguiu pontuar pela primeira vez, protagonizando no final um belo duelo com Verstappen, num Red Bull diminuído. Ainda assim, o líder do Mundial segurou o 7.º lugar. O 8.º deu quatro pontos ao alemão.

Para Carlos Sainz, este foi um fim de semana especial, numa pista que considera especial. “Primeira vitória, 150 corridas depois, com a Ferrari, em Silverstone. Não posso pedir mais, é um dia muito especial, que nunca vou esquecer. Um fim de semana muito especial”, disse na entrevista rápida logo após cruzar a meta, já de bandeira espanhola aos ombros. Sainz é apenas o segundo espanhol a vencer uma corrida de Fórmula 1, depois de Fernando Alonso, que levou o seu Alpine a um bom 5.º lugar.

Uma vitória que coloca o madrileno em 4.º no Mundial de pilotos, com 127 pontos, ultrapassando George Russell. Max Verstappen mantém-se em 1.º, com 181, mas agora com o colega Pérez mais perto, com 147. Charles Leclerc segue em 3.º, com 138. Nos construtores a Ferrari ganhou alguns pontos à Red Bull, mas a vantagem continua larga para a equipa das bebidas energéticas: 328 contra 265 pontos.

O Mundial regressa já na próxima semana, no GP Áustria, casa da Red Bull, com o Spielberg a receber também a segunda corrida de sprint do ano, depois de Ímola.