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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O futebol português não é propriamente uma escola de virtudes. Mas nem tudo é mau

O antigo árbitro internacional Duarte Gomes fala dos bons exemplos e iniciativas do futebol português, lembrando que o desporto ainda é um "lugar fantástico, onde muita coisa boa acontece" e onde ainda "muita gente decente navega"

Duarte Gomes

Octavio Passos

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O futebol português não é, propriamente, uma escola de virtudes e isso deve-se essencialmente ao protagonismo nefasto que alguns dos seus atores secundários insistem em manter, fora das quatro linhas. É preciso que relembremos exaustivamente esta falha enquanto ela ferir, de morte, o bom nome do jogo.

Mas nem tudo é mau (pelo contrário) e é da mais elementar justiça que elogiemos também tudo o que de bom acontece em torno do desporto-rei.

Há, no imenso mundo do futebol, muitas pessoas de bem, que ocupam cargos de relevo e que têm sido fundamentais na forma como procuram elevar o patamar desportivo e ético desta atividade. Convém não esquecermos a importância que ela tem para milhões de seguidores, sedentos de lhe seguir as pisadas.

É sobretudo por isso que a responsabilidade social das suas grandes instituições é enorme. Os clubes, as estruturas e todos os seus agentes têm obrigação moral de se constituirem como referência em tudo o que diga respeito a questões solidárias.

O exemplo do que fazem FPF e Liga Portugal é disso prova cabal e merece ampla divulgação.

Aliás, é exatamente esse o tipo de comunicação que faz bem à industria: a partilha continuada de ações positivas, altruístas, que devolvam crença aos adeptos e credibilidade à imagem do jogo.

No caso da Federação Portuguesa de Futebol, os exemplos são mais do que muitos. Vão da criação do "Cada clube, uma Família" (apoio ao acolhimento de refugiados ucranianos, potenciando a sua integração em clubes e famílias portuguesas) a várias campanhas de angariação de fundos para as vítimas da guerras, sem esquecer a entrega de donativos através de iniciativas lançadas em jogos de seleções. A ajuda estende-se ainda aos direitos humanos, às populações em risco e a grupos de maior especificidade (minorias, daltónicos, diabéticos, paralímpicos, etc). Nessa matéria, nota de destaque para um número elevado de clubes que, desde cedo, responderam afirmativamente a vários reptos lançados pela Casa-Mãe (Quinta dos Lombos, CD Mafra, GD Sesimbra, Fundação Benfica, Sporting CP, CD Feirense, Estoril, Caldas SC, Alcochetense, SC Braga, Vitória SC, UD Santarém e tantos, tantos outros).

Também a Liga Portugal, através da sua Fundação, não tem tido mãos a medir: "Kukula", "Esta bata tem Poderes" e "Todos os Tipos Contam" são apenas três entre dezenas de exemplos do que de mais nobre tem sido produzido na sede do futebol profissional português.

As ajudas, que se repetem em campanhas infindáveis, têm sido direcionadas para áreas tão distintas, como luta contra o racismo, crianças em risco e/ou mais desfavorecidas, hospitais, ONU (vida marítima), questões relacionadas com sustentabilidade e muito, muito mais.

Tudo isto tem valor e merece realce. Tudo isto merece elogio, aplauso e partilha reiterada.

Também merece nota muito positiva a postura que muitos clubes de topo (e não só) têm mantido no desempenho deste papel, mas infelizmente as notícias que dão conta disso raramente vão além das notas de rodapé: a generalidade da imprensa desportiva continua em modo sobrevivência e descura, quase sempre, o seu papel educativo e pedagógico; a comunicação interna dos próprios clubes prefere atacar o rival e falar de erros dos árbitros em vez de apostar fortemente naquilo que faz de melhor.

Assim não há quem resista.

O desporto é um lugar fantástico, onde muita coisa boa acontece. É um lugar onde muita gente decente navega.

No dia que tiver coragem, independência e legitimidade para se livrar de uma dúzia de carreiristas gananciosos, poderá ser aquilo que sempre se quis que fosse.

É muito mais fácil do que parece.