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E o ténis voltou a ver o velho Andy Murray no Open da Austrália

O tenista escocês, de 36 anos, bateu o italiano Matteo Berrettini em 4h49, na Rod Laver Arena, na jornada inaugural do Open da Austrália. Murray salvou um match point no derradeiro set e superiorizou-se no tie-break. Agora, segue-se Kokkinakis ou Fognini

Hugo Tavares da Silva

Will Murray

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O sangue escorria-lhe por uma das pernas, mas não atrapalhava, servia meramente como metáfora. Mergulhando enfaticamente nas quase cinco horas de partida, a estreia de Andy Murray no Open da Austrália foi uma ode à sobrevivência, ao amor ao jogo e ao orgulho escondido nas veias. O rival do outro lado era o poderoso Matteo Berrettini. Pela primeira vez desde 2017, o escocês bateu num torneio do Grand Slam um tenista estacionado no top-20.

Murray, de 35 anos e atualmente no lugar 66 do ranking ATP, conquistou os dois primeiros sets contra o italiano (14), com um duplo 6-3. O rival reagiu e, explorando o potente corpanzil e as pancadas ainda mais potentes, assinou um 6-4 prometedor. Depois de Murray ameaçar fechar a partida no quarto set, um competitivo e feroz tie-break sorriu afinal a Berrettini, deixando tudo em aberto.

Nos intervalos dos pontos, Andy Murray caminhava com aquele jeito de quem está tocado ou limitado. Era um mero rumor de decadência física. Assim que a bola amarela começava a rodar no ar, a convocada juventude daquela alma apresentava-se e competia de uma forma estrondosa e até surpreendente.

O derradeiro set, em que Murray salvou um match point (a esquerda de Berrettini foi desoladora), foi levado também até ao limite, até ao fatídico e entusiasmante tie-break.

Aqui o lado mental do jogo parece ter batido no teto da Rod Laver Arena, que vai escondendo os atletas do calor de Melbourne. As altas temperaturas já obrigaram à interrupção de vários jogos nos campos exteriores, o que atrasa o andamento do torneio. Andy Murray ganhou uma vantagem importante (5-0, depois 8-3), e Berrettini, de 26 anos, parecia derrotado. Depois, o italiano recuperou (8-6) e o jogo parecia relançado, pelo menos por mais uns golpes com a raquete, uns serviços e uns minutos que soavam a uma qualquer nostalgia.

Andy Cheung

As pancadas de Murray, inteligentes e com memória, levavam quem aquilo testemunhava para outros tempos em que se misturava com os gigantes deste desporto. Talvez Nadal, Djokovic e Federer tenham sorrido ao ver este partido.

As bolas, finalmente, fizeram a vontade a Andy Murray e quebraram a resistência de Berrettini (10-6), que na altura de apertar a mão ao adversário, já na rede, sorriu para ele, aceitando graciosamente aquele momento, mas também talvez estivesse algo orgulhoso do exercício de sobrevivência erguido pelo britânico, um ex-número 1 do mundo com 46 títulos do ATP, entre eles três majors (US Open em 2012, Wimbledon em 2013 e 2016).

“Estou incrivelmente feliz, muito orgulhoso de mim”, disse Murray no final da partida, ainda no court. “Trabalhei muito nos últimos meses com a minha equipa, para ter a oportunidade de competir em estádios como este e em jogos como este contra jogadores como o Matteo, e fui recompensado.”

Com os comentadores e ex-tenistas da Eurosport, o britânico, longe do top-10 desde outubro de 2017, admitiu que estava muito calmo na parte final do duelo. “Claro que tive um começo muito bom no tie-break, o que me ajudou”, admitiu. “Tomei a iniciativa quando pude. Tive sorte no match point dele, certamente. Mas servi com inteligência, joguei todos os pontos.”

Tim Henman mencionou então um mergulho que o tenista protagonizou para colocar a bola do outro lado do court e se isso teria sido uma boa ideia. Murray, que terá pela frente Fabio Fognini ou Thanasi Kokkinakis na segunda ronda esboçou um riso e comentou que esta noite ou amanhã ia perceber.