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Bradley Wiggins recorda a vitória no Tour: “Ganhar em 2012 não foi algo feliz; foi mais colocar um visto ✅”

Ao olhar para trás, para as maiores vitórias da carreira, o ex-ciclista britânico assume os sentimentos mistos sobre o lado “comercial” da busca pelo sucesso. Depois da vida de celebridade, com passagem por um reality show, Wiggins é comentador televisivo

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John Giles - PA Images/Getty

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Sir Bradley Wiggins, vencedor da Volta a França, vê com sentimentos agridoces as maiores conquistas da sua carreira. “Ganhar em 2012 não foi algo feliz; foi mais colocar um visto ✅”, diz o antigo ciclista ao “Telegraph”. Wiggins fala da antiga equipa, a “máquina de vencer” Team Sky, onde o sucesso se tornou tão desengraçado que tudo se assemelhava a um exercício.

Foi, de facto, a conquista da camisola amarela no Tour de 2012 que começou a fazer de Bradley Wiggins um nome grande do ciclismo mundial. Depois disso, o britânico venceu três medalhas de ouro olímpico, incluindo o contrarrelógio de Londres, também em 2012. Na pista, Wiggins bateu recordes e arrecadou o título no Madison, ao lado de Mark Cavendish, antes de pendurar as rodas.

Bradley, que nasceu na Bélgica, viveu alguns momentos controversos na carreira. Por volta de 2016, viu-se envolvido num escândalo de doping que arrastou toda a equipa Sky. Mais tarde, viria a ser ilibado, mas isso não impediu que tivesse de lutar contra a depressão. Em abril de 2022, o antigo atleta, agora com 42 anos, revelou ter sido assediado sexualmente por um treinador, na adolescência. Agora, diz-se em paz.

O atual comentador televisivo recua novamente até 2012 e recorda: “Quando eu ganhava essas provas, (…) não me lembro de ser algo alegre. (…) O que é uma pena, realmente, nunca desfrutávamos do sucesso. Contraditoriamente, acho que era provavelmente por isso que éramos tão bem-sucedidos. Era apenas ganhar e ganhar tornou-se a norma. Era como um negócio, o que contradiz tudo o que eu amo neste desporto”.

“A última vez que me senti feliz ao sair da bicicleta (…) foi provavelmente no Tour 2009, em Paris, com a Garmin. (…) Depois disso, senti que tudo se transformou num negócio”, repetiu o antigo ciclista, acrescentando: “Olhando para a Volta a França de 2012, no entanto, diria que foi um desempenho de equipa memorável, com todas as lutas internas [com Froome]”.

Foi pouco depois da conquista francesa que o britânico, rodeado pelos compatriotas de uma geração de ouro, se apercebeu de que a sua vida nunca mais seria igual. “Durante um treino em Surrey, antes dos Jogos Olímpicos, parámos num café. (…) Ali estava eu, Cavendish, Froome, David Millar, que também tinha ganho uma etapa no Tour desse ano”, lembra Wiggins.

Sir Bradley recorda também os seus ídolos de início de carreira: “Inspirei-me em Sean Yates e Chris Boardman, que ganhou o prólogo em Lille, em 1994. O Chris venceu a prova individual nos Jogos Olímpicos de Barcelona, o David Millar ganhou o prólogo do Tour de France, em 2000”. Daqueles que o inspiraram, Wiggins passa para a geração que pode ver nele um exemplo. “O meu filho tem 17 anos e está na British Junior Academy. Ele admira o Tom Pidcock, o Mathieu van der Poel e atletas como eles. Todos temos os nossos heróis independentemente da geração”, diz o ex-ciclista.

Depois de ter gozado um pouco da vida de celebridade, incluindo aparições num reality show, Wiggins parece ter encontrado o seu lugar, ou seja, à volta das bicicletas, embora, desta feita, sentado numa mota, a comentar as provas em direto. Já o fez no Giro e fá-lo atualmente na Volta a França.

“Resolvi muita coisa nos últimos seis meses. Tenho 42 anos, demorei muito tempo a conseguir alguma estabilidade na vida, aprendi o que é importante. O ciclismo foi um trabalho, mas foi também uma paixão que posso agora abraçar. Houve tempos em que pensei que tinha de ver-me livre das bicicletas, mas agora estou feliz. Adoro fazer o ‘Brad on a Bike’ para a Eurosport”, confessa Bradley Wiggins.