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Roger Federer. O desejo de se despedir com Nadal na Laver Cup, as lágrimas dos filhos e o “pior momento da carreira”

Numa longa conferência de imprensa já em Londres, onde este fim de semana se vai despedir oficialmente, Roger Federer falou do processo de reconhecimento que o fim estava próximo, da reação da família e do que espera para os próximos dias. Um dos desejos seria jogar pares com o seu maior rival, de quem pelo caminho se tornou amigo, o espanhol Rafael Nadal, naquele que será o seu último encontro

Lídia Paralta Gomes

ANDY RAIN/EPA

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O joelho que antes dobrava no perfeito ângulo e depois esticava para bater aquela esquerda a uma mão deixou de responder. Roger Federer tinha-o operado duas vezes no início de 2020 e voltou à faca depois do torneio de Wimbledon de 2021. Há um ano, Roger Federer fazia na relva de Londres, onde em 2001 se apresentou ao mundo eliminando Pete Sampras, o seu último jogo oficial em singulares. Frente a Hubert Hurkacz, o 6-0 sofrido no último set era o derradeiro sinal que o joelho não era o mesmo e que teria de parar de novo.

O “de novo”, soubemos todos há uma semana, tornou-se para sempre. “Foi complicado, todo o processo de regresso em 2021 foi extremamente difícil. Estava tão longe de estar a 100%. Chegar aos quartos de final em Wimbledon foi impensável, mas o último set frente a Hurkacz foi o pior momento da minha carreira”, disse já esta semana ao diário suíço “Tages-Anzeiger”. Também à imprensa helvética, a quem deu primazia na hora de dar as primeiras palavras após o anúncio do adeus, Federer, de 41 anos, admitiu que a decisão definitiva do adeus aconteceu pouco depois de estar presente na homenagem aos campeões feita em Wimbledon em julho. Ali, ainda respirou fundo o cheiro da relva e a esperança de voltar em 2022, mas durante as férias, em conversa com os pais e a mulher, Mirka, traçou o destino. As emoções foram, no entanto, adiando o anúncio oficial: “Tenho um nó na garganta há duas, três semanas. Adiei e adiei lançar a carta. O Tony [Godsick, seu agente] quase enlouqueceu por minha causa”.

O momento de pegar na caneta e escrever as palavras que abriam as portas ao adeus foi catártico para Federer. Os filhos, dois pares de gémeos, duas meninas com 13 anos e dois rapazes com oito, receberam a notícia com emoção: “Três deles choraram. Perguntaram se não íamos voltar mais a Halle, a Wimbledon ou a Indian Wells. Disse-lhes que não, nem por isso, mas que se eles quiserem podemos voltar”.

Mas Federer não se vai embora sem antes de compor uma última valsa. A Laver Cup, o torneio que ele próprio idealizou e que se realiza este fim de semana em Londres, marcará a despedida oficial, ainda que o tenista que passou 310 semanas como número 1 mundial pense bater umas bolas em torneios de exibição no futuro, quando chegar a saudade que já se lhe sente nas palavras, nos olhos. A despedida será num jogo de pares, confirmou esta quarta-feira já em Londres, porque o joelho direito não dá para mais esforços. E a sua vontade é que as últimas pancadas sejam feitas ao lado de Rafael Nadal.

“Sem dúvida. Seria uma situação única, sabem, por todas as batalhas que tivemos, mantendo o respeito por ambos, pelas respetivas famílias e equipas. Sempre nos demos muito bem”, atirou o helvético em conferência de imprensa, questionado sobre se Rafa seria o companheiro ideal no adeus. “Temos uma relação tão boa penso que é uma grande mensagem, não só para o ténis mas para o desporto e talvez até além disso. E por essa razão seria fantástico, seria um momento especial”, continuou.

O espanhol ultrapassou-o na lista de maiores vencedores em torneios do Grand Slam (22 para Nadal, 20 para Federer, pelo meio 21 para Djokovic), mas o helvético sublinha que não precisa de recordes “para ser feliz”. A ordem de jogos ainda não está definida, mas será impensável que não seja concedido ao homem que elevou o ténis ao estatuto de arte um último desejo, mesmo que a Laver Cup seja uma competição oficial e com regras.

ANDY RAIN/EPA

Sem entrar em campo há 14 meses, Federer admite aos jornalistas que está “nervoso” e que espera pelo menos “ser competitivo”. Londres é uma cidade especial, casa de Wimbledon, onde venceu o seu primeiro torneio do Grand Slam, em 2003, e onde o seu ténis circense, prodigioso, uma espécie de Mozart de raqueta na mão, chegava ao máximo esplendor. Terminar na capital britânica soa-lhe bem. Quando lhe perguntam pelos melhores momentos da carreira, sublinha que ainda não parou para pensar neles, mas logo à cabeça lhe vem o tal jogo com Sampras no All England Tennis Club em 2001, numa espécie de passagem de testemunho. O triunfo sobre Rafael Nadal na final do Open da Austrália em 2017, depois de um ano marcado por lesões, é outra das vitórias que aponta, tal como Roland-Garros em 2009, quebrando a maldição na terra batida para chegar ao Grand Slam de carreira.

E do que vai sentir mais falta? Das coisas simples. “Apertar os atacadores das sapatilhas, meter a fita na cabeça. Olhar para o espelho e dizer ‘Estamos prontos para isto? Sim, vamos lá’”, diz. Federer garante não estar triste com o adeus, mas sublinha a palavra “agridoce” que escreve na carta de despedida, lançada nas redes sociais na última quinta-feira. O processo é agridoce porque “todos os tenistas querem jogar para sempre” e Federer sublinha o amor que tinha por estar em campo, jogar “contra os rapazes”. As viagens, os aeroportos, frisa, nunca foram chatices. “Adorei cada momento da minha carreira”, garante, como quem fala de um grande amor que partiu. “Toda a gente tem de abandonar eventualmente e foi uma grande, grande viagem”, sublinha.

Que a despedida seja alegre

Roger Federer parece por estes dias mais em paz com o fim, depois de semanas plenas de emoções. Talvez passe por aí o idílio do helvético com o público: não só valia a pena pagar bilhete para ver Federer jogar como ele era humano, não um cubo de gelo agarrado à sua genialidade. Nele vimos lágrimas nas vitórias e nas derrotas. Neste processo de abandonar, garante que já passou “por diferentes estados” daquilo que ele chama, a medo, de “luto”.

Até porque ele não quer que o adeus “seja um funeral”. Ele quer que haja “alegria, em jeito de festa” e não o contrário. “Não quero que as pessoas digam ‘Oh, lamento imenso, estás bem?’”.

O futuro próximo de Federer passará primeiro por umas férias com a família. À imprensa suíça, admitiu que de há seis meses para cá tem pensado que comentar ténis seria algo que gostaria, mesmo que anteriormente tenha dito que nunca o faria. “Talvez comentar alguns jogos em Wimbledon”, atirou. Certo, certo é que o único homem que chegou às quatro finais do Grand Slam em três temporadas não vai desaparecer.

“Quero que os fãs saibam que não vou ser um fantasma. É engraçado, falei com o Bjorn Borg sobre isto antes. Acho que ele não voltou a Wimbledon uns 25 anos depois de deixar o ténis. De certa maneira, isso magoa um fã de ténis. É totalmente aceitável, mas eu acho que não vou ser esse tipo, porque o ténis deu-me muito”, revelou perante uma audiência de jornalistas que, por uma lenda, se uniu para quebrar uma regra não escrita entre os repórteres: no final da conferência de imprensa, a sala levantou-se para uma salva de palmas ao jogador que nos ensinou que o ténis pode ser mais do que um desporto.