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O ciclo menstrual ainda é tema tabu no desporto, mas conhecê-lo pode ajudar na carreira. Breanna Stewart e Millie Bright são exemplos

O que é que a equipa de futebol norte-americana, Breanna Stewart e Millie Bright têm em comum? Todas monitorizaram os seus ciclos menstruais, adaptaram os treinos a esses momentos e saíram a ganhar com isso. O período ainda atrapalha muitas atletas, mas é possível que possa ser um aliado

Rita Meireles

Christopher Mast

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Nunca é algo bom, mas há lesões e lesões. A que Breanna Stewart sofreu no dia 14 de abril de 2019 é uma das piores e mais assustadoras para qualquer atleta. A jogadora da WNBA rasgou o tendão de Aquiles durante a final da EuroLiga, no período em que a liga norte-americana estava parada. Seguiram-se 15 meses afastada dos pavilhões e alguma incerteza em relação ao futuro.

Mas desde que voltou não deixou de desafiar a lógica. Entre uma série de prémios coletivos e individuais, Stewart conseguiu a proeza de voltar numa forma tão boa ou melhor do que aquela em que estava antes da lesão.

São vários os factores e pessoas que contribuem para o sucesso de uma jogadora que pratica um desporto coletivo, mas recentemente Stewart falou de um ponto que tem sido essencial na sua carreira, pelo menos nos últimos anos: a monitorização do ciclo menstrual.

Todos os meses as dores, o desconforto ou alguma insegurança batem à porta das atletas que estão em competição durante o período em que estão menstruadas. “É muito chato, mas as mulheres são resilientes e vamos aprendendo a lidar com isso à medida que chega", disse a jogadora das Seattle Storm ao “Insider”. "Parece que tenho sempre o meu período na pior altura possível, quer seja mesmo antes de um grande jogo ou num dia em que sei que o treino vai ser difícil. Como mulheres, lidar com os nossos períodos é mais uma coisa que temos de gerir".

Ao início as dores menstruais eram isso mesmo: algo com que qualquer mulher tinha que lidar, querendo ou não. Mas agora, e depois de aprender muito sobre o assunto e do trabalho com Susan King Borchardt, antiga basquetebolista norte-americana, o panorama mudou para Stewart. “Aprendi a construir a minha rotina em torno do meu ciclo menstrual para treinar e recuperar eficazmente, de acordo com as necessidades do meu corpo", disse.

No fundo, o processo é simples. “A minha treinadora, Susan, trata do meu plano de treino numa base diária, mensal, mesmo anual, e o meu ciclo menstrual desempenha um enorme papel na forma como ela desenvolve esse plano. Quando tenho o período, preciso de mais dias de recuperação, embora por vezes sejam difíceis de arranjar. É obviamente muito difícil quando estou na época. Mas quando estou na quarta semana do meu ciclo, a Susan pressiona-me a fazer mais meditação e yoga, e concentrar-me em relaxar à noite para acalmar o meu corpo", explicou a jogadora.

O foco está sempre na recuperação. Durante os meses em que esteve parada, recorreu aos equipamentos de uma empresa, onde mais tarde investiu, para estimular os seus quadríceps e evitar a atrofia muscular. Com o tempo percebeu que o estimulador muscular que implementou na sua rotina estava também a servir para aliviar cólicas, reduzir o fluxo menstrual, a formação de coágulos e a fadiga.

"O ciclo menstrual é ainda um tópico que deixa as pessoas desconfortáveis. Menstruamos uma vez por mês e é importante compreender as questões que todas nós temos. Como cuidar do corpo durante cada fase do ciclo e como obter alívio, especialmente durante os primeiros dias em que muitas mulheres sentem as dores mais intensas", afirmou.

Millie Bright, jogadora de futebol do Chelsea e da seleção inglesa, está neste momento a jogar uma das competições mais importantes da sua carreira. É mais um Europeu, mas este não é um qualquer. É um Euro em casa. Depois de eliminar a Espanha nos ‘quartos’, a jogadora já sabia: as chances de estar menstruada na meia-final, e até na final, são bastante grandes.

"Posso dizer-vos a 100% que virá em breve, se o meu ciclo estiver correto", disse ao "The Telegraph". "Mas estou muito confiante no meu plano e no que preciso de pôr em prática para reduzir os meus sintomas".

Lynne Cameron - The FA

Bright fala com tanta certeza porque começou por organizar todos os dados possíveis durante dois anos, recorrendo a uma aplicação móvel. Ao mesmo tempo, apontou todos os sintomas que foi tendo diariamente. A ideia é a mesma que Breanna Stewart passou: conhecer o próprio ciclo para conseguir adaptar os treinos.

"Quando estou de facto no meu período, tenho mais energia. Eu sei que uma semana antes de começar a sangrar vou sentir dores nas costas, o que me faz sentir muito mais fatigada do que o normal. Cada jogadora tem essa sensação, como se algo a incomodasse, mas eu tenho sorte em não sofrer de cãibras graves ou algo do género. Tenho visto uma grande melhoria em mim própria. Estou confiante quando estou com o meu período e não permito que ele assuma o controlo do meu desempenho", garantiu a jogadora.

Nem todas as atletas se sentem da mesma forma. Segundo o “The Telegraph”, um estudo publicado em dezembro do ano passado descobriu que o ciclo menstrual tem um impacto negativo no desempenho atlético. O estudo foi baseado em entrevistas com 15 atletas da liga de futebol feminino de Inglaterra. Mais de metade das inquiridas sentiram uma diminuição do apetite e da qualidade do sono durante a menstruação, sendo que os indicadores de desempenho físico mais impactados foram a potência e a fadiga.

A ideia de monitorizar o ciclo menstrual é relativamente nova e não são todas as atletas que o fazem ou todos os clubes que o promovem.

Jessica Ennis-Hill, três vezes campeã mundial de atletismo e e campeã olímpica em Londres 2012, já retirada da competição, tem um momento da carreira gravado na memória. A prova era de heptatlo, no Campeonato da Europa de Juniores na Lituânia, em 2005. Venceu o ouro, mas a recordação mais forte daquele dia foi que mesmo antes da prova lhe veio o período.

FRANCK FIFE

“Estava tão preocupada e receosa que alguém iria ver que estava com o período e que não tinha a proteção certa... Lembro-me apenas de correr esses 800 metros a pensar que estava a tentar ganhar uma medalha de ouro, mas também muito consciente de que estava a chegar o meu período. Saí a correr da pista e senti que não estava a absorver aquele incrível momento da medalha de ouro. Isso foi algo que realmente me ficou como atleta", disse à BBC News.

Hoje acredita que poderia ter sido melhor atleta se tivesse treinado nos dias em que teve o período.

"Talvez se eu tivesse passado mais tempo a compreender, particularmente o trabalhar mais na fase folicular [a semana que se segue ao período, quando os níveis de estrogénio]... Talvez tivesse construído mais músculo magro e ficado mais forte", disse Ennis-Hill. "Quem sabe? Isso poderia ter afetado o meu desempenho de uma forma positiva".

Os créditos do sucesso da equipa de futebol feminino dos Estados Unidos no Mundial de 2019 são também atribuídos a essa mesma monitorização e conhecimento. Elas foram umas das primeiras equipas a implementar esse acompanhamento. E é essa a receita que a seleção inglesa quer seguir durante o Euro 2022.

“Porque seguimos atentamente a equipa desde a SheBelieves Cup de 2020, sabemos agora como são os ciclos das jogadoras e conhecemos os sintomas que elas podem experienciar", disse Georgie Bruinvel, médica que também trabalhou com a equipa norte-americana, ao “The Telegraph”. “Trabalhámos para compreender realmente o que elas precisam de fazer em alturas diferentes para gerir esses sintomas. Efetivamente, todas têm uma pegada única e ao longo do tempo desenvolvemos uma compreensão holística do que isso é e de como o podemos gerir e trabalhar”.