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Crónica de Jogo

Para o Benfica voltar a ganhar, bastou a regularidade do pistoleiro Gonçalo Ramos responder ao serviço do assistente Grimaldo

Pela sétima jornada consecutiva, os líderes da I Liga venceram por uma margem maior que a mínima, com um triunfo por 2-0 diante do Famalicão. Sem Schmidt, castigado depois da expulsão em Vizela, no banco, um bis do avançado português — correspondendo a dois lances com protagonismo de Grimaldo — deu os três pontos ao Benfica numa noite em que Vlachodimos não fez qualquer defesa

Pedro Barata

Gualter Fatia/Getty

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Roger Schmidt, de fora do banco depois de ter visto um cartão vermelho na visita do Benfica a Vizela, assistiu longe do banco a uma jogada clássica da equipa que orienta. Aos 36', Otamendi tinha a bola, recuado sobre o lado esquerdo do centro da defesa. O campeão do mundo no Catar olhou ao longe e viu Grimaldo, que já estava a correr na direção da linha final, disparando porque já sabia que, naquela circunstância, os mecanismos trabalhados pela equipa ditam que o argentino explore o espaço nas costas da defesa contrária.

Tal era a ânsia do canhoto em receber a bola que até indicou o espaço para onde ela deveria ir com o braço esquerdo. Otamendi correspondeu ao tantas vezes visto no Benfica e fez um passe que sobrevoou a defesa do Famalicão, caindo nas costas de Riccieli e Penetra, numa zona que os visitantes tiveram especial dificuldade em defender no primeiro tempo.

O passe longo do capitão dos líderes da I Liga veio dos céus da noite de Lisboa, quiçá difícil para ter sequência se caísse nas pernas de muitos jogadores da I Liga. Mas foi ter com Grimaldo, o espanhol do pé esquerdo de ourives, delicado e preciso. Sem problemas perante a bola que vinha lá de cima, o canterano do Barcelona, de primeira, fez um cruzamento paralelo à área rival, o qual foi cortado por Riccieli. Quis a bola, consciente de quem a trata bem, voltar a ir ter com o lateral dos lisboetas, que insistiu na jogada.

Na área estava Gonçalo Ramos, o pistoleiro que acompanha as ações pronto para sacar das armas imaginárias que usa para festejar golos. Remate do avançado português, 1-0 e o oitavo triunfo do Benfica nos últimos nove encontros encaminhado.

Aos 93', depois de um duelo não excessivamente excitante, a mesma dupla protagonizou o 2-0. Grimaldo rematou, Luiz Júnior defendeu para a frente, Gonçalo Ramos fixou o resultado final. São já 21 golos do algarvio pelo Benfica em 2022/23, cifra que sobe para 25 festejos na época se considerarmos a seleção nacional. Antes da segunda mão contra o Club Brugge, os líderes da I Liga permanecem serenos no topo da tabela.

Ramos e Grimaldo, a dupla do 1-0 e do 2-0

Ramos e Grimaldo, a dupla do 1-0 e do 2-0

DeFodi Images/Getty

Desde o empate a dois no dérbi contra o Sporting, o Benfica vai em sete jornada seguidas a ganhar, fazendo-o sempre por uma diferença superior a um golo. Na 23.ª ronda de um campeonato pintado a tons de encardo desde o início, com Chiquinho e Guedes de fora por lesão, Rafa, de regresso à titularidade, começou a agitar, com os seus ziguezagues entre adversários, receções orientadas e passos pequeninos que parecem ganhar velocidade à medida que o número 27 vai galgando metros com bola. Aos 12’, serpenteou entre três jogadores dos visitantes e disparou à figura de Luiz Júnior.

Ainda assim, o primeiro tempo foi escasso em oportunidades de golo. O perfume do Famalicão está nas botas de Iván Jaime, fino como poucos na I Liga, mas foi Sanca, num grande remate de pé esquerdo, a criar a primeira grande situação de perigo na Luz. Aos 35’, David Neres, a par de Rafa o grande agitador dos locais, disparou desviado.

No minuto seguinte, na primeira verdadeira chance para marcar do Benfica, surgiu o 1-0, na tal jogada clássica com lançamento de Otamendi, continuidade de Grimaldo e disparo de Gonçalo Ramos. Foi a nona assistência do espanhol em 2022/23. Contar com a regularidade na área — zona onde fez todos os seus golos no campeonato — do dianteiro português é um fortíssimo argumento competitivo para Roger Schmidt, uma garantia que, mesmo em noites frias de sexta-fria antes de compromissos europeus, se começa a ganhar por 1-0 quando a inspiração não abunda.

CARLOS COSTA/Getty

A segunda parte começou com um remate à Grimaldo. Em andamento, o espanhol coordenou a corrida com a bola, com três passos que quase parecem pequenos saltos, talvez em homenagem a Pedro Pablo Pichardo. Saiu ao lado. Logo a seguir, David Neres deitou Santi Colombatto na relva e tentou o 2-0, mas foi ao lado do poste esquerdo.

A noite na Luz não estava especialmente entusiasmante, mas nunca se pode tirar os olhos do campo quando há Rafa no relvado. Aos 68’, o português protagonizou uma das especialidades do seu repertório, a receção de calcanhar rodopiando sobre o adversário. A bola foi para Ramos, que rematou de longe para grande defesa de Luiz Júnior. No canto que se seguiu, Rafa cabeceou à barra. Com os visitantes sem terem qualquer disparo à baliza de Vlachodimos, o Benfica ia desperdiçando o golo da tranquilidade.

O último golo do Famalicão na Luz, em compromisso para a I Liga, foi em 1991/92, autoria de Dane. No segundo tempo, o único remate dos visitantes, autoria de Denílson, foi parar aos braços de um adepto nas bancadas.

Sem capacidade de reação por parte do Famalicão, que ocupa um confortável 10.º lugar no campeonato, ainda haveria tempo para que mais focos recaíssem sobre dois destaques da época do Benfica. Aos 93', Grimaldo disparou de fora da área. A contenda até começara com uma novidade, num livre direto do espanhol que não deu golo, mas nos descontos o canhoto forçou Luiz Júnior a defesa apertada. Na recarga, Gonçalo Ramos fez o 2-0 final, chegando assim aos 15 golos na prova, superando João Mário como melhor marcador da I Liga.

À espera do que façam os adversários, a vantagem do Benfica é, de momento, de 11 pontos para o FC Porto, 13 para o SC Braga e 18 para o Sporting. Muito disso se deve aos passes do assistente Grimaldo e aos tiros do artilheiro Ramos, soluções para noites de sexta-feira menos agitadas.