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Gianmarco Tamberi e o bom coração dentro de um grande saltador

O campeão olímpico do salto em altura logrou também o ouro nos Europeus de Munique, onde antes de comemorar a sua conquista se preocupou em abraçar Protsenko, o adversário ucraniano (ficou com o bronze) cujo nome já inscrevera no braço quando a Rússia invadiu o país e que soube, pouco antes da final, que a mãe de uma amiga fora morta por um míssil. Gianmarco Tamberi quis arrancar-lhe um sorriso antes de se dedicar a sorrir pela sua própria vitória

Diogo Pombo

Matthias Hangst/Getty

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A cabeleira assenta-lhe sobre a nunca e os ombros, outra parte tem presa no cume da cabeça com um elástico e está com os joelhos postos no tartã, o rabo assente sobre os calcanhares e os olhos fechados, enquanto berra. Gianmarco Tamberi inclina-se um coche para trás num celebratório momento que instintivamente os atletas no apogeu de uma conquista têm com eles próprios, mas diante de toda a gente, uma introspeção que exulta como se fosse uma extroversão e no caso do italiano parece-o mesmo, porque segura nas mãos um molde de gesso com alguma coisa lá escrita.

“O meu caminho até Tóquio” é o que se lê na engessada companhia que teve durante uns 11 meses quando rasgou os ligamentos do tornozelo esquerdo a umas três semanas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, um infortúnio cortante de sonhos tão próximo do evento com o qual atletas passam uma vida a sonhar. Por cinco anos guardou a estrutura que lhe imobilizou essa articulação, pô-la na mala feita para o Japão e agarrou-a como um troféu onde se premeiam excelsos humanos apenas com medalhas quando já garantira a sua de ouro. “Disseram-me, depois do Rio, que havia o risco de não voltar a competir”, admitiu.

A vida já fez o italiano conhecer os seus quinhões de sofrimento e uma parte da explicação para ele ser um dador compulsivo de abraços pode originar daí: Gianmarco Tamberi envolveu Mutaz Barshim efusivamente nos seus braços assim que, em Tóquio, concordaram em partilhar o ouro quando ambos não superavam os 2.37 metros no salto em altura, foi dos primeiros a correr para abraçar a amiga Patrícia Mamona quando a portuguesa garantiu a prata no triplo salto nesses Jogos e, na quinta-feira, prontamente pulou para entrelaçar os membros à volta de Andriy Protsenko quando ambos ainda estavam no colchão que ampara as quedas dos saltadores.

Em Munique, o delgado corpo de Tamberi saltou a 2,30 m, três centímetros para lá da marca do ucraniano que estimou congratular antes de festejar o seu feito com a distribuição de abraços por incontável gente que se encontrava nas bancadas do estádio. O caloroso italiano preocupou-se, primeiro, com a tristeza alheia que um pedaço de bronze, prata ou ouro não ampara - “mesmo antes do início” da final, Protsenko ficou a saber que a mãe de Kateryna Tabashnyk, outra saltadora da Ucrânia, “foi morta por um míssil em Kharkiv”. O atleta confessou que “estava muito emocional” e “não conseguia [focar-se] na competição”.

ANDREJ ISAKOVIC/Getty

O lastro desumano de uma guerra definiu no italiano a prioridade de abraçar o adversário assim que o ucraniano confirmou a medalha. Há semanas, Protsenko superara-o nos Mundiais de Eugene, nos EUA, onde Tamberi acabou no quarto lugar e ele ficou igualmente com o bronze (saltou 2,33 m). A empática relação entre os atletas começara mais cedo este ano, quando o Gianmarco usou o nome de Andriy num braço durante os Campeonatos do Mundo de pista coberta, em março, pouco depois de a Rússia invadir a Ucrânia e obrigar o atleta a fugir da sua cidade.

O efusivo abraço que Tamberi levou a Protsenko saberia de como o ucraniano teve de improvisar uma barra de pesos feito de pneus, correu pelos campos rurais por onde se refugiu com a família ou de como montou as barreiras de treino possíveis com materiais agrícolas até conseguir viajar para Portugal, onde é atleta do Sporting, com a mulher e as duas filhas. A provação que a guerra lhe arrancou juntou-se a tragédia que atingiu a família da sua conterrânea atleta, na sexta-feira. “Sinto-me muito triste. Tive de lutar contra mim próprio na final, não sei onde arranjei forças”, confessaria Protsenko.

Ainda esboçou alguns sorrisos perante a jovial presença de Tamberi, que se encavalitou nele e em Tobias Poyte, o alemão cujo melhor salto lhe valeu a medalha de prata. O vencedor italiano tornou-se bicampeão europeu (o título anterior aconteceu em 2016), puxou as energias sorridentes para cima, depois lá foi distribuir abraços gratuitamente pelo Estádio Olímpico de Munique, onde a diversão de final de temporada será impulsionada, mais ainda, pelo ouro que tão só há 10 dias ele julgava ser dificilmente alcançável: foi infetado pela covid-19 este mês e confessou que estava “vazio de energia” e “preocupado” se conseguiria ter “uma forma física decente” nos Europeus.

Aos 30 anos, Gianmarco Tamberi é o melhor saltador em altura atual, tem tido algumas quezílias com o pai, o seu treinador de sempre sobre quem a imprensa italiano o interroga acerca da continuidade da parceria, e, agora, é também o sorridente atleta que vai desfrutar de uma despedida de solteiro estando já casado. Antes dos Europeus, combinou com uns amigos que a festa seria em Munique, esta sexta-feira. “Finalmente, algum relaxamento”, resumiu à “Gazzeta dello Sport”. O bom coração que o faz saltar já o parecia ter nesse estado há muito tempo.