Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

A inclemente passagem do tempo: a jovem Emma Raducanu apresenta a realidade a uma Serena Williams em despedida

A primeira ronda do WTA de Cincinnati ofereceu um encontro entre o futuro e o quase passado: Serena Williams, em plena tour de despedida, encontrou Emma Raducanu, de 19 anos, e bateu de frente com a capacidade física que já lhe vai fugindo. A jovem britânica fez apenas um erro não forçado e venceu por 6-4 e 6-0. A Serena resta-lhe, muito provavelmente, o US Open para um adeus marcante

Lídia Paralta Gomes

Robert Prange/Getty

Partilhar

Quando Emma Raducanu nasceu, ali para os últimos dias de 2002, já Serena Williams era Serena Williams. A norte-americana festejava então o seu segundo título no US Open, num ano em que só lhe falhou a conquista do Open da Austrália, logo em fevereiro, entre os majors. Em casa já tinha também uma medalha de ouro olímpica e era número 1 mundial, incontestada.

Talvez por questões culturais, mas também de estilo, as referências da britânica são outras. Cresceu a admirar Li Na, chinesa tal como a sua mãe, e Simona Halep, vinda da Roménia como o seu pai. Mas quem mais viu ganhar foi Serena. Chamemos-lhe por isso um capricho do destino que o sorteio do WTA de Cincinnati tenha ditado para a primeira ronda um encontro entre Williams, em plena tour de uma despedida marcada para as próximas semanas, e a jovem Raducanu, o presumível futuro da modalidade, a miúda que há um ano surpreendeu, vencendo ainda adolescente o US Open, tal como Serena o era quando ali, em Nova Iorque, conquistou o seu primeiro título em torneios do Grand Slam em 1999.

E o que se viu em court poderá muito bem ter sido uma passagem de testemunho, talvez demasiado cruel para uma Serena a quem as pernas já não estão a ajudar, retirando-lhe a oportunidade de um adeus triunfante, tão perto dos 41 anos.

Com um ano de altos e baixos depois da incrível caminhada até à vitória no Open dos Estados Unidos de 2021, que a colocaram numa espécie de pedestal mediático em que os contratos publicitários superaram em muito os sucessos em campo, Raducanu vestiu o seu ténis para a ocasião solene. Se para Serena Williams estava ali a oportunidade de mostrar que, frente a uma das tenistas que poderá marcar a modalidade nos próximos anos, ainda tinha alma para erguer os braços e festejar vitórias, para a atleta nascida em Toronto há 19 anos o sonho de bater uma das melhores de sempre era um carimbo no currículo que não podia desaproveitar. Até porque a hipótese poderia ser única.

E a britânica não teve piedade.

Raducanu, sempre com a compostura de quem respeita a história, ofereceu os holofotes a Serena, mas quebrou a norte-americana logo de entrada. Agarrando a consistência que lhe tem faltado ao longo dos últimos 12 meses, a número 13 do mundo testou a já periclitante capacidade de fazer piscinas da vencedora de 23 títulos em torneios do Grand Slam, com a variabilidade de jogo e armas que lhe deram o título em Flushing Meadows a aparecerem quando o momento pediu. Williams ainda teve um ligeiro renascer, mas 6-4 para Raducanu era o que o placard marcava no final do primeiro set.

A britânica aplaude Williams à saída da norte-americana

A britânica aplaude Williams à saída da norte-americana

Robert Prange/Getty

De Serena Williams convém sempre esperar uma reação, mas Raducanu travou o ímpeto da norte-americana logo com um break a abrir o segundo parcial. Com outra ex-número 1 mundial nas bancadas, Naomi Osaka, Raducanu seguiu então para uma exibição quase sem mácula (fez apenas um erro não forçado ao longo de todo o encontro), oferecendo um duro 6-0 à tenista mais influente das duas últimas décadas, vergada com um pneu à inclemente passagem do tempo: Serena queria uma despedida vitoriosa, mas o seu corpo já a acompanha.

A exigência, no entanto, ainda lá está. Depois de estatelar uma última resposta ao serviço de Raducanu na rede, a cara de Williams fechou-se, zangada consigo própria, como nos primeiros dias da sua carreira, como nas derrotas mais complicadas. No cumprimento à rede, cumprimentou e agradeceu o sorriso da adversária, mas foi tudo o que se ouviu da norte-americana daí para a frente. Driblando uma espécie de cerimónia que a organização do torneio de Cincinnati, que venceu duas vezes na carreira, havia preparado, pegou no seu saquinho e foi à sua vida, não abrindo a boca para o desejado adeus aos adeptos que enchiam as bancadas. Na conferência de imprensa também não apareceu.

Já Raducanu, que parece ter sido mergulhada à nascença nas regras não-escritas do saber estar, deu o palco possível à adversária. Ela sabe que a honra também é sua, poder um dia dizer que jogou e bateu uma tenista que tem mais torneios major que Rafael Nadal, Novak Djokovic e Roger Federer.

“Acho que temos todos de honrar a Serena e a sua carreira incrível. Estou tão agradecida pela experiência de ter a oportunidade de jogar com ela e das nossas carreiras ainda se terem cruzado”, sublinhou a britânica no final do encontro. “Tudo o que ela conquistou é uma inspiração, foi uma verdadeira honra partilhar o court com ela”, atirou ainda a jovem, que assumir que jogou “nervosa do primeiro ao último ponto”, por saber que Williams poderia, de um momento para o outro, dar a volta: “Mas fiquei satisfeita porque fui capaz de manter a minha compostura”.

Para a britânica, segue-se uma segunda ronda frente a outra ex-líder mundial e vencedora de torneios do Grand Slam, Victoria Azarenka. Já Serena Williams segue para o US Open, o mais que provável último torneio da sua carreira.