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Fernando Santos apresentado como novo selecionador da Polónia: “A partir de hoje sou polaco, sou um de vocês”

Numa longa conferência de imprensa, o ex-selecionador nacional assumiu o orgulho do convite para treinar “num grande país, com uma história e cultura enormes”. Recusou comentar o trabalho de colegas e também o carimbo de treinador pragmático, revelando que se vai mudar para Varsóvia a partir de fevereiro: “Vão habituar-se a ver-me por aí”

Lídia Paralta Gomes

WOJTEK RADWANSKI/Getty

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O início é um clássico para todos os selecionadores que chegam a um país que não é o seu: “Peço desculpa por não falar polaco”. Está desculpado, pudera, não será a mais fácil das línguas. Fernando Santos foi esta terça-feira apresentado no seu terceiro desafio como treinador de uma seleção, semanas depois de deixar o comando técnico de Portugal. E logo à chegada prometeu trabalho e estar perto dos novos jogadores e da nova equipa. Houve sorrisos, uns mais irónicos que outros, leves referências a Chopin, àquele jogo entre Portugal e Polónia nos quartos de final do Euro 2016, em quase uma hora de perguntas e respostas no auditório da federação polaca de futebol (PZPN).

Revelando que se vai mudar para Varsóvia, mas apenas em fevereiro, já que ainda tem assuntos para resolver em Portugal, Fernando Santos começou por agradecer “ao presidente pela confiança que depositou” em si na sua equipa técnica, que ficará já na Polónia para adiantar trabalho. O convite é algo que “orgulha e honra muito” o treinador de 68 anos e os seus adjuntos, que irão trabalhar “num grande país, com uma história e cultura enormes”.

“A sua seleção marcou a minha geração”, frisou, lembrando também “os confrontos diretos” que já teve com as várias equipas polacas, “sempre muito duros, com equipas de grande qualidade”. E para chegar rapidamente ao coração do país que agora o recebe, uma afirmação lapidar: “A partir de hoje sou polaco, sou um de vocês, mais um para tudo fazer para dar alegrias ao povo polaco”.

A proximidade e as estrelas

Perceber polaco é só para duros. A tradução simultânea ajuda o antigo selecionador nacional, mas não os jornalistas portugueses. Mas é claro que o nome “Cristiano Ronaldo” aparece na primeira questão colocada pela imprensa da Polónia. Na resposta, Fernando Santos não faz qualquer referência ao craque português, com quem a relação não terá ficado nos melhores termos após o Mundial do Catar.

WOJTEK RADWANSKI

“Durante toda a minha carreira trabalhei com jogadores enormes, mas o mais importante é o ‘nós’, o ‘eu’ tem de ficar fora deste conceito. A equipa é um conjunto de jogadores, cada um terá a sua mentalidade, personalidade e caberá ao selecionador agregar todos nesse nós. Foi assim que sempre fiz, com enorme respeito por todos os jogadores”, começou por responder o técnico português, reiterando que ninguém vai tomar decisões por ele. “E os jogadores naturalmente terão de respeitar”, rematou. Mais tarde na conferência, havia de lançar novo aforismo para ficar no ouvido: “Eu estrelas só conheço no céu e nunca lá vi nenhuma sozinha”.

Fernando Santos prometeu ainda proximidade. Irá viver em Varsóvia e o próximo mês e meio, até ao arranque da qualificação para o Euro 2024, será para observar o máximo de jogos com jogadores polacos ou da liga polaca que, admitiu, não conhece bem, “a não ser as equipas que costumam ir à Liga dos Campeões”.

“Vão habituar-se a ver-me por aí”, avisou Fernando Santos, que conta ir a todos os estádios polacos nos próximos meses. “Até ao final do campeonato estarei muito perto de ver todas as equipas. Se não for ao vivo, em vídeo”, lembrando que terá também de ir fora “porque felizmente a seleção polaca tem muitos jogadores” em campeonatos pela Europa. Um colaborador polaco deverá fazer parte da sua equipa, tal como aconteceu na Grécia, onde tinha adjuntos do país. Numa fase inicial será importante já que ajudará Fernando Santos a conhecer melhor “a forma de pensar e a mentalidade” do país.

A fuga a falar de Paulo Sousa ou do antecessor

Não é a primeira vez que a Polónia aposta num técnico português. Antes de Fernando Santos, Paulo Sousa liderou a equipa em 2021, inclusivamente no Europeu que se jogou nesse ano. Sairia de forma inesperada e acrimoniosa, com críticas até dos jogadores, em busca do sonho de treinar o Flamengo. Questionado sobre o colega português, Fernando Santos lembrou que são pessoas distintas. “Sou amigo do Paulo, tenho muito boa relação com ele. Tenho por princípio não analisar o trabalho dos meus colegas. A diferença não nos torna melhores ou piores”. Sobre o antecessor, Czeslaw Michniewicz, e o seu trabalho até ao Mundial de 2022, o antigo treinador de FC Porto, Sporting e Benfica deixou claro que “não seria correto” analisar o seu trabalho, mas sublinhou ter opinião sobre o que viu a Polónia fazer no Catar.

WOJTEK RADWANSKI/Getty

Na questão sobre objetivos, Fernando Santos mostrou ambição: “Quero ganhar tudo. Perder é uma palavra que eu sinceramente não gosto. Nem durmo… vejam onde chega o limite da minha ambição. É o que vamos procurar fazer”. Porém, ecos de um tão falado pragmatismo santiano também chegaram a Varsóvia. Questionado sobre essa suposta forma de ver o jogo, o técnico respondeu com um sorriso trocista e uma resposta a pender para o irónico: “Pragmático sim, se acham que ganhar é ser pragmático… se for por aí sim”.

Lembrou então os 230 golos marcados e os cerca de 80 sofridos por Portugal nos 109 jogos em que esteve no banco. “Se isto é ser defensivo, se é pragmatismo… Isto é equilíbrio. Não há nenhuma equipa que possa ganhar sem equilíbrio”, atirou, deixando nova máxima: “Uma coisa eu sei: para se ganhar tem de se jogar bem”.

E esse jogar bem terá os seus primeiros testes já em março, no início da qualificação para o Euro 2024. Cabeça de série do Grupo E, a Polónia tem adversários que podem fazer pensar numa qualificação tranquila - mas não à-vontadinha: República Checa, Albânia, Ilhas Faroé e Moldávia. O primeiro desafio será, curiosamente, aquele que no papel parece ser o mais complicado: em Praga com os checos, a 24 de março. Três dias depois, a Polónia recebe a Albânia.