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Entrevista a Kelly Slater: “Isto não me caiu no colo, trabalhei para caraças. Espero ter inspirado as pessoas a pensarem: ‘Holy shit, ele tem 50 anos. Eu posso fazer isto!’. E porque não?”

Na véspera do arranque do MEO Pro Portugal, em Peniche, onde se realiza a terceira etapa do circuito mundial de surf, falámos com Kelly Slater sobre o que ainda o move aos 50 anos e como “nunca” foi “uma pessoa que pensa que não é possível fazer alguma coisa”. Sobre a vitória em Pipeline, a dias de completar o meio século de existência, diz que “soube como se todas as coisas boas que fez na vida se juntassem, como um pináculo”. E revelou que, provavelmente, este será mesmo a sua última temporada a competir

Diogo Pombo

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Não que a sala esteja à pinha, obesa em gente e magricela em espaço, mas, quando os e as surfistas aparecem com o registo descontraído que impera quando as gentes das ondas no mar estão com os pés em terra — as peles tostadas pelas horas ao sol, os bonés a pontuarem todas as cabeças, o largueirão nas vestes —, o auditório deste hotel em Peniche silencia-se um bom bocado. As pessoas levantam-se das cadeiras, abeirando-se do sítio onde se alinham as três mulheres e os quatro homens. Os telemóveis saem dos bolsos e fazem mira. É previsível que a maior parte foque no senhor meio século ali presente.

É raro Kelly Slater comparecer neste tipo de eventos protocolares, de apresentação, em que se tiram fotos a monte, há várias pessoas a pedir fotos, se dá voz a patrocinadores e colocam-se perguntas de ocasião a quem pertence à água salgada. Ele tem meio século feito há menos de um mês, é o surfista mais conhecido e popular do planeta, conta 11 títulos mundiais e, em fevereiro, ganhou a 56.ª etapa do circuito mundial de surf, 30 anos após a primeira vitória. É um monstro lendário da vida com prancha nos pés e a raríssima longevidade trouxe-o, mais uma vez, a Portugal.

Por ser tão raro, normal é que toda a gente queira um pedacinho do melhor surfista de sempre. A reputação de Kelly precede-o quanto às mais variadas coisas. A vacinação contra a covid-19 é uma delas — já criticou as vacinas, nunca disse se está, ou não, vacinado, mas revelou que “nos vamos ver na Austrália”, onde só entram os estrangeiros vacinados — e o pouco vagar para entrevistas é outra. Muito se tem e quer perguntar a quem é capaz de competir, ganhar e continuar relevante durante tanto tempo e assim será sempre, mas, findos os compromissos do americano após a conferência de imprensa do MEO Pro Portugal, ele teve tempo.

A conversa ocorre numa outra sala, também grande embora vazia de gente. Em pé, preferência de Kelly Slater, há horas sentado. E agora, o que se pergunta a um homem a quem é fácil de pensar que já se perguntou tudo e que se sabe ter paciência parca para estes falatórios? A entrevista demora pouco mais do que 10 minutos, o seu fim apressado pelo responsável da World Surf League que a possibilitou e presenciou. E Kelly Slater, vencedor aqui em Peniche em 2011, muito falou sobre ele próprio, o que ainda o move e este ano que deverá ser o último em que anda nesta vida de dar voltas ao mundo à procura da onda seguinte para competir.

Sei que já te devem ter perguntado tudo e mais alguma coisa. Sem querer repetir: por acaso há algo que, normalmente, as pessoas não te perguntem?
Hum, o meu historial médico [faz uma pausa antes de se rir]. Desculpa, é uma má piada, uma contextual devido ao tempo que estamos a viver, até nos perguntam pelo historial para irmos jantar fora.

Bom, mas ainda estás aqui a viajar e a competir porquê?
Obviamente, ainda consigo ganhar, e simplesmente adoro surfar. A competição é o palco para mim, ainda é, mas não sei, este ano parei para pensar: “Qual é a minha razão para fazer isto?”. Pensei que era provável que este fosse o meu último ano, portanto, quis dar a volta e dizer adeus a toda a gente, em cada lugar onde estive, para honrar isto que meu deu tanto.

Quantas vezes já disseste isso a ti próprio, ao longo dos anos?
Não, não. Houve um par de vezes em que quis dizê-lo, mas o meu coração não estava para desistir, ou parar, foram alturas em que estava a passar por muita coisa emocional, familiar e de relacionamentos. Os últimos dois anos serviram para colocar muita coisa em perspetiva para mim. Desfrutei muito de estar num mesmo sítio durante alguns meses e é assim que visualizo a minha vida no futuro. Não vou estar num lugar para sempre, mas, provavelmente, andarei a variar de sítios durante alguns meses em vezes viajar todas as semanas. Estou a habituar-me a não viajar tanto e desfrutar de abrandar um pouco, ter esse tempo. A relação com a minha filha [Taylor] está a mudar, estamo-nos a aproximar e a minha vida pessoal está muito mais resolvida. Não sinto a mesma vontade de quando és mais novo e queres ir mundo fora para seres alguém naquilo que fazes, sabes?

Quando os aeroportos, os voos de dezenas horas e o estar sempre a trocar de sítio não importam?
Sim, hoje em dia começo a sentir muita ansiedade antes de viajar, porque não quero ir. Quero passar a minha vida a fazer o que quero mesmo fazer. Este sucesso permitiu-me isso, que agora viva a vida mais nos meus termos e, ao longo do tempo, tudo foi evoluindo. Hoje sou dono da maioria das empresas com quem trabalho.

Estás confortável na vida, digamos assim.
Sim, quer dizer, não tenho um chefe que me diga que tenho de ir fazer isto e aquilo. Quando és mais novo e estás a construir o caminho para subir a escada, tens de o fazer. O que é totalmente tranquilo, não tenho quaisquer arrependimentos, a Quiksilver e a Channel Islands foram muito boas comigo, foram eles que me fizeram quem eu sou. Toda a minha glória e os meus agradecimentos vão para eles, mudaram a minha vida, mas queria evoluir e foi isso que aconteceu quando saí da Quiksilver [em 2014] e fundei a Outerknown, e saí da Channel Islands e comprei a Firewire. Comecei a investir em empresas diferentes e virei-me mais para ser um tipo de negócios do que um surfista patrocinado. Sinto que a minha vida como um atleta patrocinado tinha percorrido o seu caminho e acabou.

Foto: Pedro Mestre/WSL

Foto: Pedro Mestre/WSL

Achas que estás na posição mais privilegiada da tua carreira neste momento? Agora és um homem de negócios que também faz surf?
De certeza, sou super sortudo por estar onde estou, isso é certo. Mas não me caiu no colo, trabalhei para caraças [a expressão que usa é “I worked my ass off”] nos últimos 40 anos. Por isso, quero agora desfrutar de tudo isso mais devagar. Há certas coisas pessoais e com a família que requerem tempo e precisas de não ter a pressão de viajar, de competir e de ter a disciplina que isso implica: o sono, o acordar às horas certas, teres o equipamento pronto, comeres a comida certa. É bom para ti porque te mantém saudável, alerta e vivo, faz-te sentir que estás a ser bem-sucedido, mas também te consome. Odeio dizer que estou a crescer, mas, provavelmente, estou mesmo. Estou a levar o meu tempo [ri-se].

O teu corpo não te lembra disso com aquelas dores de manhã, de quem sai da cama ao acordar?
Bom, tenho lesões, mas não penso que sejam irreversíveis. Já parti o pé de uma forma em que algumas pessoas me disseram que não poderia competir mais. Que poderia terminar a minha carreira. Mas nunca fui uma pessoa que pensa que não é possível fazer alguma coisa. Já tenho tido dores nas costas nos últimos 20 anos, mas não me queixo e digo que tenho 50 anos. É o que é.

Acho que te poderias lamentar e toda a gente entenderia.
Sim, mas também sei que se dedicar tempo e fizer o trabalho que é preciso, quer esteja a competir, ou não, consigo pôr o meu corpo a sentir-se bem. Trabalho com um tipo que tem 68 anos e sente-se melhor, e mais forte, do que alguma vez esteve; diz que tem mais flexibilidade do que quando tinha 50, 30 ou 20 anos. É porque se coloca a trabalhar nele próprio. Eu sinto-me inspirado por este tipo de coisas, espero que eu ter ganhado em Pipeline tenha inspirado as pessoas a pensarem: “Holly shit, ele tem 50 anos. Eu posso fazer isto!”. Por que não? Conheci um homem aqui [em Portugal] que me disse: “Kelly, tenho a tua idade, faço surf desde os 10 anos, mas claro que não tenho o teu nível”. E respondi-lhe: “Bom, mas eu comecei aos cinco, tenho mais anos disto, portanto ainda tens cinco anos para me apanhares”. O meu lema e mantra na vida é que devemos pensar que os nossos melhores dias estão à nossa frente, isto para a nossa saúde emocional e pelo prazer físico. O Taylor Knox [antigo surfista do circuito mundial] é uns meses mais velho do que eu, quando tinha 14 ou 15 anos teve um lesão nas costas e os médicos disseram-lhe que não voltaria a andar. Ele disse-lhes “vão-se lixar, vou ser um surfista profissional” e conseguiu.

Mas ainda tens receio de perder alguma experiência?
Ainda o sinto porque a minha vida está tão cheia que há sempre outras opções. Esse é, provavelmente, o meu problema. Sou bastante indeciso, há tantos meios, tantos lugares, tantas pessoas para ver e não só pedidos para ir a sítios, mas também swells para perseguir, ondas que quero surfar e coisas novas que quero aprender. Durante muito tempo desejei que houvesse dez Kelly Slaters e assim conseguiria fazer tudo o que quero na vida. Não há tempo suficiente. Qualquer pessoa que esteja chateada com a sua vida ou sinta que não está a correr bem, há tanta coisa que pode fazer. Todos os dias podes acordar, ter uma ideia, ir fazê-la e isso pode mudar a tua vida. Tento manter-me sempre um pouco à beira de ser inspirado por algo diferente, um pensamento pode aparecer de repente na tua cabeça e mudar a tua vida, a de outra pessoa ou a da tua família.

E depois é esperar que, enquanto crescemos, fiquemos melhores a tomar decisões?
Espero que sim. A não ser que faças más escolhas e aí começas a ter outras piores e piores. Normalmente, as coisas vão piorando enquanto não arranjares maneira de as resolver. Sabes, Pipeline soube ao realizar da minha vida e de todas as coisas boas que fiz na vida se juntarem, como um pináculo. Depois, a minha namorada combinou um encontro, estivemos a jogar golfe com uns 50 dos meus melhores amigos, que voaram de todo o lado para virem celebrar comigo. Pareceu ter sido uma conquista que todos conseguimos juntos. Senti que foi o culminar de 50 anos de desafios e, também, boas escolhas que se revelaram acertadas. Tive de aprender muito.

Como assim?
Obviamente, há pessoas que nasceram em situações piores do que a minha, mas também há quem tenha nascido em melhores. Tive muitos desafios. Não tive a melhor orientação da parte dos meus pais [o pai era alcoólico] e, em alguns momentos, tive de ser o meu próprio progenitor ou ir aprender com outras pessoas para, depois, tentar retribuir isso às pessoas que me rodeiam. Em Pipeline, durante a semana, consegui ver isso a acontecer em tempo real. Foi muito emocionante e especial para mim.

Agora que há outra guerra no mundo com a invasão da Rússia na Ucrânia, sentes-te ainda mais privilegiado?
Sim, sinto-me super afortunado por não viver na Ucrânia. Tenho um bom amigo que é casado com uma ucraniana, agora vivem em Bali [na Indonésia], mas ela tem 13 familiares que, neste momento, estão dentro de uma casa em Kiev e a ficarem sem comida, precisam de ajuda. Há uma mulher que está grávida e prestes a dar à luz, pode acontecer a qualquer dia e eles não sabem o que vão fazer. Soube disso esta manhã.

E nós aqui, deste lado do mundo, a conversar com um dia tranquilo lá fora.
Mas, se cada pessoa for um espírito, esse é o desafio que nos é dado. Tento compreender a situação, mas tentando olhar para ela como uma situação de vítima. Há coisas terríveis que estão a acontecer, mas há coisas incríveis que podem vir daí também. Há um equilíbrio aí algures. É fácil apontar o dedo à Rússia, mas os EUA invadiram sete países diferentes do Médio Oriente nos últimos 20 anos. Bombardeámos e muitas pessoas morreram devido a isso. Talvez haja uma espécie de virtude nisso, porque, de alguma maneira, estávamos a tentar ajudar pessoas, mas, noutras, não sabemos a história toda. O que quero dizer é que tudo depende da perspetiva de onde estejas e nem tudo é uma questão de certo e errado. Toda a gente tem desafios, eles simplesmente são diferentes.