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Nadal, Djokovic e Murray, as lendas foram à Austrália para marcharem contra o corpo

O sérvio de quem se espera uma caminhada rumo ao 10.º título em Melbourne ganhou a Dimitrov, acabando a cair no court e com esgares de dor. Pouco depois, as mais de 13 horas do escocês no primeiro Grand Slam terminaram com ele a sofrer, coxear e sacrificar-se contra ele próprio. Após Rafael Nadal ser eliminado a arrastar-se com uma nova lesão, estamos cada vez mais a assistir ao fim das tréguas entre as lendas do ténis e os seus corpos

Diogo Pombo

Mackenzie Sweetnam/Getty

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Saltemos os dois primeiros sets tão diligentemente quanto Novak Djokovic os tomou com a sua genialidade mecânica, com maior ou menor argila na engrenagem, as direitas, esquerdas, respostas ao serviço e demais pancadas do deportado e regressado rei do Open da Austrália deram-lhe um 7-6 e depois um 6-3 contra Grigor Dimitrov, o búlgaro das pancadas esteticamente bonitas, mas que esbarrava, como a sua carreira, perante os bichinhos mentais nos momentos importantes. O dono da esquerda a uma mão a quem durante muito tempo se ousou apelidar de ‘Baby Fed’ nada podia contra o vencedor de nove majors em Melbourne.

Até que o terceiro set entrou e a ligadura a segurar a coxa esquerda de Djokovic terá feito a perna do sérvio, o parcial chegou a sorrir-lhe por 4-1, parecia a maior passeata que iria granjear no jogo, mas, quando Dimitrov foi capaz de errar menos e usar a sua esquerda em slice como se fosse a única pancada disponível, o crónico ganhador de Grand Slams sofreu. E o encontro ficou anormalmente sofrível para ele.

Djokovic caiu por um par de vezes no court, as mãos a ampará-lo até quando os pontos cada vez mais longos e para lá das 20 pancadas se tornavam comuns, às vezes Novak já estava caído no chão quando a bola ainda se jogava e depois levanta-se a parecia coxear; o som dos seus grunhidos após fazer a raquete encontrar-se com a bola arrastavam-se mais, que no ténis costuma ser sinal jogar em esforço, de o tenista já estar a jogar contra a dor ou o cansaço além do tipo que está do outro lado da rede. E Novak foi quebrado, deitado ao piso, obrigado a praguejar em sérvio e a clamar ovações quando, sabe-se lá de onde, ia buscar disparos incríveis quando mais precisou.

O terceiro set não deixou de ser seu, por 6-4. Foi à rede abraçar Dimitrov já depois de ambos erguerem os braços pedindo êxtase ao público quando partilharam um derradeiro ponto incrível, o búlgaro rendido à superioridade que o sérvio é capaz de mostrar mesmo debilitado por uma mazela que é a única dúvida que levará com ele para os oitavos de final. “Tenho razões para estar preocupado”, admitiu Djokovic, no final e com o microfone, se calhar pensando na passadeira estendida à sua frente: sem Alcaraz, Nadal, Medvedev, Ruud, Berrettini, Fritz ou Zverev, saídos do torneio por lesões ou derrotas, a previsão de Novak ir até ao fim é-lhe atribuída cada vez mais.

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MANAN VATSYAYANA/Getty

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E também já não há Andy Murray, o Sir dos afetos, quiçá o tenista mais unânime no carinho extraído das arenas cada vez que surgiu em campo nesta edição do Open da Austrália porque os humanos reconhecem o sacrifício em outrem e escocês arrasta-se na sua própria luta desde há muito, precisamente desde que anunciou a sua retirada do ténis em Melbourne, faz quatro anos, desfeito em lágrimas perante a derrota que então concedia frente ao seu próprio corpo.

Esse pranto choroso, em 2019, surgiu após uma derrota com Roberto Bautista Agut, o tímido espanhol com uma carreira feita a ser subestimado e a quem tocou, este sábado, reencontrar-se com o escocês para quem “muito amor” foi dirigido. Pouco depois de Djokovic fechar a sua vitória, o espanhol encerrou a sua, “feliz pela forma como [lidou] com os nervos e a tensão” vistos até ao final do quarto set até onde Andy Murray sobreviveu mais do que viveu, suportando as próprias agruras na esperança de subsistir.

O tenista da anca de titânio vinha de 10 parciais jogados e quatro horas e quarenta e nove minutos com Matteo Berrettini somadas às cinco horas e quarenta e cinco minutos frente a Thanasi Kokkinakis, batalhas em que Murray logrou manter à tona da dor a sua majestosa reposta ao serviço e vasta panóplia de pancadas que no seu auge o tiveram a equiparar-se aos três monstros do ténis. Perdeu oito finais contra eles e está na história como o jogador com mais reviravoltas feitas depois de perder os dois primeiros sets, mas, nesta noite em Melbourne, os seus biónicos 35 anos cederam.

O metal que lhe aguenta o corpo fê-lo começar enferrujado e preso, quase incapaz de se mover normalmente. Demorou a aquecer e quando o fez ainda ganhou um set antes de ir definitivamente abaixo - 6-1, 6-7(7), 6-3, 6-4 - no derradeiro parcial, a coxear e a fechar a face com esgares de dor. As pancadas brutais apareciam já com raridade, um vislumbre do tenista que Andy já foi e ainda resiste algures no seu interior, quando lhe vem um grito das entranhas para irromper por entre as guinadas de sofrimento contra as quais Murray não esconde que luta a cada aparição num court.

Foram outras três horas e vinte e nove minutos contra Bautista Agut, não sabemos se aos 35 anos foi a última aparição de Andy Murray na Austrália, como desconhecemos se voltaremos a ver Rafael Nadal por lá, também ele derrotado em campo quando já batalha uma nova lesão mais do que lutava contra o adversário. Em setembro vimos a chorosa despedida de Roger Federer das raquetes após quase ano e meio em que não jogou para tentar curar um joelho a clamar-lhe pela reforma e nós podemos não querer ver, mas a anatomia das lendas nada se importa com as nossas vontades: podemos querer continuar a apreciar estas lendas geracionais do ténis, mas os seus corpos querem descanso.

No fechar da primeira semana do Open da Austrália, só Novak Djokovic resta à quarta ronda do major que inaugura 2023, provavelmente o derradeiro ano para assistirmos a mais do que um dos quatro tenistas que monopolizaram os Grand Slams de há duas décadas para cá. A luta frente ao tempo é impossível de ganhar e a marcha deles contra o corpo está a abeirar-se do prazo.