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De Björn Borg aos três grandes do ténis e à fama de rebelde. John McEnroe falou de tudo: “Quando saía do court as pessoas davam-me cerveja”

Numa altura em que lançou um documentário em nome próprio, John McEnroe foi ao arquivo de memórias e lembrou os momentos que marcaram a sua carreira. Ao mesmo tempo que fez uma comparação com os tenistas de hoje em dia, que vê a desafiarem os limites da compreensão

Rita Meireles

Focus On Sport

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O ténis tem Nick Kyrgios, mas também já teve John McEnroe. Entre a chegada ao primeiro lugar do ranking ATP, os jogos contra Björn Borg e os recordes que assinou, o norte-americano conseguiu combinar a conquista de sete Grand Slams com o estilo de vida de uma Nova Iorque de excessos que marcou o início dos anos oitenta. Na escola em que Kyrgios estudou, já o norte-americano foi professor.

"Foi uma época dos diabos, direi assim", contou ao “The Telegraph”. "É bom sentir que se pode ter o bolo e comê-lo também. Pode apanhar-te mais rapidamente do que imaginas. As pessoas só recentemente compreenderam que os opioides são um horror absoluto. Antes não se sabia sobre estas drogas e o seu uso era muito mais frequente. Quando eu saía do court, as pessoas davam-me uma cerveja, agora os jogadores saltam diretamente para um banho de gelo".

Um dos mais famosos momentos de rebeldia que o agora comentador protagonizou foi após a vitória de 1981, frente a Borg, quando boicotou um dos eventos do restrito e tradicional calendário de Wimbledon. 41 anos depois, não se arrepende minimamente disso.

“Perguntei-me: 'Porque diabos quererei eu ir a um jantar aborrecido e sair com um bando de pessoas com três vezes a minha idade?'. Perguntei ao meu pai se devia ir e ele disse: 'Não sei'. Então pensei: 'Esquece, vou sair com os meus amigos'. Na manhã seguinte, fui para o carro a achar que estava tudo bem. De repente, tinha 15 câmaras na minha cara", lembrou.

Os mistérios do sistema tradicional inglês sempre o deixaram perplexo, mas 40 anos no mundo do ténis seriam, à partida, o suficiente para se habituar e aceitar o sistema. Ou ainda lhe faz alguma confusão? "Eu diria ambos. Ainda não o compreendo, mas está acima do meu nível de remuneração. Penso que ainda há toda aquela coisa da classe", disse.

Outra coisa que lhe custa compreender no universo do ténis é a capacidade que os jogadores têm, hoje, de jogar por muitos mais anos, por comparação com a sua altura. Para McEnroe, o "sem idade" Novak Djokovic, agora 21 vezes campeão de torneios do Grand Slam, quase desafia a compreensão. O sétimo triunfo do sérvio em Wimbledon estendeu uma sequência onde, desde o Open da Austrália de 2005, 59 dos 69 majors foram vencidos por Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal.

Bettmann/Getty

"Não podes inventar isto nem nos teus sonhos mais loucos. Eles têm feito algo que ninguém previu que acontecesse. Antes, estávamos felizes por ainda estarmos a jogar aos 30 anos. Fi-lo até dois meses antes do meu 34.º aniversário e pensei que estava a abusar, que estava a aguentar demasiado tempo. Mas eles ainda estão a jogar tão bem como sempre jogaram. Essa é a parte que não compreendo. Uso sempre a frase: ‘Quanto mais velho fico, melhor eu era’. Tenho de olhar para os 'Três Grandes' e aproveitar. Todos temos", disse.

A questão que fica no ar é: quem é que se diverte mais?

É a isso que o documentário sobre o ex-tenista, lançado na sexta-feira, tenta responder. Por um lado, existe o lado mais confuso da vida de McEnroe, que vai desde o caos do seu casamento com Tatum O'Neal, até ao vício das drogas do filho e a relação difícil com o pai. Mas existe também a faceta inquieta e a personalidade do antigo tenista, vinda das suas costelas nova-iorquinas.

“Há um sentimento de coragem em Nova Iorque e isso representa muito bem a minha personalidade. Durante todo o liceu andava de metro, vivia a vida como um típico habitante da cidade o faria. Agora, não passam cinco minutos sem sabermos onde está o nosso filho. Mas a energia de Nova Iorque significava que eu não existia apenas nesta bolha elitista que o ténis é em demasia”, afirmou.

Essa personalidade continua bem visível agora no papel de comentador na "BBC". McEnroe ainda cativa os adeptos da modalidade e, mesmo num novo papel, prossegue na competição, de certa forma, com o rival de sempre: "O Bjorn comentou a minha final contra o Chris Lewis, na "NBC", em 1983. Os apresentadores perguntaram-lhe: 'O que acha que vai acontecer no jogo?'. Ele apenas respondeu: 'O Chris Lewis não tem qualquer hipótese'. Tu queres manter as pessoas interessadas, um pouco de entretenimento fazer muito num desporto individual como o ténis. Acreditem em mim, precisamos mais disso".

Borg anunciou a sua reforma muito cedo, principalmente quando comparado com os tenistas atuais. Tinha apenas 26 anos e deixou John McEnroe devastado, ao ponto de descrever o momento como “uma tragédia absoluta”. Há uns anos, o norte-americano já dissera o mesmo em "Stroke of Genius", documentário que parte da final de Wimbledon que Roger Federer e Rafael Nadal protagonizaram, em 2008, para chamar à fala várias personalidade do ténis sobre a rivalidade lendária entre o suíço e o espanhol.