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Emma Hayes, treinadora do Chelsea: “O período não é apenas doloroso, pode arruinar a carreira de uma futebolista”

A treinadora da equipa feminina do Chelsea reflete acerca dos efeitos que o ciclo menstrual pode ter na carreira de uma futebolista. O clube é dos mais avançados na monitorização e no estudo do impacto do período no desempenho das atletas: “Imaginem se o Harry Kane simplesmente não conseguisse funcionar, um dia. Seria uma grande história. Esse é um cenário totalmente plausível para uma jogadora com endometriose”

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Naomi Baker - The FA

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Emma Hayes, treinadora da equipa feminina do Chelsea, escreveu um artigo em que reflete acerca do que o período pode provocar – muito para além das dores – na carreira de uma futebolista. Como a Tribuna Expresso noticiou na sua edição impressa de 8 de julho, o clube londrino é um dos que levam a questão mais a sério, conduzindo estudos e monitorizando o impacto do período menstrual no desempenho das suas atletas.

No “Telegraph”, a técnica começa por referir que “os tempos de reação, as lesões e o humor podem ser afetados pelo ciclo menstrual”. Para Hayes, “chegou a altura de o futebol estar mais informado sobre o problema”. “A falta de conhecimento (…) é chocante. Algumas futebolistas podem não ter quaisquer problemas com o seu ciclo, mas, para outras que os têm, sem o apoio certo, pode ser algo extremamente debilitante”, escreve a inglesa.

“[O período] pode afetar tantas partes-chave do desempenho, incluindo níveis de energia, humor, apetite, sono, concentração, coordenação e peso. A temperatura do corpo sobe, torna-se mais difícil transpirar e o plasma sanguíneo fica mais espesso, por isso precisas de hidratar-te mais”, descreve a treinadora, que defende uma monitorização frequente para que certos sintomas não sejam confundidos com outras lesões.

“Trabalhar numa abordagem multidisciplinar é crítico para manter as jogadoras saudáveis e em forma”, diz Hayes, lembrando que é comum as atletas acabarem perdidas em crises de ansiedade, “particularmente por não perceberem” o que se passa com o seu corpo, nesse momento.

Emma Hayes refere outras consequências do período, algumas delas podendo afetar posições diferentes em campo: “Se fores guarda-redes, por exemplo, é provável que deixes cair [mais vezes] a bola na fase quatro do teu ciclo menstrual”. “Há coisas que podes fazer para ajudar, mas tem tudo a ver com a criação de estratégias e a monitorização de tudo à volta, criando um ambiente seguro para a comunicação, onde as jogadoras se sintam empoderadas e saibam que os seus dados não vão ser usados contra elas”, explica.

Uma das consequências possíveis do ciclo menstrual é a oscilação de peso. A técnica do Chelsea confessa nunca ter percebido por que razão se verifica constantemente esse fator, “uma vez que o peso de algumas mulheres flutua significativamente todos os meses”. A medição pode levar à ideia errada de que a futebolista ganhou peso, quando, na verdade, está com retenção de líquidos e inflamação”. “É perigoso”, diz Hayes, que faz questão de lembrar: “O período não é apenas doloroso; pode arruinar a carreira de uma futebolista”.

Algumas jogadoras lidam com questões hormonais irregulares. A endometriose pode provocar “dor fortíssima na segunda metade do ciclo menstrual”. “Conheço jogadoras da seleção inglesa que têm de lidar com isso, e que precisam de tomar suplementos com a medicação anti-inflamatória adequada”, diz Emma Hayes.

É com orgulho que a técnica fala do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no Chelsea: “Penso que somos líderes mundiais neste campo, programamos as nossas cargas de treino fora de campo para assegurar que as jogadoras estão a fazer e a comer as coisas certas na fase correta do ciclo”.

Recentemente, já durante o Euro Feminino, algumas jogadoras da seleção de Inglaterra levantaram a questão de usarem calções brancos e isso poder ser embaraçoso, no caso de estarem com o período. Emma pergunta: “E as meninas mais jovens? Há uma razão pela qual tantas raparigas deixam o desporto aos 13 e 14 anos e grande parte tem a ver com o período”.

“Se queremos reter mulheres no desporto, então temos de começar a ter em consideração coisas tão básicas como a cor dos calções”, diz Hayes, que considera haver ainda muito trabalho pela frente: “Estamos numa missão, com as jogadoras da formação, para normalizar a discussão e educá-las desde o início, mas isso não devia estar disponível apenas para uma quantas sortudas. É um processo normal e natural, e um sintoma de saúde, afinal de contas”.

Fazendo o paralelo com o futebol masculino, Emma Hayes vai buscar um nome bem conhecido do futebol inglês e mundial para dar o exemplo: “Imaginem se um jogador como o Harry Kane simplesmente não conseguisse funcionar, um dia. Seria uma grande história. Esse é um cenário totalmente plausível para uma jogadora com endometriose”. Hayes termina com um desejo: “Espero que vejamos um aumento de 1.000 por cento na investigação porque é tempo de o desporto levar isto muito mais a sério”.