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Esta semana no mercado: a incerteza em torno de Ronaldo, Veron para Conceição potenciar, chegadas apoteóticas e saídas discretas

Ronaldo voltou esta semana a Manchester, mas as notícias sobre a sua saída do United continuam a centrar a atenção mediática. Em Portugal, os grandes dedicam-se à difícil tarefa de fazer emagrecer plantéis, enquanto Roma saúda a esperança de um novo imperador e várias jogadoras da seleção nacional rumam ao estrangeiro. Às sextas-feiras, um resumo das últimas movimentações confirmadas do defeso, sejam novelas cujo desfecho há muito se aguardava, romances inesperados ou meros amores de verão peculiares

Pedro Barata

Matthew Ashton - AMA/Getty

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A situação soaria a impossível se lida com olhos de qualquer dos últimos 10 ou 15 anos: há a possibilidade de contratar Cristiano Ronaldo, mas diversos clubes rejeitam-na. O português, um dos reis do futebol da sua geração, atleta com mediatismo pouco visto e sala de troféus que dá para um museu em constante expansão, quer, segundo as mais diversas fontes em Portugal, Espanha ou Inglaterra — desde logo o sempre presente Fabrizio Romano —, sair do Manchester United porque pretende disputar a Liga dos Campeões e lutar pelos principais títulos, mas não está a encontrar portas abertas entre a elite de clubes na qual quer jogar.

Depois de ter falhado o arranque da pré-temporada dos red devils, com "razões pessoais" a serem dadas como justificação oficial para a ausência, o avançado viajou para Manchester na passada terça-feira. Em Carrington, no centro de treinos do United, uma reunião juntou Ronaldo, acompanhado de Jorge Mendes, com o novo técnico, Erik ten Hag, e até Sir Alex Ferguson marcou presença.

Da cimeira não saiu fumo branco e continuam os rumores sobre o futuro do capitão da seleção nacional, com o Sporting novamente ligado a uma transferência que até há pouco tempo pertenceria ao capítulo do impensável. Confrontando com a hipótese, Rúben Amorim, que sabe o que é partilhar relvado com CR7, chutou para canto.

"CR7 não bem-vindo": A tarja que os adeptos do Atlético Madrid mostraram durante uma partida amigável da equipa, a 27 de julho

"CR7 não bem-vindo": A tarja que os adeptos do Atlético Madrid mostraram durante uma partida amigável da equipa, a 27 de julho

Quality Sport Images/Getty

Frustradas que parecem estar as hipóteses Chelsea ou Bayern Munique, duas das primeiras que foram enunciadas, o Atlético Madrid foi dado como hipótese para satisfazer os desejos de Ronaldo: um clube que está na Liga dos Campeões, de uma grande liga, que ainda em 2021 foi campeão espanhol. Mas, numa partida amigável contra o Numancia, adeptos dos colchoneros deixaram claro que a contratação da antiga referência do rival da capital não lhes agradaria.

Para já, a novela é daquelas que não ata nem desata. Cristiano Ronaldo é jogador do Manchester United, ainda que continue a não estar presente em listas de convocados para jogos amigáveis dos ingleses. Por uma razão ou outra, não há interessados com força suficiente para se chegarem à frente e desatarem o nó. O primeiro encontro oficial do United é a 7 de agosto, na primeira jornada da Premier League, contra o Brighton.

Há um ano, a saída de Ronaldo da Juventus também só se concretizou no final do mercado. Teremos repetição do cenário em 2022 ou o português voltará a vestir a camisola do United? Saindo das novelas e entrando nas séries da infância: "Não percam o próximo episódio, porque nós também não".

Veron, o novo sete do Dragão

"Tem o aval do treinador. É um elemento em quem acreditamos. Tem de provar que estamos certos. Tenho muita esperança e estou confiante que acertámos mais uma vez". Foi com estas palavras que Pinto da Costa deu as boas-vindas a Gabriel Veron, novo reforço do FC Porto. Brasileiro de 19 anos, chega do Palmeiras de Abel Ferreira e promete agitar as alas do Dragão. Dele é já a camisola sete, ganhando peso de possível sucessor de Luis Díaz.

Outro antigo dono do número dos extremos que destroem os rivais pelas bandas é Sérgio Conceição. Sempre prudente a lidar com quem chega de novo, o treinador disse que o tempo de adaptação do brasileiro "depende do que ele demonstrar", sendo necessária a "tal integração e evolução normal de quem chega de um campeonato diferente". O "tempo" pode "ser uma semana ou um mês", diz o técnico dos campeões nacionais, colocando a responsabilidade de corresponder nos ombros do jovem.

Arrumar a casa com saídas de peso variável

Costumamos associar o mercado a aquisições sonantes, chegadas que fazem disparar a expectativa e redefinem o potencial das equipas. Mas para muitos treinadores, a maior preocupação durante o defeso prende-se com as saídas, conseguindo desfazer-se dos atletas que não contam para não sobrecarregar o plantel. Roger Schmidt, por exemplo, tem insistido na necessidade desse emagrecimento no Benfica.

Ora, para os três grandes da bola nacional, a última semana foi época para essas saídas. No Benfica, se os empréstimos dos jovens Tomás Araújo ao Gil Vicente ou Tiago Gouveia ao Estoril são normais no processo de crescimento de quem é formado no Seixal, já a saída de Pizzi tem de ser vista como a despedida de um dos mais relevantes jogadores do clube na última década.

Foram 360 jogos, 94 golos e 10 troféus conquistados, quatro delas as últimas quatro ligas que o Benfica tem. Muitas vezes portador da braçadeira de capitão, o jogo de tabelas, progressão em apoios e procura pela baliza adversária do transmontano foi perdendo relevância nos últimos tempos, levando-o mesmo a ser cedido ao Basaksehir na segunda metade de última época.

Depois de um rendimento discreto na Turquia, Pizzi assinou pelo Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos, que anunciou a contratação com um vídeo cujo sentido não conseguimos muito bem captar. Nos Emirados, Pizzi será orientado por Carlos Carvalhal e terá como companheiros Fábio Martins e Adrien Silva.

Para o Sporting, a semana foi especialmente movimentada neste capítulo das saídas discretas. Sporar foi vendido ao Panathinaikos, Rúben Vinagre emprestado ao Everton e Tiago Ilori cedido ao Paços de Ferreira, Rodrigo Battaglia rescindiu com o clube, despediu-se nas redes sociais e assinou pelo Maiorca, Renan Ribeiro também cessou o vínculo com o Sporting e rumou ao Al-Ahli, da Arábia Saudita. No FC Porto, Carraça foi emprestado ao Gil Vicente e Mor Ndiaye foi, em definitivo, para o Estoril

Internacionais portuguesas rumo ao estrangeiro

Com a aposta recente que Sporting, Benfica ou Sporting de Braga fizeram no futebol feminino, a seleção nacional passou a ter mais jogadoras a atuarem na liga portuguesa, algo que se viu no Europeu. No entanto, nas últimas semanas temos assistido à ida de diversas jogadoras que costumam fazer parte das opções de Francisco Neto para o estrangeiro, talvez à procura das condições e competitividade que ainda não se encontram por cá.

Assim, Andreia Jacinto rumou à Real Sociedad, Fátima Pinto ao Alavés e Diana Gomes ao Sevilha, juntando-se em Espanha à companheira de seleção Tatiana Pinto, que já estava no Levante. Joana Marchão, por sua vez, assinou pelo Parma, de Itália.

Fora das convocadas para o último Europeu, mas também lá fora, estão Ana Dias, que se tem destacado no Zenit, Mariana Jaleca, que acaba de trocar o Fenerbahçe pelo Sparta Praga, ou Catarina Realista, do Sassuolo. Uma nova vaga de emigração que se espera que possa ter impacto na seleção nacional.

Paulo Dybala, ou o sonho de um novo imperador

A Roma é um claro caso de um clube com um palmarés inferior à sua dimensão social. Apenas três vezes campeã italiana, a equipa da capital arrasta multidões, move paixões, mexe com o imaginário de uma cidade habituada a conviver com o lendário e o místico.

O Olímpico tem parecido um local vazio nos últimos anos, carente da figura icónica que era Francesco Totti. Para várias gerações de adeptos, Totti era Roma e Roma era Totti, parte da cidade, tão eterno como eternas parecem ser as paredes do Coliseu. Mas, em 2017, numa despedida cujo visionamento não se recomenda a quem não queira limpar lágrimas da cara, Totti disse adeus.

Um bocadinho do vazio que Totti deixou, e que nunca será totalmente preenchido, foi ocupado no coração dos apaixonados tiffosi com a contratação de Paulo Dybala. O argentino aterrou na capital para ser o grande craque da equipa de José Mourinho e a sua apresentação, diante de uma multidão que o aclamou, qual novo imperador sentado num trono, demonstra bem que o futebol — e a vida — vai muito além de troféus e objetivos palpáveis. O sonho, a expectativa ou a esperança não são coisas menores. Dybala leva-as consigo para o Olímpico.

Também no capítulo internacional, o Manchester United anunciou que Lisandro Martínez, conhecido de Ten Hag do Ajax, é reforço do clube. Nahuel Molina, lateral argentino que se destacou no viveiro que é sempre a Udinese, assinou pelo Atlético de Madrid e Gianluca Scamacca, avançado com recursos dentro e fora da área, foi do Sassuolo para o West Ham. O Barcelona continua o seu verão que contraria as finanças e, depois de Lewandowski ou Raphinha, contratou Jules Koundé ao Sevilha.

Manuel Fernandes, um trota-mundos no Irão

A agilidade conjugava-se com a técnica para desenhar o retrato de um médio completo, total, que pisava a bola, esticava os braços e fazia parar o tempo, não perdendo o objeto mais cobiçado (Fàbregas que o diga). Quando apareceu no Benfica, Manuel Fernandes era um projeto de centrocampista de seleção, homem para marcar uma década ao serviço de Portugal, como fez, por exemplo, João Moutinho, seu companheiro do ano de 1986.

No entanto, e sem sabermos ao certo as razões, a carreira de Manuel Fernandes não correspondeu às expectativas. Ter representado a seleção em 15 ocasiões, ter jogado num Mundial ou na Premier League e na La Liga, ter sido campeão pelo Benfica ou vestido as camisolas de Valência ou Everton são, obviamente, motivos de orgulho, mas a imensidão do talento que se lhe vislumbrava ainda como adolescente leva a que isto saiba a pouco.

O que Manuel Fernandes tem de sobra são experiências internacionais, pontos em que já jogou neste planeta onde em cada canto há um clube de futebol. Depois de ter atuado em Portugal, Inglaterra, Espanha, Turquia, Rússia e Grécia, o médio vai agora mais para Oriente. Fernandes é reforço do Sepahan, do Irão, onde será orientado por outro português que sabe o que é percorrer o mundo, José Morais.

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