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Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Saúde mental e desporto: é uma responsabilidade minha, tua ou de quem apanhar?

Praticamente um ano depois de Simone Biles ter alertado todo o planeta para a necessidade de cuidar da saúde mental dos atletas, a psicóloga do desporto Ana Bispo Ramires lembra que em Portugal, desde essa data, mais frequentemente se tem observado destaque a este tema nos media. Contudo, iniciativas que possam, de forma sustentada, dar resposta a este tema teimam a serem poucas, ineficientes ou pouco credíveis, abrindo espaço a todo um conjunto de “oportunistas” que, aproveitando a “moda”, lançam soluções milagrosas nas redes sociais

Ana Bispo Ramires

O surfista Vasco Ribeiro foi o mais recente atleta a anunciar uma pausa na competição para se focar na sua saúde mental

Damien Poullenot/WSL

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Há pouco mais de um ano o mundo inteiro falava de Simone Biles a propósito da sua vontade em se retirar da competição dos Jogos Olímpicos por razões de não se sentir “mentalmente capaz” para ajudar a equipa a ganhar a desejada medalha olímpica.

Um pouco por todo o mundo, toda a imprensa deu palco a um conjunto de hipóteses que sustentariam a sua “ausência de Saúde Mental” e avançou-se, inclusive, com o testemunho de um conjunto de outros atletas que, à sua semelhança, já teriam abordado este tema publicamente (ex: a tenista Osaka).

Em Portugal, e desde essa data, mais frequentemente se tem observado destaque a este tema nos media, contudo, iniciativas que possam, de forma sustentada, dar resposta a este tema teimam a serem poucas, ineficientes ou pouco credíveis (abrindo espaço a todo um conjunto de “oportunistas” que, aproveitando a “moda”, lançam soluções milagrosas nas redes sociais).

Definição de Saúde Mental

Ora bem, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS),

“a Saúde Mental é um estado de bem estar mental que permite que as pessoas consigam fazer face ao stress do seu quotidiano, concretizem as suas capacidades, aprendam e trabalhem de forma eficiente, e contribuam para a sua comunidade.”

Bem, se levarmos esta definição “à letra” diria que dificilmente encaixaríamos quem quer que seja na mesma – existirá preconceito ou pura e simplesmente incapacidade (entenda-se: ignorância) em reconhecer em nós próprios indicadores precoces de que algo possa não estar bem?

É que se todos já vivenciámos (pontualmente ou mais demoradamente) situações onde a nossa saúde mental se encontrava debilitada, por que razão continuamos a considerar que este é um tema “dos outros” e não um tema “nosso”?

Mas, a OMS completa ainda esta definição com:

“É uma componente integral da saúde e bem estar que alicerça as nossas capacidades individuais e coletivas para tomar decisões, construir relações e moldar o mundo à nossa volta (…) sendo crucial para o desenvolvimento pessoal, comunitário e sócio-económico.”

E, aqui, provavelmente encontramos uma das possíveis razões para o atual “estado da arte” à nossa volta – o impacto indelével que a ausência de saúde mental pode ter na vida privada de indivíduos, mas também de organizações e da sociedade em geral pelo compromisso que transporta para a capacidade decisional, relacional e de nos adaptarmos eficientemente a um mundo em permanente transformação.

Será que, considerando este critério, o assunto já se torna “sério”? Pelo menos, “sério o suficiente” para nos responsabilizarmos pelo mesmo enquanto indivíduos e comunidade?

Deveria, pelo menos…

Literacia e Educação Psicoemocional

Somos extraordinariamente vocacionados para elevarmos as nossas competências técnicas (licenciaturas, mestrados, doutoramentos e afins), frequentemente (e demasiadas vezes, erradamente) associadas a níveis elevados de “sucesso” (vá-se lá saber o que isto quer dizer…), mas igualmente desinteressados no que respeita à aquisição de competências emocionais e/ou de vida – as primeiras vêem os seus currículos académicos cada vez mais robustos e “competitivos” nas diferentes escolas e universidades, enquanto as segundas continuam a ser aprendidas “à antiga”: com sorte, por tentativa e erro, ou quando a “vida” nos obriga a “aprender à força”…

De facto, se conseguimos diferenciar os sintomas de uma gripe duma constipação (ou uma virose) tal facto se deve a anos e anos de educação a que as populações foram expostas no sentido de reconhecerem precocemente determinado tipo de sintomatologia (tome-se como exemplo a covid-19 onde, e bem, uma das grandes estratégias foi educar rapidamente a população nos comportamentos de prevenção e mitigação a adotar).

Então, se este tipo de estratégia funciona – porque não adotar a mesma no sentido de prevenir e mitigar possíveis situações onde haja risco de vermos a saúde mental de um individuo ser comprometida? Porque não educar os indivíduos para a importância da sua ação individual, naquele que não é um tema de “um indivíduo”, mas sim da sua comunidade?

Estranho, não é?

Só me ocorre ignorância do ponto de vista do sofrimento psicológico que estas situações transportam (o que é grave), falta de empatia e/ou anestesia emocional de quem se encontra à sua volta (família, amigos e comunidade em geral) e/ou de quem toma decisões políticas neste âmbito (pior ainda) ou termos a “arrogância intelectual” (por acaso, até daria outro nome…) de que é um assunto “dos outros” (o pior de tudo talvez), por nos encontrarmos profundamente desenraizados da noção de “tribo”, onde a nossa força se equipara necessariamente (e sempre) à da pessoa que evidenciar maior fragilidade – ou não fossemos um “sistema” cujo “DNA” será sempre o resultado do contributo de todas as partes.

Urge, de facto, no desporto e fora dele, termos a consciência de que pouco ou nada sabemos sobre este tema (do ponto de vista da prevenção e/ou reconhecimento precoce de sintomas) e procurarmos informação credível que nos possa ajudar a aprofundar o mesmo – ajudando-nos a nós próprios, mas também à comunidade que nos envolve.

Por agora?

Por agora, a Saúde Mental permanece lamentavelmente como uma “responsabilidade de quem apanhar” dada a falta de medidas globais que possam dar a visibilidade séria que este assunto merece – e, aqui, a ação individual assume maior relevância (como, aliás, em todos os temas verdadeiramente fraturantes, como é o caso das alterações climáticas de que tanto se fala em período de fogos no nosso país – que podemos fazer desde já, a partir do comportamento que atuamos no dia-a-dia?).

Importa que todos os profissionais que atuam no desporto (psicólogos incluídos) reconheçam a necessidade urgente de fazer formação especifica na área para o reconhecimento de necessidade de intervenção precoce e melhor referenciação para o especialista que deve acolher cada caso – e, sim, cada caso é um caso (e não, não possuímos competências para todo o tipo de quadros clínicos e há que saber admiti-lo sem receios ou preconceitos).

Por agora, importa sermos capazes de “olhar” de facto para o outro (ao invés de uma espécie de “scroll down” que importámos das “relações online” e que fazemos quando olhamos para o exterior), parar dois segundos e, por vezes, perguntar apenas “Como estás?”

Pergunto-me sobre todas as partilhas e “gostos” que o testemunho recente de um jovem atleta português recolheu após dar o seu testemunho pessoal neste mesmo tema (e a quem desejo uma rápida recuperação), quantas dessas mesmas pessoas, tendo a oportunidade, terão perguntado: “Como estás?”

É que podemos sempre apontar o dedo às organizações ou à sociedade, mas a responsabilidade individual inicia-se com o comportamento que atuamos (ou não) e essa, definindo-nos como comunidade, só a nós diz respeito.