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Darwin Núñez, o novo Beatle

O Liverpool derrotou (3-1) o Manchester City, conquistando a Supertaça de Inglaterra. O avançado uruguaio até começou o encontro no banco, mas entrou na segunda parte e, nos minutos finais, ganhou um penálti e fez um golo, sendo decisivo para o triunfo da equipa de Klopp

Pedro Barata

Mike Hewitt/Getty

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Era praticamente a primeira ação de Darwin Núñez com a camisola do Liverpool. Após uma recuperação de bola da equipa de Klopp, esta, ao seu estilo, fê-la chegar rapidamente ao atacante uruguaio. O ex-Benfica, potente e agressivo, correu pela pradaria que é para si o meio-campo do adversário, dando de caras com a saída de Ederson. O guardião resolveu a jogada, que seria anulada por fora-de-jogo, mas, se não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, o mais caro reforço dos reds mostrava ali, naquela corrida, a matéria de que é feito.

Na Supertaça de Inglaterra, entre o Liverpool e o Manchester City, Darwin até começou no banco, com Klopp a apostar em Luis Díaz, Firmino e Salah para o ataque. Mas, aos 59' e com os reds na frente por 1-0, o uruguaio entrou, vendo já no relvado Julián Alvárez empatar o duelo. Só que, nos últimos minutos e quando os de Guardiola até pareciam melhor, a impetuosidade de Darwin fez mossa, ganhando um penálti para o 2-1 e marcando, ele próprio, o 3-1.

A celebração do seu golo, o primeiro com a nova camisola, foi própria de quem sabia que, aos 94', estava a dar o primeiro troféu da época ao Liverpool, mas foi mais do que isso. Darwin tirou a camisola e rugiu com raiva, festejo que se prolongou imediatamente após o apito final. Aí, o uruguaio ajoelhou e levantou os braços para o céu, exibindo uma genuína cara de felicidade. A primeira alegria da temporada no planeta luxuoso do futebol inglês é sua, qual novo Beatle a anunciar a sua chegada à cidade do quarteto mais famoso da história da música.

Mike Hewitt/Getty

Com Bernardo Silva, João Cancelo e Rúben Dias de início no City e Fábio Carvalho no banco do Liverpool e o lesionado Jota de fora, o duelo não teve o brilhantismo de outros embates entre estas duas máquinas de futebol mas deixou momentos impressionantes para quem está a iniciar a campanha. Um deles surgiu aos 21', quando os vencedores da FA Cup abriram o ativo.

A superior qualidade no passe longo de muitos jogadores do Liverpool permite à equipa fazer jogadas e desenhar associações entre os seus homens mais afastados no campo, exemplo claro de como a técnica individual pode desenhar novas rotas para o coletivo. Assim foi que Alexander-Arnold, de pé esquerdo, descobriu Luis Díaz no flanco oposto ao seu.

O colombiano serviu Thiago, o cérebro e a pausa entre tanto sprinter que Klopp tem. O espanhol voltou a girar o sentido do jogo, para Salah, que tocou curto em Arnold. O lateral que bate na bola com a precisão dos melhores rematou, com o desvio em Aké a impossibilitar a defesa de Ederson.

Se no lado red foi a estreia de Darwin a concentrar atenções, para o Manchester City era Haaland que gerava expetativas. O robótico norueguês tem um perfil algo diferente dos atacantes de que Guardiola costuma dispor, mas os golos infinitos que marcou em Dortmund fazem sonhar os adeptos do Etihad.

No entanto, a primeira tarde de Haaland com a camisola que o seu pai também vestiu foi discreta, errática, marcada pela constante sensação de estarmos a ver um corpo estranho. Já se sabia que a natureza de procura da profundidade do futebol do avançado teria de ser moldada à paciência, jogo associativo e escassez de espaços em que o City se move, mas neste primeiro impacto foi impossível não ver a falta de sintonia entre o coletivo e a sua nova lança.

Haaland teve algumas oportunidades para marcar, a mais clara delas já com 3-1 no marcador, quando falhou a baliza com Adrián batido, mas seria outro reforço ofensivo do City a empatar a Supertaça. Julián Alvárez, o "homem-aranha" contratado ao River Plate, aproveitou uma bola solta na área para apontar o 1-1 aos 70'.

Julián Álvarez remata para o 1-1

Julián Álvarez remata para o 1-1

Harriet Lander/Copa/Getty

Com o empate no marcador e juntando Álvarez a Haaland na frente, parecia o momento do City no jogo. Talvez pela primeira vez, os homens de Pep conseguiam encostar o Liverpool à baliza de Adrián, mas os reds dominam a arte de, estando longe da área rival, aproximarem-se dela com perigo em poucos segundos.

Já nos últimos 10 minutos, Salah foi lançado na velocidade e centrou de pé direito, na passada, com precisão. A bola foi ter com Darwin, que nem fez um cabeceamento muito eficaz. No entanto, o remate do atacante foi intercetado pelo braço de Rúben Dias, infração vista pelo árbitro após consulta do VAR.

Chamado a bater, Salah, o "rei egípcio" por quem as bancadas cantam, não tremeu. 2-1 e o Liverpool novamente na frente.

O momento em que Rúben Dias corta com o braço depois do remate de Darwin

O momento em que Rúben Dias corta com o braço depois do remate de Darwin

Andrew Powell/Getty

Fábio Carvalho entrou aos 90' e assistiu em posição privilegiada ao golo de Darwin, de cabeça após ataque rápido. A celebração efusiva evidenciava a alegria coletiva e o grito de libertação individual do novo membro da orquestra de Klopp.

O técnico alemão é o primeiro a sorrir no magnífico duelo dos bancos contra Guardiola. Conquista o troféu que lhe faltava em Inglaterra, o seu sétimo em Anfield, a casa onde Darwin já marca.