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O volátil Nick Kyrgios, agora acusado de agressão pela ex-namorada

Discute com árbitros, enfurece adversários e já lhe chamaram "bully", mas Nick Kyrgios, sempre ao seu estilo nada convencional, está nos quartos-de-final de Wimbledon, agora com mais uma polémica extra ténis: terá de se apresentar em tribunal, na Austrália, para ser ouvido devido a queixas de agressão feitas pela ex-namorada

Diogo Pombo

Shi Tang/Getty

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Entre pancadas-martelo de direita ou serviços feitos por baixo e entre as pernas, muito se tem falado de Nick Kyrgios pelo rasto comportamental que vai deixando em Wimbledon entre os pingos da chuva intermitente do seu ténis. Se discutir com árbitros e barafustar para o ar por falhar bolas sem nexo é quase um traço de caráter do australiano, esquentar a contrição de um adversário ao ponto deste lhe tentar acertar, propositadamente, com a bola quando ele estava perto da rede já é um passo mais além nas ondas de choque provocadas por Kyrgios.

Na terceira ronda, Stefanos Tsitsipas perdeu as estribeiras ao ser derrotado pelo jogador tatuado, adornado por brincos e caminhante para dentro de campo com boné vermelho na cabeça e um par de AirJordans calçados — “faço o que me apetece”, respondeu o australiano, ao ser questionado pelo não cumprimento do estrito código de vestimenta branco que Wimbledon impõe —, até batendo uma bola na direção do público. No dia seguinte, quando o torneio atualizou a lista de castigos, Kyrgios tinha 14 mil dólares (cerca de 13.500 euros) por pagar.

E voltou-se a falar do tenista por motivos extra ténis.

Esta terça-feira, uma notícia do “Canberra Times” devolveu Nick Kyrgios aos temas que nada têm a ver com a modalidade que pratica com uma raquete na mão: terá de comparecer em tribunal, na Austrália, devido a uma queixa de agressão feita pela antiga namorada após um incidente que terá ocorrido em dezembro do ano passado. Ou seja, pouco antes de conquistar o Open da Austrália na vertente de pares, em janeiro.

Contactado pelo jornal da capital australiana, o advogado do tenista confirmou a acusação, situando-a “no contexto de uma relação doméstica”. Jason Moffett garantiu que Nick Kyrgios “encara a alegação de forma muito séria”, acrescentando que “em breve” o jogador emitirá um comunicado sobre o assunto. A mesma publicação refere que este tipo de acusação pode ser punida com uma pena até dois anos de prisão.

Shi Tang/Getty

Este é o segundo caso de um tenista do top-50 do ranking mundial que é acusado de violência doméstica. Alexander Zverev está a ser investigado pela ATP após denúncias feitas pela ex-namorada, Olya Sharypova, em duas entrevistas que deu à revista “Racquet” e à “Slate”. A entidade que regula o circuito masculino vai pronunciar-se sobre o caso porque as alegadas agressões terão ocorrido em quartos de hotel quando o tenista alemão estava a competir em torneios ATP, ao contrário de Nick Kyrgios.

Portanto, a par de toda a fumarada de polémicas que o australiano já acumulou na carreira e que tem engrandecido nesta edição de Wimbledon, onde Tsitsipas até já o apelidou de “bully”, o tenista tem agora um processo judicial com o qual lidar.

Nos courts, a tendência para se vulcanizar, espalhando gotículas da sua lava de mau-génio e do bule pouco demorado a ferver do seu temperamento, sempre morou em Nick Kyrgios desde que o australiano é alguém no ténis, expressão que até pode ser de uso duvidoso quando aplicada a este tenista de 27 anos: pela enormidade de talento para agir com uma raquete na mão e jeito para bater em bolas que escapem ao adversário do outro lado da rede, os cinco torneios (três da categoria 250 e dois do degrau acima, 500) que já conquistou são coisa pouca, sombra curta para o que deveria ser o brilho dele.

Nesta edição de Wimbledon cujos pontos não contam para o circuito ATP, devido ao ‘castigo’ imposto ao torneio pelo facto de ter banido participantes russos e bielorrussos, a ironia acompanha Kyrgios, o número 40.º da hierarquia mundial que está a ter uma das melhores prestações da sua época pouco ativa. É apenas a oitava prova na qual participa em 2022 e já vai nos quartos-de-final, embalado pela natureza que faz dele um dos tenistas menos tenísticos que haverá para ver hoje em dia.

Vai defrontar, na quarta-feira, Christian Garín, chileno de 26 anos que jamais atingira esta fase de um Grand Slam e mora praticamente nos mesmos arrabaldes do ranking (é o 43.º classificado). Nick Kyrgios até já chegara aos derradeiros oito tenistas de Wimbledon, mas a última vez que conseguiu chegar a esta fase de um major já foi há sete anos.

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    Bolas respondidas quase à chapada, esbofeteadas com pancadas sem preparação, ou uma direita batida por trás costas, foram gestos com que o australiano venceu Stefanos Tsitsipas para, esta sexta-feira, jogar os quartos-de final em Halle, num dos mais importantes torneios de relva pré-Wimbledon. Eis o volátil Nick Kyrgios, um dos tenistas menos convencionais e constantes do circuito, de novo a mostrar o melhor que tem