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Em criança, fingia que era Luís Figo. Hoje todos sabem quem é Pernille Harder: “Todos devem amar quem querem amar e sem serem julgados”

A Dinamarca chega ao Euro 2022 naquele que é considerado o grupo mais difícil da competição. Pernille Harder tem a noção de que são vistas como underdogs, mas só quem não conhece o percurso da jogadora questionará a sua motivação e dedicação. Jogou com rapazes quando não existiam equipas femininas, estudou o jogo de Marta, venceu uma série de títulos individuais e coletivos e ainda arranjou tempo para lutar pela igualdade no futebol

Rita Meireles

Oliver Hardt - UEFA

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Há uns anos, assistir a um jogo de futebol feminino não era tão simples quanto sentar no sofá e ligar a televisão. Para Pernille Harder ter uma visão real daquilo que poderia ser um dia, foi preciso esperar por meados da década de 2000, quando apareceu o YouTube. "Era difícil encontrar qualquer coisa sobre futebol feminino na televisão, por isso a única coisa que fiz foi aceder à Internet e ver vídeos da Marta. Ela era a maior jogadora que eu conhecia, o meu ídolo", contou a dinamarquesa, ao “The Guardian”.

Milhões de raparigas podem agora dizer o mesmo sobre ela.

A jogadora do Chelsea tem tantos prémios individuais que já teve que começar a amontoar debaixo da cama aqueles que não estão expostos na casa dos seus pais. Desde 2016, foi campeã em todas as temporadas que jogou, com o Linköping, Wolfsburg e Chelsea. É a maior goleadora da seleção da Dinamarca, contando com a equipa feminina e masculina. São 68 golos que a colocam numa posição de influência. Por certo, muitos jovens a verão hoje os seus vídeos no YouTube.

"Quando estava a brincar no jardim, dizia que era o David Beckham ou o Luís Figo, mas acredito que hoje em dia muitas raparigas consideram as jogadoras como ídolos e isso é ótimo. Se as jovens raparigas estão a olhar para mim, e o meu caminho para chegar aqui, espero que elas se inspirem para fazer o mesmo. Tudo pode acontecer, desde que se trabalhe muito para isso", continuou.

DeFodi Images

Quando se fala de Harder, uma das primeiras coisas que salta à memória é o facto de a jogadora ser o rosto de uma transferência recorde no futebol feminino. Foi do Wolfsburg para o Chelsea por uma quantia que pode ter rondado as 300 mil libras. O valor nunca foi confirmado, apenas o facto de se ter realmente tratado de um recorde mundial no jogo feminino.

"Tendo em conta que estamos a lidar com uma transferência recorde para o jogo feminino, sem entrar na natureza exata da soma envolvida, e que Pernille só ia estar connosco por mais 10 meses e tinha acabado de participar na final da Champions por nós, decidimos que esta era uma solução justa para todos os envolvidos", disse Ralf Kellermann, diretor do clube alemão, na altura da transferência.

Harder ganhou quatro títulos consecutivos da liga alemã com o Wolfsburg após a sua chegada, em 2017. Conseguiu ainda marcar presença em duas finais da Liga dos Campeões, mas perdeu ambas contra o Lyon. Durante esse tempo marcou 105 golos em 114 jogos.

Ainda assim, é bem possível que alguns dos seus maiores golos tenham sido marcados fora das quatro linhas. Até porque o seu objetivo é que qualquer rapariga que tenha o sonho de vingar no mundo do futebol não encontre hoje as mesmas barreiras que ela encontrou no passado.

Em 2017, pouco depois de um excelente percurso que as levou à final do Europeu, a seleção da Dinamarca entrou em greve por causa de uma disputa salarial com a própria federação. Uma eliminatória para o Campeonato do Mundo frente à Suécia foi cancelada, o que possivelmente lhes custou um lugar na competição. Só depois se chegou a um acordo para os quatro anos seguintes.

"Não é que estivéssemos orgulhosas de o ter feito na altura. Teria sido melhor se não tivéssemos de o fazer, mas sentimos que tínhamos de fazer uma mudança. Os sentimentos não foram bons porque realmente só queremos cooperar com a nossa federação e ir na direção certa. Depois disso, ficámos orgulhosas por nos termos defendido e por termos feito a mudança. As consequências como o Campeonato do Mundo foram realmente duras, mas no final valeu a pena", confessou a jogadora.

Mas não fica por aqui. Junto com a namorada Magdalena Eriksson, jogadora do Chelsea e da seleção sueca, prometeram doar 1% dos seus salários para o projeto “Common Goal”, que ajuda a enfrentar problemas sociais. O casal tornou-se ainda um dos rostos da comunidade LGBTQ+ no futebol e este ano lançaram o filme “Love Always Wins”, onde se mostram como qualquer outro casal.

Naomi Baker - The FA

“Todos devem ser capazes de amar quem querem amar e não serem julgados por isso. O futuro seria incrível se pudesse ser apenas normal ser homossexual, que se possa simplesmente fazê-lo sem que as pessoas falem sobre isso”, disse Harder durante o filme.

Em Ikast, a cidade dinamarquesa na região de Mid Jutland, de onde é natural, o único desporto que não existia na sua infância era o futebol feminino. “Tive de lutar para ter a possibilidade de treinar com os rapazes, porque ou se lutava por isso ou tinhas que te mudar para outro lugar”, contou a jogadora.

A motivação que a moveu nessa altura é a mesma que sente hoje, numa altura em que se prepara para jogar o Campeonato da Europa naquele que é o “grupo da morte” da competição: Espanha, Finlândia, Dinamarca e Alemanha.

“Há tantas boas equipas a jogar neste Europeu, e a Alemanha e Espanha são duas das melhores, talvez duas das favoritas”, disse ao site da UEFA. “A nossa mentalidade tem de ser a de soltar os travões. Somos consideradas underdogs nestes jogos, por isso temos de estar calmas e descontraídas. Temos um plano de jogo, só temos de fazê-lo e dar o nosso melhor. O mais importante de tudo é acreditar na habilidade da nossa equipa. Temos de ser ousadas”.