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Os incidentes na final da Champions vieram de um problema social em França: “A polícia perceciona os adeptos de futebol como o inimigo”

Ronan Evain é diretor-executivo da Football Supporters Europe, organização que reúne adeptos das todos os países-membros da UEFA e vai participar na investigação, já anunciada pela entidade, aos problemas ocorridos na final da Liga dos Campeões, em Paris. Em conversa com a Tribuna Expresso, diz que os incidentes logísticos "eram previsíveis", questiona a capacidade de França em acolher grandes eventos desportivos e critica as autoridades do país, culpando-as de "um processo de desumanização" para "fazer crer que os adeptos" do Liverpool "são perigosos" e "se comportam como animais"

Diogo Pombo

Jonathan Moscrop/Getty

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O que causou todos aqueles incidentes ocorridos nas horas antes da final de sábado?
Foi um efeito bola de neve, uma coisa levou à outra. Há muitos problemas sistémicos no Stade de France e o que vimos foi uma acumulação. Todos esses problemas correram mal ao mesmo tempo e eram bastante previsíveis. Entre esses problemas, o principal tem a ver com o plano de mobilidade, com a forma como as pessoas chegam ao estádio. Sempre foi uma questão no Stade de France e, pelo menos, foi o principal que levou à trapalhada gigante do último sábado. Rebobinando, quando queremos ir lá, por norma apanhamos o metro para o norte do estádio, ou o comboio para o sul, que nesse dia foi impactado por uma greve. Há outra linha, que pára mais longe, que foi utilizada pelos adeptos do Liverpool e tenho de enaltecer que eles fizeram tudo aquilo que lhes foi pedido. Foram muito bem organizados e comportados. As pessoas chegaram a essa estação e deveriam ser direcionados para a rota normal, que é larga e poderia ter acomodado toda a gente e que começa da outra estação. Mas isto não aconteceu.

Porquê?
Era da responsabilidade das autoridades públicas. Não usaram a rota secundária para o estádio que consegue acomodar um pequeno número de adeptos. No sábado, quase todos os adeptos, tanto do Real Madrid como do Liverpool, terão utilizado os transportes públicos e foram canalizados para rotas muito estreitas, que eram muito pequenas e causaram enormes congestionamentos. Milhares de adeptos ficaram bloqueados, deu-se origem a uma situação de risco e ficaram nesta situação, mais ou menos, durante uma hora e meia. E o que se decidiu foi remover o primeiro controlo de bilhetes de lá, ficou aberto, o que causou a misturada entre pessoas que tinham bilhetes e locais que não tinham. Daí tantas pessoas sem bilhete se terem conseguido aproximar das entradas do estádio.

Disse que estes problemas eram previsíveis, mas, em 2016, houve vários jogos do Europeu no Stade de France e não me recorde de terem sido registados problemas desta dimensão.
Isso não é bem verdade, sempre houve problemas com pessoas vindas da RER B e D [as linhas de comboio]. Não há uma passagem larga e as vias ficam sempre sobrelotadas. Mas só poucos milhares de pessoas costumam vir por aí, porque é pouco prático e encarada como uma opção secundária. Mas, quando se chega ao estádio de metro, pela linha 13, o caminho que depois se faz a pé também não é fabuloso: tens um passeio minúsculo e também fica muitas vezes congestionado, sobretudo depois de um jogo.

Mas as primeiras palavras dos ministros do Interior e do Desporto franceses foi culpar os adeptos ingleses pelo sucedido. Quais as razões para adotarem essa linha de reação?
Em França, o adepto de futebol é normalmente considerado um cidadão de segunda, com menos direitos em relação ao resto da população. Por exemplo, é comum existirem limitações para os adeptos em viagens dentro do país, quando querem ir a um jogo fora. Há uma tradição de tratar os adeptos assim, esse é o primeiro ponto. O segundo é que toda a preparação para o jogo de sábado se fez com a assunção de que era um jogo de risco por causa dos adeptos do Liverpool, mas eles são extremamente pacíficos. Há séculos que não são registados problemas de violência com adeptos do Liverpool em qualquer estádio.

O clube até tem vários oficiais de ligação com adeptos que trabalham em cada deslocação feita pelo Liverpool.
Eles são bem organizados. Portanto, a polícia atuou com base na reputação que atribui aos adeptos do Liverpool que vem de há anos e não em relação ao que são hoje em dia. Esse foi um erro gigante. Durante a preparação para o jogo, houve este erro de perceção de que eles eram perigosos, que eram o inimigo e que tinham de ser controlados, quando, nas finais anteriores, em 2018 e 2019, não houve quaisquer problemas. Houve uma espécie de processo de desumanização, para fazer crer que são perigosos e se comportam como animais no estádio, como tal, por que não culpá-los? De novo, eles têm menos direitos que nós, portanto… Acho que eles [autoridades francesas] nem se aperceberam do quão louca, anormal e imoral foi a sua comunicação.

Então, tudo isto é derivado a problemas logísticos vindos de uma perceção social existente em França, baseada em velhos preconceitos?
Sim. Os ministros tentaram colocar a responsabilidade nos adeptos do Liverpool, mas, no final, o que fizeram foi escolherem uma crise diplomática com os ingleses em vez de um pedido de desculpas e uma crise política em França. E agora, no final, ficaram com ambas.

Na segunda-feira, a UEFA anunciou que fará um “relatório independente” aos incidentes da final da Liga dos Campeões. Acha que agiram bem durante todo este processo?
[Suspira] Bom, a responsabilidade da UEFA aqui é escolher o país certo para acolher a final da competição. A questão é: a França ainda é capaz de organizar a final de uma prova de alto nível? Porque se impedes os adeptos de viajarem para jogos mais pequenos, será que consegues acolher a maior partida de futebol do ano? Agora, encaramos a reação da UEFA como um sinal muito positivo e um passo na direção certa. Temos a confirmação de que os adeptos serão envolvidos no inquérito e na investigação — ou seja, nós e grupos de adeptos do Real Madrid e do Liverpool. Vemo-lo como um desenvolvimento positivo, mas, de momento, ainda nem sequer começou [a entrevista acontece na quarta-feira]. Estamos à espera de saber mais sobre a metodologia, a abrangência e de como será feito o trabalho.

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