Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“Depois de 13 anos, o Moncho é o gajo que andou aos pontapés a caixotes do lixo. Saio do FC Porto por isso, senti-me a mais em Portugal”

O técnico espanhol de basquetebol Moncho López, de 53 anos, sai do FC Porto com uma mágoa indisfarçável e com o sentimento de se ter tornado persona non grata no nosso país, mas rejeita ficar conhecido como o treinador que deu um pontapé num balde de lixo e bateu com a mão numa mesa depois de perder um campeonato. Numa entrevista frontal e reveladora, cuja segunda parte pode ler no domingo, Moncho fala da sua marca na modalidade, não só no FC Porto, onde conquistou 15 títulos. E revela que não se despediu de Pinto da Costa

Alexandra Simões de Abreu

RUI DUARTE SILVA

Partilhar

O Moncho chega a Portugal em 2009 para ser selecionador nacional, mas pouco depois assumiu o FC Porto. Quando surgiu o convite do FC Porto?
Estava na seleção portuguesa, numa festa do basquetebol no Algarve e o Mário Saldanha disse-me: “Recebi um telefonema do diretor do FC Porto, Fernando Assunção, que disse querer falar contigo. Perguntou se tu podias ser selecionador e treinador de um clube. Eu disse que sim. Como presidente da federação acho que tens de reunir com o FC Porto. Ouve o convite que te querem fazer". Uns minutos antes dele ter esta conversa comigo, um treinador veterano do Porto, Mário Barros, disse-me: "O FC Porto quer convidar-te, mas vão falar com a federação primeiro". Com isso o FC Porto já conseguiu uma coisa, uma recetividade boa do meu lado porque gostei do procedimento. Reuni-me com o Fernando Gomes, atual presidente da FPF, e com o Fernando Assunção, em Ponte de Lima.

Como o convenceram?
Com o projeto. Primeiro, o Fernando Gomes é um ótimo sedutor no discurso e o Fernando Assunção transmitiu-me muita paixão. Depois utilizaram o recurso do atleta. Disseram que os atletas do FC Porto que estavam comigo na seleção diziam que o Moncho trabalha assim e assim. Mostraram um bom conhecimento da minha forma de trabalhar. Como selecionador observava o campeonato e o FC Porto parecia-me uma das equipas com melhores condições. Organizada, com camioneta e pavilhão próprio. Pensei: quero estar em Portugal, gosto de estar aqui, quero continuar na seleção, mas gosto muito de treinar, vou treinar o FC Porto.

O que lhe pediram quando chegou ao FC Porto?
Que mudasse a modalidade. Queriam que a equipa ganhasse e discutisse os títulos. E pediram-me para formar jogadores. Julgo que se conseguiu. Provavelmente o nível de satisfação mais elevado é com a formação, porque nos últimos anos, e não é só responsabilidade minha, é dos treinadores da formação e da coordenadora Isabel Lemos com o meu pequeno contributo, a formação do FC Porto tem dado grandes resultados. Tem dado jogadores às seleções, temos trazido jogadores para a equipa sénior e sobretudo, o primeiro escalão do basquetebol português está cheio de jogadores que se estrearam connosco. Nem todos estão no FC Porto desde pequenos, alguns chegaram com 14, 15 anos, outros com 16, mas não chegaram formados, completaram a formação no FC Porto.

Qual é a sua marca na formação?
Método de treino. Os treinadores que trabalharam comigo e treinam agora na Ovarense e no V. Guimarães, ou que foram meus atletas, a sua construção do jogo no treino, a progressão pedagógica, a distribuição de conteúdos durante a semana, acho que tem a marca Moncho. Porque no jogo, as estratégias, as jogadas, como se faz uma reposição na linha lateral e na linha final, isso é mais universal, é de todos, nós copiamos uns aos outros. O método de treino caracteriza-nos muito. Nós formámos muitos treinadores no FC Porto que saíram porque conseguem ganhar mais dinheiro noutros clubes.

O duplo papel de selecionador nacional e treinador do FC Porto durou pouco.
Um ano e apareceram os problemas. O Benfica disse: “Este senhor não pode continuar na seleção. Ou o FC Porto ou a seleção”. O Mário Saldanha ligou-me e foi este o diálogo: "Quero-te na seleção, Moncho. Qual é o teu contrato no FC Porto?"; "O meu contrato no FC Porto é tal", "Não sei se podemos assumir"; "Mário, não é uma questão de dinheiro, eu não quero sair do Futebol Clube do Porto"; "Não faças isso, senão vais ter de sair da seleção", "Não é justo Mário, tenho um contrato assinado por ti que diz que eu posso fazer as duas coisas"; "Mas tenho muita pressão e tive uma reunião na Luz com um dirigente do Benfica que me disse que ao seres treinador do FC Porto e da seleção, influencias, vais levar atletas do Benfica para o FC Porto”. Não é verdade. Aconteceu um caso, o João Santos que veio para o FC Porto, mas eu até já tinha saído da seleção quando veio.

O que pesou na decisão de ficar no FC Porto e não na seleção? Não foi mesmo uma questão de dinheiro?
Não. Havia pouca diferença no meu ordenado, nunca estou confortável a falar de salários, mas posso dizer que era uma diferença de um, dois ou três por cento. Eu levava um ano no FC Porto, tinha ganhado a Taça da Liga e a Taça de Portugal.

Artigo Exclusivo para assinantes

No Expresso valorizamos o jornalismo livre e independente

Já é assinante?
Comprou o Expresso? Insira o código presente na Revista E para continuar a ler