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Circo de feras (ou um elogio à Fórmula 1 dos nossos dias)

Pedro Boucherie Mendes traz-nos um olhar nostálgico aos tempos em que a Fórmula 1 era coisa de televisão aberta, mas lembra que esta era, uma era em que Max Verstappen e Lewis Hamilton partem empatados para a última corrida do ano, é "mais complexa, mais técnica, mais estratégica, mais apaixonante, mais empolgante, conseguindo ser mais segura"

Pedro Boucherie Mendes

DeFodi Images/Getty

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Numa das memórias mais longínquas de infância, pegamos na miniatura réplica do Williams de Alan Jones e espetamos alfinetes roubados à caixa de costura nas pequenas rodas de plástico. Este vudu, que teremos aprendido num livro de Tintin, pareceu-nos a última esperança de que o carro de Jones partisse e o nosso favorito Nelson Piquet pudesse vencer no Brabham. O expediente das crianças não é demasiado ético ou sequer sofisticado quando é de lutar pela vitória. Pois assim aconteceu, Jones (ou talvez possa ter sido o argentino Reutemann) desistiu mesmo num domingo qualquer dos anos 80, no tempo em que as pessoas chamavam Paulo Jorge e Ana Cristina aos filhos, e a Fórmula 1 nas tardes de domingo era tão da nossa vida como as queixas dos comerciantes da baixa pelo Natal.

Aquela que ainda é a principal competição de homens e máquinas, começou por ser uma coisa de vaidosos que faziam carros, os chamados garagistes; passou por ser um enorme veículo de publicidade a marcas de cigarros; seduziu quase todos os construtores que acreditaram que as vitórias na pista haveriam de valer vendas no stand; até chegar ao que é hoje, uma série de televisão valiosa, protagonizada por profissionais de excelência, com uma temporada nova todos os anos, receitas de direitos televisivos, patrocinadores, bilhética e governos que querem ter o evento por todo o tipo de motivos - Azerbaijão, Arábia Saudita ou Catar pagam muito por este fim de semana ocidentalizado.

Através dessas transmissões na RTP, tantas vezes de imagem fajuta e tremida, a Fórmula 1 tem direito a uma ala própria no museu imaginário das coisas com as quais a democracia portuguesa cresceu. Irritantemente, tem uma ala pelo menos tão grande no museu imaginário das coisas que se podem desdenhar na versão atual, porque, como estamos fartos de saber, antigamente é que era bom.

Como disse Chesterton, podemos ter quase certeza de que estaremos errado acerca do futuro, se estivermos errados acerca do passado. E assim é, caros especialistas do antigamente. Em criança, podíamos adorar Prost, Arnoux, Lafitte, Alboreto, Pironi, Villeneuve, mas a verdade é que durante demasiados anos a Fórmula 1 foi uma carnificina, um disparate de testosterona, mecânica falível e segurança própria de um barquinho a remos. Até Senna ter morrido, os carros e as pistas eram perigosos, o desnível entre equipas gritante e um certo amadorismo e boa vontade frequentes. A Fórmula 1 hoje é muito melhor, tão melhor, que chega a ser difícil revisitar corridas antigas sem um certa condescendência e uma palmadinha nas costas dos que ainda acham que aqueles é que eram os tempos, só porque foram miúdos num tempo em que a televisão se resumia a dois canais.

Nelson Piquet no Brabham, em 1985

Nelson Piquet no Brabham, em 1985

Paul-Henri Cahier

Hoje, a F1 é complexa, mais técnica, mais estratégica, mais apaixonante, mais empolgante, conseguindo ser mais segura. Sobretudo é mais grandiosa. Quem esteve no Algarve no ano passado, viu bestas gigantes de mais de cinco e metros e meio de comprimento e dois de largura, carros híper estilizados, rivais num ambiente futurista, tecnológico e sofisticado. Para lá do mundo militar de ponta, a Fórmula 1 será o que de mais perto haverá de ciência futurista, mais própria do metaverso (preparem-se para ler e ouvir a palavra muit­­as vezes em 2022) que desta vida. Nos caboucos da luta de egos do pós segunda guerra, a vontade indómita e infinita do mais e melhor, do chegar à frente, tornou a Fórmula 1 imparável e voraz, regurgitando inovação tecnológica em cima do nervo da competição.

O brutalismo tornou o Mercedes que venceu o título no ano passado um metro e vinte centímetros mais comprido que o Ferrari com que Schumacher dominava em 2004 e quase 150 quilos mais pesado.
Não admira que depois de ser comprada pelos americanos da Liberty Media, também a Fórmula 1 tenha a sua música de genérico, operática e empolgante como a da Champions, encomendada ao compositor de filmes da Marvel. Espanta ainda menos que, preservando o legado desportivo, a F1 venha a descer depressa a idade média do seu público. Os homens de meia idade que bebem Heineken e querem ter um Rolex (os principais sponsors), convivem com gerações mais novas, sejam investidores em criptomoedas (a Crypto.com é o novo sponsor) ou os miúdos vidrados na série "Drive to Survive", da Netflix. Esta modernização tem sido progressiva e inteligente. Com motores com uma componente híbrida e a promessa de usar cada vez mais combustíveis amigos do ambiente, a Fórmula 1 tem evitado atenções das causas contemporâneas com alguma sorte e habilidade: na mesma comparação, o carro de 2020 consome praticamente metade de combustível (uma gasolina especial) do que o de 2004.

Do ponto de vista do espetáculo, que é o que interessa, os deuses têm gostado do que se anda a fazer na F1 e fizeram do Grande Prémio de domingo passado na Arábia Saudita, um dos mais únicos e especiais da história de mais de 1050 corridas, recheado de nuances regulamentais, duelos entre os favoritos, acidentes e imprevisibilidade.

No próximo ano, nos primeiros dias da Primavera, será a primeira época do grande reset, com as equipas com a ter de cumprir, competir e vencer com todo um novo livro de regras. Antes dessa revolução, começam nesta sexta-feira no Abu Dhabi os treinos da última corrida da época de umas das temporadas mais emocionantes desta era. O holandês Max Verstappen (Red Bull, com unidade de potência Honda) e o inglês Lewis Hamilton (Mercedes, Mercedes), arrancam para o grande prémio final com o mesmo número de pontos. É a segunda vez que tal sucede em 71 campeonatos e a vigésima quarta vez que se apura o campeão na última corrida. Se no domingo os dois contendores pelo título de campeão de mundo de 2021 chocarem um no outro, o diretor de corridas, tentando evitar reprises tristes veio avisar que pode haver pontos deduzidos caso se demonstre um ato culposo. Fez bem. O duelo entre o holandês assanhado, de talento ímpar e agressividade ilimitada e o inglês que é o mais titulado de sempre, aquele com mais vitórias e o que mais vezes partiu na pole-position, tem sido um dos maiores da Fórmula 1, daqueles que os defensores do antigamente do futuro irão gabar até ao fim dos seus dias.

No domingo, se ambos concluírem a corrida acima dos dez primeiros inclusive, é campeão aquele que chegar na frente. Se desistirem, Verstappen vencerá o seu primeiro título, porque o critério de desempate é o número de corridas ganhas. Os do antigamente têm aqui as condições básicas de apuramento do vencedor. Os outros, os que seguem a F1, somam nuance dramática improvável mas possível: se Hamilton ficar em nono e Verstappen em décimo e o holandês tiver a volta mais rápida, é ele o campeão.