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Um guia para o “maior evento de desporto feminino de sempre no continente”: o Europeu dos recordes está aí

Mais espetadores, mais audiência e mais dinheiro poderia ser uma forma de resumir o Campeonato da Europa de futebol feminino que arranca esta quarta-feira, no mítico estádio de Old Trafford, em Manchester, cidade onde a seleção portuguesa, a participar pela 2.ª vez no torneio, ficará sediada. O prize money será o maior de sempre atribuído pela UEFA, mas nem tudo são rosas e a escolha dos estádios tem sido alvo de críticas

Pedro Barata

Naomi Baker/Getty

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A 23 de julho de 2017, Portugal defrontava a Escócia no segundo jogo da fase de grupos do Europeu feminino. Em estreia absoluta no torneio, a seleção tinha perdido, por 2-0, contra a Espanha na partida inaugural nos Países Baixos. Ao minuto 27 do embate contra as escocesas, Diana Silva arrancou pela esquerda, cruzou e, após erro de uma defesa, Carolina Mendes rematou para o primeiro golo de sempre de Portugal na mais importante prova continental.

A seleção de Francisco Neto venceria esse desafio por 2-1, com o triunfo a ser dado por Ana Leite, vindo a ser eliminada após perder (2-1) contra a Inglaterra, em novo jogo em que Carolina Mendes marcou. A passagem à fase seguinte ficou a um golo de distância.

Cinco voltas ao sol passadas, o Europeu está de volta, adiado por um ano devido à pandemia da covid-19, que levou a que a versão masculina do torneio passasse para 2021 e, consequentemente, a feminina para 2022. Portugal, eliminado no play-off pela Rússia, não se conseguiu apurar para a fase final. No entanto, as sanções aplicadas devido à guerra com a Ucrânia levaram à exclusão das russas e à repescagem das portuguesas, que competirão no grupo C contra Suíça (a 9 de julho), Países Baixos (13 de julho) e Suécia (17 de julho).

Kika Nazareth e Jéssica Silva, duas das principais esperanças nacionais para o Europeu

Kika Nazareth e Jéssica Silva, duas das principais esperanças nacionais para o Europeu

Gualter Fatia/Getty

Em Inglaterra, até 31 de julho, a UEFA e a organização promovem o torneio, sobretudo, com base numa frase: “o maior evento de desporto feminino de sempre no continente”. E este slogan deve ler-se à luz dos números históricos e recordes que a competição já bateu ou se espera que bata, superando as cifras neerlandesas de 2017.

Mais espetadores, mais audiência, mais dinheiro

Em abril, a UEFA anunciou que oito jogos do Euro já tinham lotação esgotada, incluindo o duelo inaugural, em Old Trafford, com 71.300 bilhetes vendidos para o Inglaterra-Áustria, e a final, em Wembley, possuindo 87.200 ingressos para a partida de atribuição do título. Com efeito, se todas as pessoas com bilhete forem à final, esta tornar-se-á no encontro da história dos Europeus — masculinos ou femininos — com maior quantidade de espetadores no estádio.

Antes do arranque do torneio, a 1 de julho, a UEFA comunicou que 500.000 dos 700.000 bilhetes disponíveis já foram vendidos, uma cifra recorde. Adeptos de 99 países compraram ingressos, tendo 43% deles sido adquiridos por mulheres e 21% por menores de 16 anos.

De acordo com a UEFA, que coloca como objetivo a realização de uma competição que “deixe um legado para o crescimento do futebol feminino”, são esperados 96.000 visitantes de outros países a território inglês devido ao Euro. Também a nível televisivo se projetam cifras recorde: em 2017, houve 178 milhões de telespetadores para a competição nos Países Baixos, aguardando-se 250 milhões para esta edição. Direitos de transmissão foram vendidos para diversos países na Europa, mas também América do Norte ou Ásia.

A bola oficial do Europeu

A bola oficial do Europeu

Nick Potts - PA Images/Getty

Também a nível dos prémios monetários o Europeu estabelecerá novos máximos no futebol feminino. O prize money total será de €16 milhões, o dobro do distribuído na passada edição. 60% desse valor será repartido de maneira igual por todas as participantes — cada seleção encaixará, no mínimo, €600.000 — e 40% com base nas prestações desportivas.

Durante a fase de grupos, cada vitória valerá €100.000 e o empate €50 mil. Cumulativamente, quem chegar aos quartos-de-final encaixará €250 mil e as seleções que alcançarem as meias-finais receberão €320 mil. O campeão arrecadará €660 mil e o finalista vencido €420 mil — assim, uma seleção que seja campeão vencendo todos os jogos da fase inicial irá receber, entre prémios fixos e por prestação, pouco mais de €2 milhões.

Também os clubes que cedem atletas às equipas participantes receberão dinheiro, com um mínimo garantido de €10.000 a cada clube por futebolista que participe no Euro. Além desta quantidade, são pagos €500 por dia em que as jogadoras estiverem na competição, aos quais se juntam mais 10 dias prévios de preparação e um dia de viagem após o final da prova.

A escolha (pouco ambiciosa?) de estádios

O Europeu decorrerá em 10 estádios. Haverá recintos tão diferentes como os míticos Old Trafford (só usado no jogo inaugural) e Wembley (só para a final), as casas do Brighton, do Southampton ou do Brentford, na Premier League, ou locais como o estádio da academia do Manchester City ou o Leigh Sports Village, onde a seleção realizará os seus três duelos na fase de grupos.

Leigh Sports Village, onde Portugal disputará as três partidas da fase de grupos

Leigh Sports Village, onde Portugal disputará as três partidas da fase de grupos

Clive Brunskill

O Leigh Sports Village tem capacidade habitual para 12.000 pessoas, mas, como a UEFA não permite que haja espetadores em pé, só terá 8.100 espetadores nas partidas do Europeu. O mesmo sucede com o campo da academia do Manchester City, que tem capacidade máxima para 7.000 pessoas mas que, nos três jogos que acolher, terá o máximo de 4.700 espetadores.

Há alguns meses que a UEFA e a organização do Euro têm sido acusadas de falta de ambição na escolha dos recintos. Apesar dos vários recordes que se esperam bater no torneio, o máximo de assistência é 22.580 pessoas por jogo, um ligeiro crescimento face aos 21.756 de média do Mundial de 2019, em França.

A seleção da Islândia disputará os seus dois primeiros encontros, frente à Bélgica e Itália, na academia do Manchester City. Ambas as partidas foram das primeiras a ficarem esgotadas e a capitã das nórdicas, Sara Bjork Gunnarsdottir, disse que a escolha dos palcos para os jogos não "estava de acordo com o merecido" pelas seleções participantes. "Jogaremos em Inglaterra, onde há tantos estádios, e vamos atuar num campo de treinos. É embaraçoso", argumentou a islandesa.

Portugal com mistura de gerações e um panorama aberto entre as favoritas

A seleção nacional enfrentará adversárias "de topo", como classificou Kika Nazareth em entrevista à Tribuna Expresso. Com efeito, a Suíça (20.ª de um ranking FIFA em que Portugal é 30.ª), Países Baixos (4.ª do ranking e campeã europeia em título) e a Suécia (2.ª do ranking e medalha de prata em Tóquio) prometem exigir o melhor da equipa de Francisco Neto.

Portugal estará em Inglaterra com uma seleção que cruza várias gerações que viveram experiências bem diferentes. Sílvia Rebelo, Carole Costa, Ana Borges, Dolores Silva ou Carolina Mendes, todas presentes no Europeu de 2017 e com mais de 100 internacionalizações, estão já na casa dos 30 anos e cresceram num panorama do futebol feminino nacional marcada pela falta de condições, tendo o profissionalismo a nível interno como pouco mais do que uma miragem —tirando Sílvia Rebelo, todas emigraram bastantes jovens.

Por outro lado, Inês Pereira (23 anos), Catarina Amado (22), Alícia Correia (19), Joana Marchão (25), Andreia Norton (25), ou Kika Nazareth (19) já são produtos de um contexto diferente, tendo todas vestido as camisolas de Sporting, Sporting de Braga ou Benfica quando estes clubes já realizavam uma aposta séria no futebol feminino. A subida de nível da liga interna vê-se pela diferença no recrutamento de jogadoras para a seleção: em 2017, só 13 das 23 convocadas atuavam em Portugal, ao passo que em 2020, 19 das 23 escolhidas jogam na Liga BPI.

Também o trabalho feito nas seleções jovens parece começar a ter expressão na equipa principal. Vanessa Marques, Andreia Norton, Jéssica Silva, Tatiana Pinto, Fátima Pinto e Diana Silva fizeram parte da equipa semi-finalista do Europeu de sub-19 de 2012, enquanto Kika Nazareth e Alícia Correia foram, também, semi-finalistas do Euro sub-19 de 2019 — Andreia Jacinto também integrou essa equipa mas, por lesão, é baixa de última hora, entrando Suzane Pires para o seu lugar.

No que às favoritas diz respeito, o panorama parece estar especialmente aberto. Espanha, com a base do Barcelona — apesar de Alexia Putellas ser baixa de última hora, devido a uma lesão no joelho —, as anfitriãs Inglaterra, a Suécia, os Países Baixos de Lieke Martens ou Vivianne Miedema ou a França parecem, todas, ter legítimas aspirações de levantar o título em Wembley.

Com a organização a querer que o Europeu decorresse sem poder ser ofuscado por outras competições, como um campeonato masculino ou Jogos Olímpicos, o interesse mediático que a imprensa internacional está a dar à antevisão do torneio evidencia que estamos na antecâmara de um evento de máxima dimensão. O mês de julho em que Kika Nazareth, Aitana Bonmatí, Ada Hegerberg — depois de regressar à seleção da Noruega —, Pernille Harder ou Lauren Hemp vão centrar atenção está aí.