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“Há pessoas que se convencem que não são racistas. São as mais perigosas”: Thuram esteve em Oeiras a falar sobre racismo, que “é um engodo”

O ex-futebolista, que fundou a 'Fundação Lilian Thuram – Educação contra o Racismo' para "discutir e questionar" estes importantes temas das nossas sociedades, esteve na Biblioteca Municipal de Algés a falar sobre o último livro "Pensamento branco" e a Tribuna Expresso esteve lá

Hugo Tavares da Silva

CHRISTOPHE SIMON

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Lilian Thuram nasceu há 50 anos em Pointe-à-Pitre, em Guadalupe. Na altura, saídos das barrigas das mães pintados todos mais ou menos da mesma cor, a criançada nunca foi assaltada por um pensamento ou questão desavindos, ou mesmo sérios demais. Mas, aos nove anos, tudo mudou quando foi viver para França. Os colegas de escola, da quarta classe, disseram-lhe “negro sujo”. E Lilian percebeu ali que era negro.

O ex-futebolista, campeão do mundo em 1998 e da Europa em 2000, esteve na Biblioteca Municipal de Algés, no concelho de Oeiras, na sexta-feira, para falar sobre o último livro que escreveu, “Pensamento branco”, e para consciencializar ou desafiar algumas cabeças que o foram ouvir. Animado e empático, Thuram ouvia as perguntas em português e respondia em francês (o jornalista com quem conversava, José Mário Silva, ia fazendo a tradução em simultâneo).

Ao longo das duas horas debitou a importância de ser explicado o racismo à sociedade e especialmente aos mais novos, que devem ser espicaçados na escola para as questões essenciais, nomeadamente de identidade. Para ser ainda mais concreto e provocador, no sentido de partir ao meio certas retóricas e narrativas, questionou o seguinte: “Há alguma pessoa branca na sala?”. Uma senhora mostrou a mão. Lilian, depois de lhe perguntar a idade e há quanto era branca, agarrou no guardanapo que tinha ao lado.

— Isto é de que cor?
— Branco.
— São da mesma cor? Porque diz que é branca?

Os restantes abriam os olhos perante tal evidência. “Repetimos as coisas sem saber porque as dizemos”, continua Thuram. “É por isso que o título do livro é ‘Pensamento branco’. Não é uma realidade, é um pensamento. As identidades que transportamos estão ligadas a uma ideia de supremacia branca. Todas as identidades contam uma história relacionada com a cor da pele.”

Ou seja, é algo que não é dito — já foi mais verdade esta parte —, mas “é uma coisa que circula no espaço público, integramo-la”, o que faz com que “surja inconscientemente na nossa maneira de viver”.

A seguir, novamente cativando o público, como se o ex-defesa vestisse agora a camisola 10, tal era a criatividade para agarrar aquelas pessoas, revelou que a Fundação Lilian Thuram – Educação contra o Racismo trabalha com as escolas e ele próprio pergunta às crianças e jovens quem foi Cristóvão Colombo. Costuma ouvir que é o descobridor da América. E ele diz-lhes: “Fechem os olhos, imaginem que são o Cristóvão Colombo a chegar à América. Conseguem ver as pessoas que estão na praia? As pessoas que estão na praia não dizem que foi o Cristóvão Colombo a descobrir a América. Será que já ouviram a história contada do ponto de vista das pessoas que estavam na praia?”.

Conclusão: “Este é um caso em que se percebe que a escola pode orientar o pensamento dos alunos para um pensamento racista inconsciente. É como se aquelas pessoas só passassem a existir a partir do momento em que a Europa chega. Devemos educar as crianças a questionarem o ponto de vista.”

Stefano Guidi

Porque pensamos como pensamos? Porque dizemos o que dizemos? É aqui que está o ouro da problemática, segundo o autor. “Muitas vezes, as pessoas não percebem que dizem o que dizem por condicionamentos”, reflete Lilian Thuram, o recordista de jogos pela seleção francesa.

No início da conversa já explicara, por ocasião de ter chegado a Paris e sentido na pele o ódio alheio, uma ideia interessante: “Não somos negros, tornamo-nos negros. Como não somos brancos, tornamo-nos brancos”. É a “racialização do mundo” em que se criou a ideia, diz Lilian, de que a raça branca é superior.

Enquanto futebolista profissional, sobretudo no Parma e na Juventus, na Série A, também sentiu racismo a voar das bancadas contra ele. Ouviu barulhos de macaco. Thuram entrava no balneário furioso, dizia que era “insuportável” e que queria marcar uma conferência de imprensa. “Alguns colegas e dirigentes davam-me pancadinhas nas costas e diziam ‘deixa estar, não vale a pena’. Isso é de uma violência total”, alerta o ex-jogador. “Eles gostavam muito de mim e pensavam que estavam a ajudar, é por isso que digo que podemos ter comportamentos e atitudes racistas sem nos apercebermos.”

Aos futebolistas brancos, Thuram pede que estejam atentos ao papel que podem desempenhar em cenários semelhantes. “Há uma certa hipocrisia em não querer ver esta violência. Se há algo que está encrostado na sociedade é a noção de que se pode exercer violência sobre a mulher e o negro. Esta tendência para denegrir a pessoa negra existe também nas pessoas negras.”

Ao longo daqueles 120 minutos ricos em conceitos e desabafos, Lilian deixou um aviso: “Há pessoas que se convencem que não são racistas. São essas as mais perigosas”. É que, inconscientemente, vão-se sempre reproduzindo "esquemas de superioridade".

Quando mostrou um mapa que atentava contra o que é tradicional para nós, ou seja, virado do avesso e com África no centro, uma menina disse logo que estava ao contrário. “As crianças costumam pedir-me para virar o mapa ao contrário. Pergunto-lhes se já viram uma bola de futebol. Nunca se pode dizer que uma bola de futebol está virada ao contrário. A Terra é a mesma coisa”, começou a teorizar.

E continuou: “As pessoas não se apercebem que, em todos os mapas tradicionais, a Europa está no centro. Esses mapas não respeitam as verdadeiras proporções. A Europa fica muito maior, a América do Norte fica maior, a Rússia parece maior do que a África, quando a África é o maior continente…”

Maria Moratti

O racismo, segundo Lilian, “é cultural”, tal como sexismo e homofobia. “É preciso questionar o passado. Somos o fruto do passado. Tanto a História de Portugal como da França foi construída a partir de uma hierarquia que se baseia na cor de pele. Estava inscrito nas leis do país. A França teve leis racistas durante mais de 250 anos.” Por isso, a fundação deste ex-jogador tem esse papel de “discutir e questionar” estes temas. Mais: tem como missão também explicar que “o racismo, desde a sua origem, é um engodo. É uma forma de quebrar os elos de solidariedade entre os seres humanos”.

O orador defende que o racismo “é uma forma de legitimar a violência num quadro de um sistema económico”. E perdura porque, dependendo da pele, “vive-se de maneira diferente no espaço público” e há quem beneficie dele, e outros que temem quem vem debaixo ou mais atrás. “No espaço público não estão os que sofrem racismo e esses vão dizer que o racismo não existe." Para Lilian, não há nada mais racista do que dizer-se que o racismo não existe em França ou Portugal.

Como peças de uma sociedade, “cada um de nós tem a obrigação de forçar a discussão desta questão para que as coisas possam avançar da maneira mais inteligente possível”. O problema é que “a maior parte das pessoas não quer discutir esta questão”.

A autoestima das mulheres e dos homens e, sobretudo, das crianças, é um tesouro, por isso Lilian avisa que a identidade e desejos de uma jovem ou de um jovem não podem ser beliscados. E foi aí que convocou para junto dele a rapariga mais jovem da sala.

Era uma menina mulata.

“Esta rapariga, de 12 anos, merece ter tudo o que ela quiser. Não é justo recusar-lhe aquilo que ela merece ter. É isso o racismo. A pior coisa que poderia acontecer é que ela pense, desde o princípio, que não pode alcançar aquilo que deseja, que não haverá lugar para ela”, pregava o ex-futebolista.

Luana, debaixo de uma melena encaracolada triunfante e enfiada num vestidinho azul, ouvia com atenção. “Não é por ter esta cor maravilhosa e este cabelo fantástico que me vão recusar seja o que for [Luana sorria com todos os milímetros do corpo]. Sabes que és magnífica?”, perguntou-lhe Thuram. A cabeça de Luana disse sim e da garganta saltou um “merci”. Chocaram os punhos da mão direita e a menina, orgulhosa de quem era e com um caminhar mais confiante, voltou para o seu lugar, ao lado dos pais, sorridentes e certamente esmagados por aqueles segundos noutro céu.

Resumindo este encontro na biblioteca de Algés, Thuram diz que “o racismo, antes de qualquer coisa, é uma violência exercida sobre outra pessoa. A coisa mais importante que cada um de nós precisa é a autoestima. Não é justo retirar a autoestima às crianças”. É que rapidamente essas crianças compreendem que se está a explicar que têm algo de errado. E não: “É fundamental explicar a história do racismo porque o problema está nos racistas e não nelas."