Perfil

Ténis

Andy Murray, o maratonista de anca de metal: escocês vence duelo de quase 6 horas no Open da Austrália, que terminou às 4h da manhã

Depois de bater Berettini em cinco partidas, o antigo n.º1 superou Kokkinakis em cinco sets, por 4-6, 6-7 (4), 7-6 (5), 6-3 3 7-5, dando a volta a uma desvantagem de dois parciais. Num embate que durou 5 horas e 50 minutos e terminou quando já passavam das quatro da manhã em Melbourne, Murray voltou a provar que consegue derrotar o próprio corpo

Pedro Barata

WILLIAM WEST/Getty

Partilhar

“Confio na minha experiência, espírito lutador e amor pelo jogo, por competir e no respeito por este torneio”. Eram quase 4h15 da manhã em Melbourne, era “ridiculamente tarde”, nas palavras de Andy Murray, um homem com um sorriso que não mascarava o cansaço. Nas bancadas, a face da mãe evidenciava emoção, talvez até houvesse uma lágrima a escorrer pela cara de Judy Murray. Na madrugada australiana, quando já “todos deviam ir para a cama”, disse o ex-líder do ranking ATP, tinha-se acabado de escrever mais uma página da história épica de Murray.

O escocês que compete com uma anca de metal e que chegou a admitir que seria muito difícil voltar a jogar a alto nível está a ser o grande herói da presente edição do Open da Austrália. Depois de vencer Matteo Berettini em cinco parciais e 4 horas e 54 minutos, Murray superou Thanasi Kokkinakis por 4-6, 6-7 (4), 7-6 (5), 6-3 3 7-5, recuperando de dois sets a zero numa contenda que durou 5 horas e 50 minutos.

Cinco vezes finalista vencido em Melbourne Park, o campeão de três majors não estava na terceira eliminatória do primeiro torneio do Grand Slam da temporada desde 2017. A partir daí, mergulhado num calvário de lesões e problemas físicos, o escocês passou a ter o seu corpo como grande adversário. E, longe dos êxitos dos melhores tempos — é 66.º do mundo e sem qualquer título desde 2019 —, vai dando demonstrações do “amor pelo jogo” a que se referiu na entrevista em court depois de nova exibição de resistência, de resiliência, de superação, de ir além do que as fragilidades físicas lhe quiserem ditar a certo momento da carreira.

Clive Brunskill/Getty

Ver um antigo campeão lidar com a dor que o incapacita de atuar como outrora pode ser um exercício custoso. Vemos que aquela lenda é uma sombra gasta do que foi produz tristeza, quase compaixão.

No entanto, casos como o de Murray geram admiração. O escocês é um desportista milionário, dos mais titulados da sua geração, e pai de quatro filhos. Poderia estar no conforto de uma reforma dourada junto da família, longe das arrelias de uma vida nómada no circuito, perdendo mais do que ganha, correndo o risco de fragilizar a sua imagem.

Mas Murray ama o ténis, ama competir, como se vê pela forma como exulta a cada ponto ganha. Recusa-se a desistir e a perder face às imposições da dor. Contra Kokkinakis, a derrota nos dois primeiros parciais não o intimidou, voltando a aceitar embarcar numa maratona que viria a vencer.

Mesmo com dificuldades a caminhar, Andy aguentava-se firmemente em trocas de bola mais longas, mostrando, quando era necessário, possuir mais subtileza técnica do que o australiano. Mesmo quando estava na frente do marcador, Kokkinakis revelava maior instabilidade mental, discutindo com a arbitra ou partindo raquetes.

Igualada a desvantagem, a partida decisiva teve quase sempre ascendente escocês, que até desperdiçou oportunidades para quebrar o saque do australiano antes de o conseguir fazer no 11.º jogo de serviço do set. Ao primeiro match point, Murray selou o triunfo.

Há quatro anos, em 2019, Andy Murray surgiu em lágrimas numa conferência de imprensa, admitindo que aquele Open da Austrália poderia ser o derradeiro torneio da sua carreira. “Há hipóteses de isso acontecer”, disse então o britânico: “Não tenho a certeza que consiga jogar com dores durante mais quatro ou cinco meses”.

“Tenho sofrido muitas dores nos últimos 20 meses. Tentei de tudo para que a minha anca melhorasse, mas não tem ajudado muito”, lamentou em 2019.

O sofrimento de Murray, o homem da anca de metal, não terminou, já que cada encontro é uma luta contra a dor. Frente a Kokkinakis, o andar cambaleante do antigo n.º1 era a demonstração limitações do seu corpo. Mas, quando a bola amarela estava em jogo, o ADN competitivo prevalecia e a honra do campeão falava mais forte. Segue-se Roberto Bautista, na terceira ronda de um Open da Austrália que já ficará conhecido como o torneio das longas batalhas do homem que recusa desistir.