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Carlos Alcaraz, o “miúdo básico” que tem “medo de desiludir” os que o rodeiam e não se vê como um eleito

O tenista de apenas 19 anos venceu o US Open e subiu ao primeiro lugar do ranking ATP. Em entrevista a alguns jornais, incluindo o “El País”, o espanhol revelou-se autoanalítico, não se considerando especialmente meticuloso com as rotinas, contradizendo-se depois. Coisas de adolescente que já faz parte dos melhores jogadores do mundo

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Tim Clayton - Corbis

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Carloz Alcaraz, tenista de 19 anos, natural de Múrcia, em Espanha, é o novo líder do ranking ATP, após a vitória no US Open. Diz dele próprio que não é especialmente meticuloso com as rotinas, apesar de não o confirmar nas declarações seguintes. “Obviamente, tenho o meu aquecimento e tento ir sempre ao mesmo sítio com a minha equipa, mas não se pode dizer que seja do género: ‘cinco minutos com os auscultadores’. Se me apetecer ouvir música, oiço. (…) Faço o que me apetece nesse momento”, disse o jovem em entrevista a “El País” e a outros quatro meios, em Nova Iorque.

No discorrer da conversa tida na segunda-feira, dia seguinte à conquista do Grand Slam, Carlitos, como é apelidado, vai dando mais razões à contradição: “É verdade que, durante os jogos, há o ritual de ir pousar a toalha, de pegar em quatro bolas, batê-las cinco vezes, as garrafas sempre por ordem… (…) São coisas que vêm à mente, manias.”

Alcaraz define-se como um “miúdo básico”, que gosta de estar sentado “num banco, em casa ou num carro, com alguns amigos, a rir e a contar anedotas”. “Isso faz-me feliz”, confessa. O espanhol não esconde o orgulho de ser de uma terra pequena, chamada El Palmar, em Múrcia. “E de ser espanhol”, acrescentou, apressando-se a argumentar quando o questionam sobre os regionalismos que pulsam na política do país: “A política é algo a que não presto muita atenção. As notícias chegam e estou um pouco à margem. Mas quando chega o momento, logo vejo se voto ou não”.

Com o troféu do US Open nas mãos, Carlos Alcaraz admitiu que é “demasiado jovem” e está a descobrir o mundo da fama, dos contratos e dos patrocínios. A família desempenha um papel importante nessa nova vida. “As decisões difíceis são tomadas por eles. Eu não me meto muito, mas é preciso tomá-las numa carreira, as que estão relacionadas com marcas e alguns momentos duros que tens de enfrentar. Por eu ser jovem, eles [familiares] têm mais a última palavra do que eu”, explica ao jornal.

Al Bello/Getty

Alcaraz não rejeita a ajuda da ciência para gerir esta ascensão súbita ao topo do mundo. A psicologia tem dado o seu contributo para que Carlos se vá adaptando a uma nova vida. “Trabalho com uma psicóloga desde o início de 2020. Há algum tempo. É muito boa profissional, penso que é uma das principais ‘culpadas’ de eu ser, hoje, o número um”, admite, acrescentando: “Melhorei muito graças a ela. É muito importante ter uma psicóloga ou um coach mental ao teu lado, porque o ténis é exigente todas as semanas. Durante um ano inteiro tens de estar mentalmente fresco, saber suportar a pressão”.

O tenista do momento assume ter medo de desiludir os que o rodeiam: “Bem, não estar à altura do que eles, familiares, amigos, equipa, pensam. Apesar de ter conseguido isso, provavelmente virão torneios em que eles vão ter altas expetativas sobre mim e eu não vou estar à altura”.

Apesar da humildade, Carlitos não deixa de mostrar o orgulho no caminho que percorreu até aqui, com uma estrada sem fim visível à sua frente: “Não sou um eleito. Trabalhei. Não há um caminho de rosas e sofre-se. (…) Sempre disse que, para ser o melhor, é preciso ganhar aos melhores”. A estrada que Alcaraz tem percorrido assemelha-se efetivamente a um “caminho de rosas”, mas o jovem tenista não parece perder de vista os espinhos nas hastes que seguram as pétalas.