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Liga dos Campeões

Quem foi better? O Sporting, com uma pitada de inexplicável

Ao fim de hora e meia, o jogo não tinha golos depois de o Sporting ser superior em tudo na primeira parte e resistir ao ímpeto reativo do Tottenham, na segunda. Mas, depois de a equipa abdicar de sair a jogar e se adaptar às dificuldades, Paulinho marcou num canto e, quando os descontos aconselhavam à calma, o estreante Arthur Gomes forçou um raide com os primeiros toques na bola pelos leões que fixaram a vitória por 2-0. Dois jogos na Liga dos Campeões, seis pontos para o Sporting

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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No primeiro falatório que dedicou à sina da fase de grupos desta Liga dos Campeões, faz semanas, o contorcionismo carismático de Rúben Amorim tentou evitar grandes divagações sobre o sorteio, ficando-se pela constatação de as três equipas com que Sporting calhou assentarem em sistemas com três centrais. O treinador foi parco e não passou disso mesmo, de uma constatação, e nem poderia ser mais: tiram-se cerca de zero ilações acerca da forma de jogar de uma equipa se apenas forem considerados os lugares de onde partem os jogadores. Nada se devia extrapolar.

Muito menos estando Antonio Conte no quarto das visitas, o decano treinador italiano nisto de, com bola, estruturar equipas com três defesas centrais. Estava o capilarmente artificial treinador a engatilhar a sua série de títulos da Serie A com a Juventus, no início da década passada, e já compunha equipas desta forma, com uma linha defensiva a três. Ele ganhou em Turim, repetiu-o no Chelsea, teve sucesso com a seleção de Itália e agora em Londres está a tentar festejar com o Tottenham ainda com os três centrais e, se um técnico se agarra a um sistema e vai, insiste, trabalha-o e repete-o, será porque reinventa dinâmicas para os jogadores que vai tendo para que estes existam lá dentro, de formas diferentes.

Com quem veste preferencialmente de branco mas, em Alvalade, se equipou de azul, Conte tem em Harry Kane o híbrido avançado de remate facílimo e dos mais fortes que há a jogar entre linhas, que foge à marcação dos centrais e baixa no campo enquanto Son e Richarlison se fazem de setas a atacar a profundidade. Os defesas viram poços de dúvidas e, por duas vezes (33’ e 42’), o inglês desmarca o brasileiro assim: um passe por entre as pernas de Coates e outro no meio de Inácio e Porro para o mesmo companheiro de ataque fintar Adán e rematar a bola para a baliza. Foram os dois singelos desequilíbrios na primeira parte, ambos seriam anulados por fora-de-jogo.

Em 45 minutos, o Sporting sobrepôs-se ao Tottenham nem sempre em território coberto, mas na posse de bola, nas jogadas ligadas de área a área e nas vezes em que chocalhou a forma de o adversário pressionar a todo o campo. Porque ambas as equipas o fizeram e mais os ingleses, a quererem mordiscar as receções dos defesas leoninos e ainda mais atraídos pelo posicionamento que Nuno Santos e Pedro Porro adotavam nas saídas: em linha com a área, quase a par dos centrais, chamando a pressão Emerson e Perisic (sobretudo o croata, no lado do espanhol) dos alas contrários para esticar a equipa e abrir espaços nas costas dos jogadores.

Confiando no pé esquerdo de Inácio, a jogar de novo à direita do trio de trás e que os spurs não condicionavam, na calma sob pressão de Porro e no renovada confiança de Adán a jogar com os pés esta época, o Sporting muitas vezes ligou saídas para os três da frente ou Morita, o médio japonês que é tão prático quanto elegante a passar a bola precisando de poucos toques. O Sporting fazia 100 metros de campo com movimentos simples e Pote testou o salva-vidas que há em Lloris (6’) antes de Marcus Edwards arregalar a pestana do povo ao qual pertence.

A jogada da partida foi do inglês que, dizem as línguas, é de um recato austero fora do campo, a roçar a celibato social, mas dono de uma extroversão absurda se a bola lhe chegar de chuteiras calçadas, a que recebeu (46’) para logo ludibriar dois adversários e arrancar para ultrapassar outro mostrou a ginga que existe perto do solo em Edwards. Os arranques explosivos, a finta curta e a capacidade para driblar jogadores tão boas que são que o traem, por vezes, e quando lançou Trincão na área para receber de volta a tabela pareceu querer entrar com a bola na baliza - quando rematou com o bico do pé, já na pequena área, estava a menos de dois metros da defesa com que Lloris o negou.

Octavio Passos/Getty

O Sporting superior pouco demoraria a ter de se transformar num Sporting algo sofredor, a ter de aguentar o ímpeto com que o Tottenham retornou do balneário. Mais fortes a reagirem às perdas de bolas e orientando a mesma pressão na saída de bola para Inácio ser forçado a orientar-se para o pé direito e os centrais jogarem mais com Adán, os ingleses cimentaram-se na metade do campo adversária e com a equipa de Rúben Amorim em constantes situações de contra pé. Em comum, todas foram germinadas por Harry Kane.

Por um par de vezes, o matulão avançado que se curva como que corcunda quando corre com a bola fugiu de ser um 9 para existir como o 10 que picou passes que descobriram Emerson Royal a correr de fora para dentro, na área. O cabeça do brasileiro rematou uma delas (48’) para Adán o barrar e passou a outra (49’), sem sucessos, embora urgindo ao Sporting que se muralhasse em torno da baliza.

Durante mais de 20 minutos, a equipa de Rúben Amorim não conseguiu ter posses de bola com oxigénio suficiente para alongar a equipa no campo e levar as jogadas até ao inconstante Trincão e os seus fogachos, ao Pote das tabelas e ao Edwards que cada vez mais especializa o seu talento a explodir entre linhas, até a servir de ‘parede’ para deixar outros jogadores de frente para a baliza. Quando Harry Kane, na esquerda da área, rematou para Adán se lançar noutro salvamento (54’), o Sporting era todo um bloco que resistia mais do que jogava. Também o irrequieto Richarlison, dos avançados esfomeados que para saciar a carência muito chateiam quando não têm a bola, rematou em jeito (58’) para assustar.

Não é dourar a casca indicar que crescer na Liga dos Campeões atolada de graúdos destas andanças, cada vez mais moldada para enriquecer os já ricos, é suster períodos destes, aguentar o pé contra um clube que há três anos jogava na final da competição são dores de crescimento e não apenas para os jogadores. Rúben Amorim di-lo-ia no final, também as equipas técnicas se adaptam, crescem, e terá sido em parte da união destas perceções que o Sporting cedo discerniu ter de mudar a forma que tanto lhe valera para chegar aos seus três da frente e desmontar o Tottenham na primeira parte.

Rendendo-se aos passes mais diretos e longos para fugir aos cercos de pressão dos ingleses, o treinador abdicou do fatigado Morita para dar rodagem ao grego Sotiris - uma novidade mais corpulenta e fresca para as segundas bolas - e tirou Trincão para ter a referência de Paulinho nessa rendição que não se tratou de um encolhimento, mas de uma adaptação. Não sendo capaz de gerar superioridades a sair a jogar curto e a provocar a pressão, o Sporting adequou-se às dificuldades.

E no quarto de fora derradeiro o jogo acalmou, o Tottenham nada criaria de perigoso nos últimos 30 metros do seu ataque e viam-se jogadores caseiros a serem amarrados à relva pelo cansaço, a multiplicarem-se em corridas para cortar passes ou dar coberturas, Ugarte e Nuno Santos os mais notórios enquanto o Sporting, em esticões mais raros, tentava chegar à área de Hugo Lloris. Uma das últimas, quando atraiu as atenções dos spurs à esquerda para aplicar a marca de água da equipa e rodar a bola para o outro lado, teve Porro a encarar um adversário à entrada da área e, com o pé esquerdo, rematar em jeito para sacar do guarda-redes francês a defesa da noite (90’).

DeFodi Images

Segundos depois, no canto, o espanhol curvou a bola para o primeiro poste onde a cabeça de Paulinho se elevou para desviar o golo e fazer ruir Alvalade num estrondo de decibéis festivos. Entre o abanar de esqueletos estariam os braços do adepto que segurava um cartaz interrogativo, “Quem é better?”, perguntava o pedaço de cartolina que parcialmente comparava o avançado português com Harry Kane. Já o jogo convivia nos descontos quando Rúben Amorim fez duas substituições e o Tottenham ligava o modo ‘fazer todos os possíveis’ para sair de um estádio em ebulição com pontos.

Na última das posses de bola do Sporting, farejando a segunda vitória seguida na Champions, os manuais do bom-senso futebolístico clamariam pela manhosa paciência que se sugere a quem, em jogo dos importantes, está a ganhar a segundos do fim - calma, paciência, que se use a bola sabia e vagarosamente, sem riscos que a percam.

Mas essa bola chegou a Arthur Gomes, o estreante absoluto da noite, extremo contratado ao Estoril que o treinador lançou nos derradeiros esgares da partida, e o brasileiro ignorou todas as prudências não escritas - mal a bola lhe chegou, à esquerda, arrancou como que apressado, encarou dois adversários, fugiu a um e logo vestiu uma cueca a outro que o deixou sozinho na área para fazer o segundo golo. Tudo tão rápido e inesperado, tão um daqueles momentos o-que-raio-acabou-de-acontecer que recheiam o futebol do tanto de inexplicável que apaixona corações.

O 2-0 com que o Sporting fica com seis pontos e na liderança do grupo ficarão carimbados pelos primeiros toques na bola do brasileiro pelo clube, um fogacho que lhe ficará implantado nesta era faminta por highlights e redes sociais, mas o jogo provou algo maior, coisas mais explicáveis, muito mais visíveis: a equipa e Rúben Amorim cresceram na estratégia, na adaptação às mutações dos jogos, na calma e no não ir com tanta sede à fonte que a Liga dos Campeões obriga. O Sporting foi melhor do que o Tottenham e soube sê-lo depois de, há três semanas, lhe vaticinarem um desnorte.