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Tomás da Cunha

Tomás da Cunha

Analista e comentador de futebol

Banzinha, a dupla do golo para o assalto ao pódio

O novo Braga de Artur Jorge já mostrou um modelo de jogo bastante ambicioso, alterando significativamente as dinâmicas coletivas em relação ao passado e dando conforto aos principais jogadores, escreve o analista Tomás da Cunha, ao fundir numa alcunha os dois avançados que juntam todas as características essenciais para marcar diferenças no futebol português

Tomás da Cunha

HUGO DELGADO/Lusa

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Em Braga, vai nascendo uma máquina goleadora. É a equipa que mais rematou e a que mais marcou na liga portuguesa. Estamos numa fase inicial, mas o trabalho de implementação das ideias ofensivas de Artur Jorge traz, por si só, o aumento das expetativas no novo treinador. Ainda com o tema Ricardo Horta por resolver, os minhotos sabem que há garantias no plantel para fazerem uma temporada consistente e morderem os calcanhares aos três da frente. Desde logo, porque a dupla de ataque junta todas as características essenciais para marcar diferenças no futebol português. Vamos falar muito de Banzinha.

Depois da saída de Carlos Carvalhal, que impulsionou um projeto virado para a aposta nos jovens formados no clube, os arsenalistas acreditaram num técnico que foi subindo degraus internamente e que pode dar continuidade a essa lógica. Preferencialmente, mantendo a competitividade que o Braga revelou na segunda volta do último campeonato. Ao empate com o Sporting, seguiram-se duas vitórias esclarecedoras sobre Famalicão e Marítimo. Tudo isto com um modelo de jogo bastante ambicioso, alterando significativamente as dinâmicas coletivas em relação ao passado e dando conforto aos principais jogadores.

Artur Jorge escolheu o 4-4-2 como sistema base, dando a Ricardo Horta – na meia esquerda – e Iuri Medeiros – na meia direita – o espaço interior para poderem desequilibrar, seja pelo último passe ou pelo remate. Quando conseguem enquadrar-se, usam o pé mais forte e têm talento para executar dentro do bloco adversário. A eventual saída do capitão, ainda em aberto, seria obviamente difícil de superar, mas é provável que esta época não o deixe como a referência goleadora dos bracarenses. Banza e Vitinha vão intimidando qualquer defesa neste início de liga, complementando-se em termos de movimentos e não perdoando dentro da área. Contratado ao Lens, o ex-Famalicão sabe funcionar em apoio e como recetor de jogo direto, segurando os centrais e ameaçando em zonas de remate. Já o jovem português continua a mostrar agressividade e determinação nos movimentos de rutura – arrastando a linha defensiva - ou de ataque à finalização. Esta dupla é muito autossuficiente e, além disso, abre espaços para que os criativos recebam entre linhas.

Com Iuri Medeiros e Ricardo Horta (continua a entender-se de olhos fechados com o irmão) por dentro, Artur Jorge pede aos laterais que se envolvam em profundidade. Sequeira, tantas vezes utilizado como um central à esquerda na saída, passa a ter outras funções e dá garantias na exploração do flanco, sobretudo pela precisão no cruzamento. O 4-4-2 do treinador bracarense baixa Al Musrati para o meio dos centrais na fase de construção, com André Horta a movimentar-se nas costas da primeira pressão e os criativos a mostrarem-se entre linhas. Este recuo do médio centro permite que haja segurança e variabilidade nos primeiros passes, dando asas aos laterais para que se adiantem. Há opções para progredir no campo.

A resposta defensiva no jogo mais exigente não foi a melhor, mas a liga portuguesa não vai oferecer esse desafio de forma regular. Percebe-se que a prioridade de Artur Jorge – auxiliado por Franclim Carvalho, que mostrou conteúdo tático na B SAD – passou por estabelecer dinâmicas ofensivas que aproximem a equipa do sucesso interno. É difícil imaginar que este Braga não crie várias ocasiões na maioria dos encontros, seja por criação coletiva ou rasgo individual. Além do que vão fazendo os titulares, a segunda linha do plantel minhoto está a corresponder.

Abel Ruiz, que vive na sombra de Banza e Vitinha, sabe jogar e tem deixado golos. Lainez começa a mostrar o talento que fez dele uma das principais promessas mundiais há uns anos – concorrente direto de Iuri Medeiros. Álvaro Djaló, mesmo sem um perfil semelhante a Ricardo Horta, vai sendo uma das surpresas deste início de época. Não tão fino a jogar por dentro, mas com potência para desequilibrar em zonas exteriores e mostrando nível na definição dos lances. Para o ataque, ainda há Rodrigo Gomes, outro jovem competitivo e versátil para entrar em qualquer uma das alas. O equilíbrio do elenco minhoto, sobretudo nas posições da frente, é não menos do que invejável.

A última vez que o Braga terminou num dos três primeiros lugares foi em 19/20, deixando o Sporting fora do pódio. Neste mercado, perdeu David Carmo para o Porto e ainda falta a confirmação sobre o futuro de Ricardo Horta. Artur Jorge iniciou esta temporada sem qualquer tipo de pressão, sabendo que só um desastre vai evitar que a equipa termine no top-4 novamente. A dinâmica positiva que está a ser construída abre espaço para acreditar que, no mínimo, os minhotos vão andar mais perto do topo e à espreita de qualquer deslize dos três candidatos. Isto porque, em Portugal, jogar futebol de ataque e marcar golos – Banzinha, entre os dois, podem superar os 30 - vale mais do que o que se pensa.

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