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Atrás de um título mundial está uma grande “robustez mental”. Que força é essa que tem Pichardo?

Elevados níveis de controlo emocional, capacidade de regular as emoções nos momentos de prova e foco em tarefas e resultados. São estas algumas das competências que distinguem Pedro Pablo Pichardo, campeão mundial do triplo salto, dizem os profissionais de psicologia ouvidos pelo Expresso. Os especialistas alertam para a necessidade de integrar o desenvolvimento destas competências no treino de outros atletas. "Ao mais alto nível, o que diferencia os atletas são as suas capacidades psicoemocionais", diz Ana Bispo Ramires, especialista em psicologia do desporto

Helena Bento

BEN STANSALL

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Atrás de uma grande performance no desporto e de títulos mundiais, está sempre uma elevada "robustez mental". Assim diz Ana Bispo Ramires, especialista em psicologia do desporto, referindo-se a Pedro Pablo Pichardo, que foi campeão do mundo do triplo salto este sábado, em Eugene, nos Estados Unidos.

Segundo a psicóloga, não é preciso conhecer Pichardo para adivinhar que, "por baixo da sua consistência em termos de desempenho, está necessariamente uma robustez mental" que faz com que o stress e a ansiedade, próprios de contextos de alta competição, sejam "superados". A investigação feita nesta área mostra que atletas como ele têm "características psicológicas diferenciadoras", apresentando elevados níveis de controlo emocional e uma grande capacidade de regular as emoções nos momentos de prova. "Se assim não fosse, ele não estaria onde está."

Encarar as dificuldades como "desafios"

João Lameiras, que é psicólogo do desporto no Grupo de Atuação em Psicologia e Performance e foi durante vários anos psicólogo da seleção nacional de atletismo, aponta a "orientação para a superação" como uma das características que distinguem o atleta português. Tal ficou "patente" no discurso feito por Pichardo após a atribuição do título de campeão do mundo em triplo salto.

Nesse momento, o atleta mostrou-se contente com a vitória, mas referiu que ainda tem muitos objetivos por alcançar: ser o primeiro português a ultrapassar a barreira dos 18 metros, bater o recorde do mundo, ser campeão da Europa. "Ainda falta muita coisa, muita coisa, porque há sempre alguma coisa para conquistar". Segundo o psicólogo, estas palavras mostram que, à semelhança de outros atletas olímpicos, Pichardo é "muito focado em objetivos e na superação".

A "capacidade de interpretar as situações mais competitivas e mais críticas como desafios e não como fatores de pressão ou como uma ameaça capaz de desencadear ansiedade" é outras das competências emocionais que o diferenciam, diz João Lameiras, sublinhando que estamos perante um "atleta que provavelmente desenvolveu as suas competências por tentativa e erro, com base em experiências prévias, mas também através do treino de competências". Não é de ignorar o papel desempenhado pelo pai, que é também seu treinador: "Percebe-se que há um suporte muito claro".

Psicólogos alertam para necessidade de reforçar competências psicoemocionais

Pedro Pichardo é um caso de sucesso entre muitos que não conseguem chegar tão longe. "Temos muitos jovens talentosos e promissores que não conseguem alcançar resultados consistentes precisamente porque o desenvolvimento destas competências não está integrado no seu desenvolvimento integral", aponta o psicólogo. Nestes casos, há claras dificuldades em lidar com as expectativas — as suas e as das outras pessoas, uma vez que têm "grande exposição pública" e são muitos afetados pela "pressão social" — e em "manter o sucesso".

"Muitas vezes há atletas que conseguem um grande resultados mas, por diversos fatores que nem sempre conseguimos identificar, não conseguem voltar a atingir os mesmos resultados". Face a isto, João Lameiras chama a atenção para a necessidade de promover um "treino sistemático" nesta área. "Se o fizermos, teremos atletas mais robustos do ponto de vista mental e que não têm de aprender por si próprios, por tentativa e erro."

Ana Bispo Ramires, que acompanhou a comitiva portuguesa nos Jogos Olímpicos de Tóquio, onde Pichardo foi ouro, concorda com a necessidade de reforçar estas competências psicoemocionais, sublinhado que o mais importante é entender que atletas como Pichardo "mostram que é possível ter estas competências e treiná-las".

"Em Portugal, deveríamos dotar os atletas com estas ferramentas o mais precocemente possível". Só assim será possível ter o "topo da pirâmide mais achatado". É lá que estão os que apresentam uma performance desportiva superior. A psicóloga vai ainda mais longe: "Ao mais alto nível, o que diferença os atletas são as suas capacidades psicoemocionais, uma vez que as competências, técnicas, táticas e físicas já lá estão." O que vai fazer com que levem a medalha para casa é a "tenacidade" e a "capacidade de sacrifício", sublinha.

E depois da vitória?

Depois de uma grande vitória ou conquista pode seguir-se um período de alguma turbulência, com dúvidas sobre a capacidade de obter resultados superiores — agora que as expectativas são ainda maiores — ou simplesmente manter o desempenho.

Não será o caso de Pichardo, que está "muito orientado para tarefas e resultados", diz Ana Bispo Ramires. "Se a comemoração da vitória durar uma semana, já é muito. Rapidamente ele vai orientar-se para outro resultado". Até porque os Europeus de atletismo estão à distância de menos de um mês. A mentalidade é essa: "Trabalho, trabalho, trabalho e seguir para a próxima".

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