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Um duelo pelo título do US Open e pela liderança do ténis mundial: "The Winner Takes It All" na final entre Alcaraz e Ruud

Nas meias-finais do Grand Slam nova-iorquino, o espanhol bateu, em cinco sets, Tiafoe, enquanto o norueguês derrotou, em quatro partidas, Kachanov, tendo ambos encontro marcado para domingo, num embate que consagrará um novo campeão de um major e decidirá quem será o próximo n.º1 da hierarquia ATP. Carlitos pode ser o mais jovem líder do ranking de sempre

Pedro Barata

Quality Sport Images/Getty

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Durante muito tempo, os cumes do ténis masculino mundial estiveram, quase exclusivamente, entregues a três homens. De 2 de fevereiro de 2004 a 28 de fevereiro de 2022, mais de 18 anos, Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic dividiram entre si o trono das raquetes que é o n.º1 do ranking ATP, com exceção das 41 semanas em que Andy Murray entre eles se intrometeu entre 2016 e 2017.

O suíço, o espanhol e o sérvio deram corpo a este domínio na hierarquia com uma voracidade exacerbada pelos principais torneios, que a fez ser os três homens que mais torneios do Grand Slam venceram. Nadal ergueu 23, Djokovic 21, Federer 20.

O domínio do big three foi tão duradouro e intenso que os restantes jogadores, a certa altura, pareciam meras testemunhas dos feitos do trio, atores secundários de um filme que tinha protagonistas já definidos. Até que, quando já nos havíamos esquecido do que era o ténis sem o reinado de Roger, Rafa e Novak, a mudança de ciclo entrou em ação.

A conjugação da passagem do tempo, das lesões de Federer e Nadal e da insistência de Djokovic em não se vacinar tem contribuído para um processo que seria sempre inevitável. Não que o espanhol e o sérvio não continuem a ser dos mais reguladores vencedores do circuito — afinal de contas, em 2022, Rafa venceu o Open da Austrália e Roland-Garros e Novak ganhou Wimbledon —, mas há outros nomes a correrem rumo às luzes da ribalta.

Em fevereiro, Daniil Medvedev quebrou a monopolização do n.º 1 do ranking, estatuto que estará em disputa no domingo, em Nova Iorque. Na final do US Open, Carlos Alcaraz, espanhol de 19 anos, e Casper Ruud, norueguês de 23, discutirão não só o título do último major da temporada — que será o primeiro de qualquer um deles —, mas também a liderança da hierarquia das raquetes do planeta. "The Winner Takes It All" em Flushing Meadows.

Frey/TPN/Getty

Carlos Alcaraz chegou à sua primeira final de um dos quatro mais importantes torneios ao bater, por 6-7 (6), 6-3, 6-1, 6-7 (5) e 6-3, o norte-americano Francis Tiafoe. Tal como nos compromissos anteriores frente a Marian Cilic e Jannik Sinner, o espanhol foi obrigado a disputar cinco partidas para triunfar, terminando o duelo quando o sol já ia substituindo a lua no Oeste europeu.

Com as quase 24.000 almas que compõem o Arthur Ashe Stadium, o maior estádio de ténis do mundo, a torcerem por Tiafoe — Michelle Obama incluída —, Carlitos sobrepôs-se ao ambiente e ao estado de graça do seu adversário, que lutava por ser o primeiro homem da casa a erguer o título desde Andy Roddick, em 2003.

Com o seu jogo cheio de potência, Alcaraz impôs-se após quatro horas e 22 minutos, em mais um duelo em que ganhou pontos épicos, ao seu estilo, conjugando velocidade de um sprinter, resistência de um maratonista e precisão técnica de um artesão.

No final do duelo, Tiafoe elogiou o seu adversário, dizendo que o espanhol “bate na bola com imensa força” e que jamais havia enfrentado um jogador que “se mexesse tão bem” como o murciano. “Ele vai ser um problema durante muito tempo”, exclamou o norte-americano.

Aos 19 anos e quatro meses, Carlos Alcaraz é o segundo finalista mais jovem da história do US Open, só superado por Pete Sampras, que chegou à partida decisiva com 19 anos e um mês. Se bater Casper Ruud na final, o espanhol tornar-se-á no n.º 1 do mundo mais jovem da história do ténis. Mas o tempo corre a favor de Carlitos, que tem até fevereiro de 2024 para bater o recorde de Lleyton Hewitt, que colocou a coroa da modalidade com 20 anos e 9 meses.

“É incrível lutar por grandes coisas. Primeira final de um torneio do Grand Slam, consigo ver o n.º1 do mundo, mas o mesmo tempo está muito longe. Enfrentarei um grande adversário, que merece estar na final”, referiu Alcaraz sobre Casper Ruud.

Julian Finney/Getty

O norueguês não tem a aura de fenómeno precoce de Alcaraz, nem sequer possui a sua popularidade ou capacidade de gerar expectativa. Com efeito, Ruud, n.º7 do mundo, finalista vencido da última edição de Roland-Garros e candidato a líder do ranking, disputou vários compromissos neste US Open em courts secundários, o que levou Toni Nadal a escrever, no El País, que se “tinha perdido o interesse pelo jogo em detrimento do mais acessório”.

Tal como vem fazendo em quase todo o torneio, em que só precisou de um quinto parcial para derrotar Tommy Paul, o nórdico bateu o russo Karen Kachanov por 7-6 (5), 6-2, 7-5 e 6-2. Enquanto Alcaraz esteve em court durante 13 horas e 36 minutos nos três últimos encontros antes de chegar à final, Ruud só disputou 9 horas e 3 minutos de ténis nos mesmos três derradeiros embates.

O norueguês torna-se no único jogador além de Rafa Nadal a disputar duas finais de torneios do Grand Slam nesta temporada. Na sua estreia em partidas de atribuição de títulos de majors, em Roland-Garros, Ruud sucumbiu perante a magistralidade do espanhol em Paris, sendo derrotados por três claros parciais (6-3, 6-3, 6-0).

De gestos corretos e até recatados, o simpático Ruud admitiu, depois de bater Kachanov, que “depois de Roland-Garros estava muito feliz” por ter chegado à final, mas “ao mesmo tempo humilde o suficiente para pensar que poderia ser a única final de um torneio do Grand Slam” que disputaria. “Mas aqui estou eu outra vez, alguns meses depois”, atirou.

Domingo, às 21h00 de Portugal continental, Carlos Alcaraz e Casper Ruud discutirão o título do US Open e a liderança do ranking ATP que será publicado segunda-feira. O vencedor levará tudo.