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Kelly Slater tinha 11 pranchas guardadas em J-Bay que desapareceram e ele teve de ir comprar uma (da sua própria marca) para competir

Após duas etapas que falhou por estar lesionado, Kelly Slater viajou para a África do Sul, onde tem, há anos, algumas pranchas guardadas em casa de um amigo, lá reservadas para serem usadas na etapa de Jeffreys Bay. Mas, quando lá chegou, tinham desaparecido e a solução a que o 11 vezes campeão do mundo recorreu foi ir a uma loja comprar uma prancha produzida pela sua própria marca

Diogo Pombo

Beatriz Ryder/WSL

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Uma prancha convencional de surf alberga uma pessoa, e uma apenas uma, apesar de, factualmente, caberem lá mais corpos. Mas, para deslizar como se pretende no socalco de uma onda, é suposto amparar só uma alma e isso é paradigmático da modalidade que se inventou para se aproveitar a forma que o mar tem de mostrar os dentes: o surfista surfa para e por causa dele próprio, não porque um clube lhe paga para o representar. E daí que o seu instrumento de trabalho seja uma tela de colagens.

Em competição e quando já têm os pés na areia, no momento das flash interviews, quem faz vida de domar ondas obedece à regra não escrita de ter um boné a tapar a cabeça molhada e os braços a segurar a prancha posta na vertical, com o nariz ali paredes-meias com a cara. Tem um propósito. Esse acessório para o cabeçalho humano costuma ser de um patrocinador e é nessa zona da prancha que se cola a maior parte dos autocolantes com os logótipos das marcas que apoiam o ou a surfista, cujo financiamento suporta viagens, estadias e despesas inerentes às voltas ao mundo que a caça de ondas implica. Trocam o apoio em euros por exposição diante de câmaras ou em ecrãs das redes sociais.

Mas em Jeffreys Bay, na África do Sul, não se viu essa normalidade no utensílio de trabalho do homem que menos precisa de estar ao lado de uma prancha para ser prontamente identificado como surfista. Não é por ser careca que Kelly Slater consegue ser tão reconhecível: o americano já foi 11 vezes campeão mundial, tem esses títulos espalhados por três décadas e, em janeiro, até fez a gracinha de vencer o Pipe Masters, a prova mais icónica que existe no surf, que aumentou para 53 o seu recorde de vitórias no tour. Na 9.ª etapa do circuito mundial, contudo, a prancha que levou para o mar não tinha qualquer autocolante e isso foi de estranhar.

Não é que Kelly esteja dependente de financiamento alheio como quase todos os surfistas contra quem compete estão. O americano é dono de uma marca de roupa (Outerknown, que dá nome à etapa de Teahupo’o, no Taiti), detém uma empresa que inventou um mecanismo gerador de ondas artificiais onde a World Surf League fixou uma paragem do circuito (o Surf Ranch, no interior da Califórnia) e no seu património consta também a Firewire, marca de pranchas que sempre usa e onde escarrapacha os autocolantes relativos às outras duas empresas. Não em J-Bay, onde se apresentou com uma prancha da Slater Designs, mas limpa de adesivos.

O que levou a “Stab” a averiguar a ausência de adereços. Por ser quem é e tanta gente conhecer, a revista conta que Kelly Slater tem um pouso habitual em todos os lugares mais tradicionais onde o circuito mundial pára. Sendo Jeffreys Bay um deles, o americano assenta as suas pernoitas, habitualmente, em casa de um amigo onde tinha 11 pranchas guardadas, à espera do dia em que o dono aterrasse nessas coordenadas. Quando lá chegou, na véspera da competição arrancar, nenhuma das pranchas estava onde era suposto, nem o habitual anfitrião sabia do seu paradeiro.

Kelly Slater viera direto da Indonésia, onde feliz da vida andara a recuperar uma lesão apenas com o fato de banho vestido, recriando-se na água quente do arquipélago e nas respetivas ondas para todos os gostos. Tinha uma prancha com ele, mas o que funciona em vagas asiáticas não era o mais apropriado para o tamanho e a verticalidade das longas ondas com que Jeffreys Bay se espreguiçou.

E o que fez a lenda calva? Foi a uma loja de surf. O americano optou por comprar um exemplar da própria Slater Designs, a linha de pranchas em seu nome produzidas pela Firewire. Foi em cima dela, a rasgar leques de água nas auto-estradas apontadas para a direita na famosa onda sul-africana, que derrotou Barron Mamiya na ronda de eliminação, já depois de perder no heat inaugural ainda com a prancha trazida da Indonésia. “A que usei hoje é a prancha que tenho usado há anos, mas um pouco mais longa. Conheço-a muito bem. Não é perfeita para estas condições, mas funciona bem o suficiente para fazer alguns carves e tubos”, disse, no final da bateria vencedora.

Perderia na fase seguinte contra Jack Robinson, devido à derradeira onda manietada pelo australiano, que lhe valeu 9.10 pontos - ele surfou depois até à final, onde só o conterrâneo Ethan Ewing o superou para conquistar a prova.

Criado o mistério, feita a auscultação do problema e descoberta a solução a que Kelly Slater teve de recorrer, comprando uma prancha feita e comercializada pela marca que ele detém e, portanto, lucrando com o próprio dinheiro gasto, a revista “Stab” conseguiu perguntar ao surfista pelo paradeiro das tais 11 pranchas que estariam lá sempre de prevenção, em Jeffreys Bay. A resposta do americano foi tão casual quanto inesperada: “Estava em casa de um amigo e esquecemo-nos que as tínhamos lá deixado”.

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