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Olá, mundo: Djokovic junta-se pela primeira vez a Federer, Nadal e Murray na Laver Cup, “um momento único na história do ténis”

Os quatro tenistas que marcaram as últimas décadas do circuito conquistaram 66 dos últimos 76 majors. Bjorn Borg, o capitão dos europeus, diz que gosta das chances da equipa. Será a última vez que poderemos ver estas lendas vivas, de raquete na mão, juntas num court de ténis? Quem sabe

Hugo Tavares da Silva

D Dipasupil/Getty

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A ideia de juntar alguns super-heróis para uma mui complexa e hercúlea missão não é exatamente original. Na memória ainda bailaricam Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Scottie Pippen, Karl Malone e Charles Barkley, gente que simplificou o basquetebol nos Jogos Olímpicos de 1992. Reza a lenda que os soviéticos do hóquei no gelo, em 1980, eram assombrosos supostamente como um urso a fazer ballet. Tal como era a gingona galera de 1970, com Pelé, Rivellino, Tostão, Jairzinho e Gerson, o canhotinha de ouro. Para não falar de Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde, talvez os mais famosos entre os que salvam os dias banais de homens e mulheres normais.

O desporto, além de nos transportar semanalmente para a infância ou juventude, é um chafariz de histórias épicas e improváveis. Mas é também uma fonte de acertos com o passado e primeiras vezes. É o que vai acontecer no ténis, entre 23 e 25 de setembro, na Laver Cup, em Londres. Soube-se esta sexta-feira, nesta abençoada sexta-feira, que Novak Djokovic vai juntar-se a Roger Federer, Rafael Nadal e Andy Murray na equipa europeia. É inédito.

“É a única competição onde podes jogar num ambiente de equipa com tipos contra quem competes normalmente e, juntar-me a Rafa, Roger e Andy – três dos meus maiores rivais de sempre –, vai ser verdadeiramente um momento único na história do nosso desporto”, prometeu Djoko.

Olhando para o desolador ranking, pelo menos para os que sofrem de nostalgia precoce e angústia pelo que está por chegar mais cedo do que tarde, ninguém diria que a próxima Laver Cup seria assim tão especial. É que Federer surge sem posição no ranking. “Inativo”, escreve-se sem qualquer piedade no site do ATP. Rafa em terceiro, Novak em sétimo, pois os pontos de Wimbledon não contaram nem para os pardais, e Murray na térrea 50ª posição. Entre estes quatro monstros da raquete que se tornaram profissionais entre 1998 e 2005 contam-se 66 majors (dos últimos 76 torneios do Grand Slam).

Wimbledon, 2022

Wimbledon, 2022

Ryan Pierse

Teremos então os tenistas de ouro, o faminto Big Four, do mesmo lado, com a mesma camisola, calções e meias. Imaginem-se as ideias, os planos, as conversas para quebrar os outros rapazes que chegam do mundo inteiro. Haverá algum tipo de contenção para manter-se algum mistério? É que Djoko e Nadal ainda disputam o trono de maior triunfador de majors de todos os tempos. Com a vitória em Wimbledon, o sérvio (21) encurtou a distância para o espanhol (22).

“Acho que nunca imaginei ter estes quatro ícones do desporto numa equipa”, desabafou o histórico Bjorn Borg, o capitão da equipa da Europa. “Eu sei que eles, como eu, apreciam o significado deste momento e estarão prontos para tal. Cada ano, o nosso objetivo é ganhar. Com Rafa, Roger, Andy e Novak na equipa, eu gosto das nossas hipóteses”, disse o sueco. Quase dá para imaginar a sua gargalhada muda enquanto esfrega as mãos.

O objetivo de Borg tem sido cumprido. A Laver Cup, uma ideia de Roger Federer, estreada em 2017 e apenas com quatro edições cumpridas (não se jogou em 2020), tem sido sempre vencida pelos europeus. Praga, Chicago, Genebra e Boston foram os palcos para tais duelos planetários. Federer e Nadal coincidiram nas edições de 2017 e 2019. Quando Djokovic alinhou em 2018, Rafa não estava na equipa, mas Roger sim. Andy Murray, com três majors e dois ouros olímpicos no currículo, vai estrear-se nestas andanças, depois de vários anos de luta contra lesões.

É certo que do outro lado estarão, liderados pelo inspirador John McEnroe, o talento, as resistências e ambições de Felix Auger-Aliassime (9.º), Taylor Fritz (13.º) e Diego Schwartzman (14.º), mas no court da Arena O2 estará um fantasma muito maior do que isso tudo: será uma das últimas grandes aparições de Roger Federer?

Em 2019, o triunfo europeu na Laver Cup

Em 2019, o triunfo europeu na Laver Cup

Clive Brunskill

O suíço, talvez o mais estético e consensual tenista das últimas décadas, o tal que parece que poderia atuar de fato e gravata, não joga desde os quartos de final de Wimbledon em 2021, quando perdeu com Hubert Hurkacz. “Não sei o que dizer”, disse o polaco depois do inesperado triunfo. “É super especial para mim jogar neste court. Jogar contra o Roger, quando és um miúdo, é como um sonho realizado.”

Federer, que já terá 41 anos na Laver Cup, é assim como um sonho alheio, um esbelto monstro que permanece uma ameaça admirável para quem lhe olha nos olhos. Porém, ao mesmo tempo, cada matemático jogo de pés e cada pancada na bola filha da beleza palpitam como um susto à distância de um derradeiro aceno. A casca onde se esconde o feroz competidor vai estalando, implorando por redenção.

Com 1251 vitórias na carreira – 369 delas em majors – e tantas bolas abridoras de boca, estará o mundo pronto para dizer adeus ao suíço? Será possível viver sem aquela esquerda? Certamente, para quase consolo vão dos desgostosos, será reproduzida numa estátua num qualquer lugar onde se obedece ao prazer celestial. Será a última vez que poderemos ver aquelas lendas vivas, de raquete na mão, juntas num court de ténis? Quem sabe.

Certo é que faltam 62 dias para o arranque da Laver Cup, que ganha assim um repentino e mítico interesse com o recrutamento de Novak Djokovic, que não deverá participar no US Open por não estar vacinado. Esta nova versão da Liga da Justiça, com desportistas entre 41 e 35 anos, dissimula a incerteza e talvez sirva para isso mesmo: arrumar expectativas e angustias nos lugares certos. Talvez seja um derradeiro e justo monumento à grandeza destes tenistas. E uma recompensa para quem os segue há tanto tempo.