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Pogacar tentou dinamitar o Tour à 5.ª etapa. Mas só Roglic rebentou

Ao ver o rival Roglic em dificuldades, o bicampeão da Volta a França tentou dar uma estocada final no compatriota quando a competição ainda dá passos de bebé. Mas se o mais velho dos eslovenos terá ficado mesmo fora da corrida, outros rivais minimizaram os estragos. O Tour ainda não acabou

Lídia Paralta Gomes

MARCO BERTORELLO/Getty

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Eles tiram os óculos à chegada e da pele dos ciclistas só se vê mesmo duas bolas à volta dos olhos. E os dentes brancos. Não há que enganar: à 5.ª etapa, o Tour andou por alguns dos sectores de empedrado que pontuam o Inferno do Norte, como é conhecida a Paris-Roubaix, a mítica clássica da primavera que destrói os músculos dos ciclistas e os cobre de pó (ou lama, dependendo da paisagem climatérica).

O pavé não é para toda a gente, há especialistas e há quem os odeie, e é daquele tipo de terreno que pode acabar com a corrida de muito boa gente. Talvez isso estivesse na cabeça de Tadej Pogacar quando no setor 3 de empedrado resolveu ir atrás do acelerar de Jasper Stuyven (Trek). O bicampeão da Volta a França, grande favorito a tornar-se tri, cheirou o sangue e atacou. Tão comum quanto os ciclistas chegarem à meta cobertos de terra numa etapa destas, é a atração de Primoz Roglic pelo alcatrão no Tour. Tal como há um ano, o mais velho dos dois eslovenos caiu e desta vez Pogacar não teve contemplações, não olhou para as regras não escritas do ciclismo que nos dizem que não se ataca quando um rival tem um azar. Com o líder da Jumbo-Visma em dificuldades, foi para a frente e procurou dinamitar o Tour quando ele ainda está a começar.

E quase conseguiu. Roglic, mais uma vez, parece estar fora da luta ainda nos primeiros dias de contenda. Só que a Jumbo-Visma não é feita de um candidato só. Além de Roglic há Jonas Vingegaard, o dinamarquês que há um ano assumiu as dores da equipa quando o líder caiu. E que em 2022, com o novo estatuto de quem foi vice-campeão há um ano, fará muito provavelmente o mesmo.

O ataque de Pogacar deixou o grupo de Vingegaard e Geraint Thomas, vencedor de 2018, a cerca de um minuto, uma enormidade quando se sabe que o esloveno de 23 anos tende a não ter dias demasiado maus na montanha. Conseguir tal vantagem no empedrado seria praticamente um xeque-mate ao Tour.

Porém, talvez mais para a frente o super-ciclista da UAE Emirates se arrependa da empreitada: com a vitória de etapa a ficar mais do que certa para alguém do grupo de ciclistas que seguia à sua frente, Jasper Stuyven deixou de puxar, Pogacar deixou de ter ajuda e os perseguidores uniram-se para quebrar as diferenças para o esloveno. Com o fabuloso camisola amarela Wout van Aert, rolador de excelência, a rebocar o grupo, a diferença que havia sido de quase um minuto entre Pogacar e Vingegaard e Thomas acabou por se transformar em apenas 13 segundos - uma vitória pírrica para tamanho arriscar do esloveno.

Pool/Getty

O nórdico e o britânico conseguiram assim minimizar as perdas e continuam na luta. Para Roglic, o panorama surge bastante mais negro: perdeu praticamente dois minutos para o compatriota. A Jumbo-Visma terá talvez já esta quarta-feira, antes das primeiras montanhas, uma decisão para tomar. Dar uma oportunidade a Roglic de conseguir algo heróico ou apostar desde já em Vingeggard.

Pogacar, apesar do talento geracional, fora do comum, capaz de vencer sozinho uma volta de três semanas, terá igualmente com que se preocupar no final desta etapa. Não só o esforço que fez não terá produzido o nível de destruição que estaria à espera, como se viu rapidamente sem companheiros de equipa à sua volta. Mau sinal para quando o terreno começar a empinar.

Quanto à tirada, a vitória foi para o australiano Simon Clarke (Israel-Premier Tech), com o trabalho de Wout van Aert na frente da perseguição a Pogacar a não só salvar a face da Jumbo-Visma como também a garantir que o belga se mantém na frente da geral.

A etapa de quinta-feira, a mais longa desta edição do Tour, com 220 km, vai ligar Binche e Longwy, já com duas contagens de montanha de 3.ª categoria, a última das quais a apenas cinco quilómetros da meta. Um primeiro amuse bouche para a verdadeira montanha, que aparecerá no horizonte do pelotão na sexta-feira.