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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Uma suspensão que chega 10 meses e 5 dias depois e os bons exemplos que podem contagiar (por Duarte Gomes)

O antigo árbitro internacional apresenta-nos um conjunto de notas sobre as últimas semanas, onde cabem a luta de um homem, uma suspensão a um técnico português que chegou quase um ano depois e os exemplos de desportivismo que a formação também sabe dar

Duarte Gomes

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Notas soltas de semanas loucas

1 - O Natal é uma época de sentimentos bonitos, proximidade familiar, partilha e amor. É uma época que apela à bondade, ao altruísmo e à solidariedade. É suposto ser assim, se todos nós conseguirmos mergulhar nessa onda de paz e nostalgia.

Mas a verdade é que nem sempre é fácil entrar em modo natalício. Em dezembro, tal como em abril ou em agosto, a vida continua a lembrar-nos que é igual. Não pára, não muda e não dá tréguas naquilo que nos oferece de melhor e de pior.

Um dos exemplos maiores dessa sua frieza - como se tantos outros não bastassem -, foi a notícia recente da morte do DJ Magazino, um ser humano fantástico e talentoso, de apenas 44 anos, que lutou até onde pôde contra uma leucemia que veio a revelar-se fatal. Foram dois anos de dor, resiliência, ilusão e desilusão, que partilhou publicamente como inspiração a quem padecesse de drama semelhante.

Quando nos confrontamos com algo assim, tão trágico e avassalador, percebemos que alguns dos obstáculos que nos incomodam... não incomodam nada. É preciso batermos de frente numa parede como esta para darmos conta que, afinal, somos uns privilegiados.

Essa é a verdade que devemos valorizar cada vez mais: enquanto tivermos saúde física, lucidez emocional e coragem, somos capazes de lidar com tudo o que nos apareça pela frente. Isto serve para toda as pessoas, em todas as situações e perante quaisquer tipo de obstáculos. Enquanto há vida, há esperança. Convém que nos lembremos disso todos os dias, mas sobretudo nos menos bons.

2 - Um treinador português foi esta quinta-feira castigado por palavras que proferiu em determinado contexto. O castigo, a sua justiça ou legalidade não são o que importa dissecar. O que me parece relevante é voltar a refletir sobre prazos: a multa e sanção disciplinar aplicadas referem-se a factos que ocorreram há 10 meses e 5 dias!

Eu vou repetir: um agente desportivo foi castigado no dia 9 de dezembro (em plena época 2021/22) por excessos praticados no dia 4 de fevereiro (relativos à época 2020/21).

Por muito que a burocracia do atual enquadramento regulamentar "justifique" a demora, vale a pena perguntar:

- Que tipo de eficácia tem uma sanção destas? O que aconteceu à celeridade da justiça? O que é que uma punição assim ajuda a melhorar ou prevenir? Já imaginaram o que seria castigar uma criança por uma asneira cometida quase um ano antes, num enquadramento completamente distinto? Mas isto fará sentido para alguém? Sendo algo que se vê tantas e tantas vezes e há tanto tempo... porque continua a ser assim? Porque nunca muda? Que credibilidade é que isto oferece a quem gosta de futebol? O que é que acrescenta de bom?

É sempre feio e vale sempre a pena lembrá-lo.

3 - Se é verdade que os maus exemplos contagiam, não deixa de ser verdade que os bons têm efeito semelhante. Nos últimos tempos, tenho tido o prazer de testemunhar um sem número de atitudes elogiáveis, que devem merecer de todos nós vigoroso aplauso.

Ao nível da formação (onde tantas vezes critiquei comportamentos condenáveis) tenho visto jovens, treinadores e até pais a adotarem condutas fantásticas, que vão do apoio sem limite aos mais novos a gestos de desportivismo verdadeiramente encantadores e merecedores de "cartão branco".

Desde o técnico que tira de campo um atleta para que a sua equipa não fique em superioridade numérica, ao massagista que presta assistência ao jogador adversário, sem esquecer o avançado que abdica de marcar golo porque um defesa está caído no solo ou o jovem que diz ao árbitro que afinal não sofreu falta para penálti.

Aqui e ali chegam-me momentos de inacreditável humanidade em campo (e em torno dele), que me fazem acreditar que o desporto continua a ser um lugar muito, muito especial.

Parabéns ao PNED (e ao seu incansável mentor, José Lima) pela forma persistente como planta estes princípios e valores. E parabéns em particular a todos os jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros e adeptos (papás incluídos) que têm sabido assimilar essas boas práticas, tornando o desporto português num exemplo valioso para a sociedade.

Assim sim, dá gosto.