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Um príncipe feito de matéria celestial, uma experiência religiosa de títulos e recordes: oito dos melhores momentos de Roger Federer

Ao longo de mais de duas décadas, Roger Federer desafiou as leis da estética no ténis, tornando o jogo em mais do que uma competição: era uma tela onde o suíço desenhava a sua arte, onde se movia como matéria líquida. Cedo surpreendeu até o seu ídolo, foi dominador no final da primeira década de 2000 e ainda renasceu após lesões. Estes são os momentos decisivos da vida desportiva de Roger Federer, que aos 41 anos anunciou que se vai retirar dos courts

Lídia Paralta Gomes

Clive Brunskill/Getty

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Há figuras tão etéreas, tão feitas de matéria celestial, fora do alcance do comum mortal, que se apropriam das palavras, das expressões. O vocábulo “momentos” é apenas isso mesmo, um vocábulo, mas a literatura deu-lhe um dono. David Foster Wallace, no ensaio “Roger Federer como Experiência Religiosa” falava dos “Federer Moments”, assim, com letra maiúscula, porque houve uma era em que sabíamos que quando víamos o suíço em court todas as pancadas seriam maiúsculas, as vitórias chegariam com letra grande, os recordes seriam esdrúxulos.

Essa era vai terminar daqui a pouco mais de uma semana, quando o helvético de 41 anos pousar a raquete pela última vez, no torneio que ele próprio idealizou, a Laver Cup, traído por um joelho que já não lhe acompanhava o talento. Federer dirá adeus já sem alguns dos recordes que em tempos pareciam coisa esotérica - o de semanas seguidas como número 1 mundial continua a ser seu - mas com impoluta aura de maior artesão a alguma vez pisar um court de ténis, a raquete como pincel, movendo-se como água, um esteta entre atletas, pura arte.

Estes são alguns dos momentos (ou Momentos) da carreira de um príncipe a quem nunca se viu uma pinga de suor a escorrer da cara, a quem nenhuma esquerda alguma vez saiu em esforço, um tenista em permanente ato de classe que pelo meio venceu 20 torneios do Grand Slam, passou 310 semanas como líder do ranking e levantou os braços 1251 vezes para festejar triunfos em partidas oficiais.

A vitória sobre Pete Sampras em Wimbledon 2001

“Uma nova estrela nasceu”. Tendemos a gastar a expressão a cada jovem promessa que surge, mas aqui não poderia ter sido mais certeira. Foi isto que saiu da boca do comentador britânico que assistia involuntariamente a história logo após aquele rapaz de 19 anos, a jogar pela primeira vez no court principal de Wimbledon, responder com um passing shot ao serviço do seu herói de infância, Pete Sampras. Era também match point dessa 4.ª ronda no All England Club em 2001 e o norte-americano, então visto como o melhor jogador a alguma vez pisar os relvados londrinos, nunca mais chegaria perto de juntar um oitavo aos sete títulos que havia conquistado ali. Federer, adolescente, vestes largas, colar de contas encostado à pele do pescoço, acabou o encontro em lágrimas. Ainda não sabiam, ambos, que o helvético iria abocanhar nos 20 anos que se seguiram todos os recordes de Sampras em Wimbledon.


O primeiro título em Londres

Precisaria apenas de mais dois anos para levantar pela primeira vez o troféu de vencedor de Wimbledon. Tinha 21 anos, rabo de cavalo e pelo caminho derrotou Andy Roddick nas meias-finais e Mark Philippoussis em três sets na final de 2003. Era um título há muito anunciado e, no discurso final, Federer era apenas um miúdo emocionado, impressionado, com emoções avassaladoras dentro de si, longe da desenvoltura e da pose graciosa e elegante que foi apurando com os anos. O primeiro de 20 títulos em torneios do Grand Slam surgia na relva, seu habitat natural, mas não único: no ano seguinte ganharia três dos quatro majors. Nessa última metade da primeira década dos anos 2000, Federer levitava.


Quatro anos número 1 mundial

No início de 2004, depois de vencer o Open da Austrália logo a arrancar o ano, para o seu segundo título em majors, Roger Federer subiu pela primeira vez ao número 1 mundial que já tinha cheirado no final de 2003. De lá, desse pedestal ao qual só acedem os predestinados, às vezes por semanas, outros por meses, só sairia quatro anos e meio depois - Rafael Nadal destronou-o em agosto de 2008. Foram 237 semanas consecutivas - recorde que se mantém -, de um total de 310 semanas no topo do ranking - registo que Novak Djokovic entretanto ultrapassou.


O melhor jogo da história

O primeiro reinado de Federer em Wimbledon acabou às mãos do rei da terra batida. Na final de 2008, Roger e Rafael Nadal digladiaram-se durante quatro horas e 48 minutos, mas o duelo estendeu-se por mais de sete, com duas interrupções por causa da chuva. O encontro terminaria já com o sol a pôr-se em Londres, a entrega dos troféus feita quase às escuras e com a vitória do espanhol. Não falta quem considere a final de Wimbledon de 2008 o melhor jogo da história do ténis. O derradeiro set chegou aos 9-7, com Nadal a negar a Federer a hipótese de vencer o sexto título seguido em Londres, ultrapassando Bjorn Borg. Seria a única derrota do helvético em Wimbledon entre a 1.ª ronda de 2002 e os quartos de final de 2010, quando caiu frente a Tomas Berdych.


Finalmente a vitória em Roland-Garros

A terra batida sempre foi o território menos bom de Federer e o aparecimento do fenómeno Nadal impediu durante largos anos festa em Paris para qualquer outro tenista. Em três finais consecutivas, o suíço caiu perante o rival latino, mas em 2009, temporada em que o espanhol sofreu com lesões, Federer tinha uma oportunidade única de fazer história. Não falhou: na quarta final consecutiva em Roland-Garros, Federer bateu o sueco Robin Soderling em três sets, conquistando o então 14.º título do Grand Slam. Igualava o ídolo Sampras no topo da lista de maiores vencedores em majors e conquistava finalmente o Grand Slam de carreira. Federer coloca a vitória em Paris como uma das mais saborosas da sua carreira.


A fénix renascida em 2017

Durante cinco anos, de 2012 a 2017, o suíço não venceu qualquer torneio do Grand Slam. Entre a emergência de Rafael Nadal e Novak Djokovic, os laivos vitoriosos de Stan Wawrinka e Andy Murray e lesões arreliadoras nas costas e joelhos, o sucesso em torneios major parecia agora apenas uma miragem para o trintão Federer. Até que em 2017 ele voltou, que nem fénix renascida, começando o ano com o título no Open da Austrália, numa final frente a Rafael Nadal em que se tornou também no homem mais velho a disputar o derradeiro encontro num torneio do Grand Slam, com 35 anos. Na primavera, tornou-se no primeiro tenista a vencer Wimbledon por oito vezes, derrotando Marin Cilic na final, numa caminhada em que não perdeu qualquer set.

O último major

O derradeiro fôlego de Roger Federer não havia ainda terminado: em 2018, arrancou o ano a defender o título em Melbourne, batendo de novo Marin Cilic na final. Tornou-se aí no primeiro tenista a chegar à vintena de títulos do Grand Slam, algo que Nadal e Djokovic entretanto também lograram. O título nos antípodas seria o último para o helvético nos quatro principais torneios. Nesse mesmo ano voltaria à liderança do ranking mundial: tinha 36 anos e 195 dias, o mais velho de sempre a fazê-lo com mais de três anos de diferença para o anterior recorde.

A final que fugiu

Em 2019, prestes a fazer 38 anos, Roger Federer voltou à final de Wimbledon em busca de melhorar o seu recorde em Londres, para nove títulos. Nas meias-finais bateu Rafael Nadal e na final chegou a ter dois match points frente a Novak Djokovic, naquela que se tornaria na final mais longa da história de Wimbledon, com 4 horas e 57 minutos. Um encontro memorável, onde Federer até terá apresentado melhor jogo que o sérvio, que terminou com um 13-12 no último set (a primeira vez que o último parcial foi jogado até ao limite de 12 jogos) e também com a sensação que estaria ali a última oportunidade para o suíço vencer um torneio do Grand Slam. Seria mesmo.