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Crónica de Jogo

Hexa não rima com ić: Croácia, a rainha da resistência, elimina Brasil nos penáltis

Uma genialidade de Neymar aos 105' ainda colocou a equipa de Tite na frente, mas Petkovic, o avançado que em 42 jogos na Série A nunca marcou, fez o empate. Na decisão, a serenidade croata e a estrela do guardião Livakovic, autor de 11 defesas em todo o jogo, levaram o Brasil a nova desilusão, escrevendo outra epopeia para a banda de Modric

Pedro Barata

Mike Hewitt - FIFA/Getty

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Havia qualquer coisa nas caras, nas expressões, nos olhos. Após mais de 120 minutos de futebol, as faces dos jogadores não estão para grandes teatros, enganos, fingimentos. As doses de tensão que florescem no relvado tiram quaisquer máscara, evidenciando o que vai dentro daqueles seres humanos. Ali, carregando as esperanças de um país mas, talvez mais forte do que isso, brincando com os sonhos e pesadelos de todo o menino que deseja brincar com uma bola e levar o gosto para os maiores palcos.

As caras croatas eram de confiança, quase conforto ultrajante. Vlasic e Majer, os dois primeiros executantes de penáltis, bateram para o meio, o recurso tantas vezes eficaz mas que só é usado por quem tem segurança à prova de vergonhas. Enquanto isso, Rodrygo esbarrava no muro de Livakovic, Neymar murmurava rezas ao céu, Casemiro fazia golo mas o grito seguinte não era de festejo, mas alívio.

Modric, o líder que parece apostado em ser exemplo em tudo — exemplo do que é ser um médio, do que é capitanear um grupo, do que é ser um desportista, do que é estar num campo com lealdade, do que é transmitir segurança a uma equipa em momentos limite —, também enganou Alisson. A seguir, o penálti de Orsic foi tão colocado que beijou as bochechas da rede.

Tudo foi dar a Marquinhos. De cara fechada, talvez com as recordações de duas décadas de dor. De Roberto Carlos a atar as meias enquanto Henry fugiu para marcar em 2006. De Sneijder em 2010. Dos 7-1 de 2014. Das defesas de Courtois em 2018. O penálti foi ao poste, selando a eliminação da equipa de Tite.

Os brasileiros corriam para a bola com o passado como peso, uma carga. Esta derrota significa que a seleção mais titulado da história dos Mundiais estará, pelo menos, 24 anos (entre 2002 e 2026) sem ganhar o Mundial, igualando o jejum entre 1970 e 1994.

Os croatas corriam para a bola com o passado como arma, como fonte de boas memórias que geram tranquilidade. Assim bateram o Japão na eliminatória anterior e a Dinamarca e a Rússia em 2018, usando também o tempo extra para superarem a Inglaterra e chegaram à final. Agora, pela terceira vez enquanto país independente, a Croácia, o pequeno estado de 3,8 milhões de habitantes, está nas meias-finais de um Mundial.

Hector Vivas - FIFA/Getty

A primeira parte do desafio foi fiel ao guião dos grandes embates a eliminar. Cautelas, tensão, pouca baliza mas as pulsações desde início altas. O Brasil entrou a controlar com bola, com a fórmula de Danilo a juntar-se a Casemiro na construção e Vinícius e Raphinha bem abertos para agitarem no drible. Durante o tempo em que esteve em campo, o jovem do Real Madrid foi o mais perigoso brasileiro.

A Croácia apresentava em Juranovic o principal recurso para progredir, beneficiando do entusiasmo e arrojo do lateral direito. Aos 13’, após condução do jogador do Celtic, Pasalic cruzou e Perisic falhou o remate. Aos 30’, após boa abertura de Juranovic para Perisic, o atacante do Tottenham atirou por cima.

Num dos poucos momentos de desequilíbrio provocado pelos brasileiros nos balcânicos, Vinícius tabelou com Richarlison e arranjou espaço para visar a baliza rival, mas Gvardiol, o central de máscara que monta muralhas à frente da baliza que defende, travou o remate. O RB Leipzig vai fazer uma fortuna com o jovem de 20 anos, um dos melhores da sua posição no Catar 2022.

Para fechar um pouco tempo escasso em perigo, Neymar atirou um livre direto para a segurança das mãos de Livakovic. Nas bancadas, Rivaldo e Roberto Carlos sorriam, talvez recordando o tempo em que as suas canhotas se especializaram na arte de tornar faltas em golos.

Uma seleção de craques na bancada: Rivaldo, Roberto Carlos, Cafú, Ronaldo. Em cima, Colina e Wenger, homens da FIFA

Uma seleção de craques na bancada: Rivaldo, Roberto Carlos, Cafú, Ronaldo. Em cima, Colina e Wenger, homens da FIFA

Marc Atkins/Gettty

O início do segundo tempo foi o momento de maior aperto sul-americano junto dos europeus. Neymar, Vinícius e Paquetá chegaram a posições de remate dentro da área nos 20 minutos iniciais da etapa complementar, mas encontraram sempre um oponente de excelência do outro lado.

Dominik Livakovic travou um quase auto-golo de Gvardiol ou finalizações à queima-roupa de Neymar e Vinícius. Quando Rodrygo entrou a substituir o companheiro do Real Madrid também não conseguiu bater o guardião do Dinamo Zagreb, autor de uma exibição monumental. Acabou com 11 defesas feitas, várias de alto nível.

Se Gvardiol e Livakovic evitam o golo, Brozovic, Modric e Kovacic davam algum oxigénio à equipa. Passam os anos e a Croácia continuam a ter um meio-campo capaz de dominar a bola como poucos.

O trio vai jogando como se dançasse, móvel e solto, num carrossel de permutas e fluidez. Modric desce muitas vezes à base da jogada para olhar o campo, com um estratega a mira o terreno de batalha. Quando sobe no terreno, faz das simulações e receções orientadas um movo de vida. Kovacic, de mais em baixo, tem o dom da condução de bola, parecendo ganhar velocidade à medida que come metros. Brozovic, com uma bomba tatuado no pescoço qual sinal de aviso para quem se aproxime, compensa os movimentos com e sem bola dos companheiros, mas sempre preciso no passe e receção.


Neymar a conhecer uma especialidade de Modric: simula que vai para a frente, espera pela bola e ilude a pressão

Neymar a conhecer uma especialidade de Modric: simula que vai para a frente, espera pela bola e ilude a pressão

Francois Nel/Getty

Os 90 minutos terminaram com um nulo, passando a decisão para o prolongamento. O desafio entrou assim quase no habitat natural dos croatas, que desde 1998 decidiram assim todos os seus jogos em grandes torneios, à exceção da final de 2018 perdida contra França.

Aos 105', surgiu o momento que, quando o planeta o viu, pensou que consagraria a genialidade do seu autor, transformado em herói nacional rumo à fase seguinte.

Neymar pegou na bola a meio do campo croata, com 11 rivais atrás da linha da bola. Tabelou com Rodrygo para eliminar dois adversários e aproximar-se da área de Livakovic. Voltou a usar o toca e vai com Paquetá para deixar três axadrezados para trás. Perfurou entre Sosa e Lovren e, na cara de Livakovic, resolveu também fintar o guardião, já que o panorama da noite não aconselhava a tentar superar o guarda-redes através do remate.

A finalização consagrou um dos melhores golos da carreira do astro brasileiro. No mais importante local, na mais importante altura.

Anadolu Agency/Getty

Mas do outro lado há um resistente conjunto que, qual pugilista resiliente, perde assaltos, mas não combates. Aos 109' lá estava Modric, 37 anos, a fazer fintas de corpo contra Fred para ganhar cantos e aos 115' o capitão ainda se lançava ao chão para ganhar duelos contra Antony.

A Croácia lutava, mas não se aproximava com perigo de Alisson. Até aos 117', os europeus não realizaram um remate à baliza rival. Até que surgiu a jogada que deixará Tite, talvez até ao final da sua carreira, com pesadelos.

Incompreensivelmente, a três minutos do fim do prolongamento e com o Brasil a ganhar, Majer teve autorização para conduzir a bola pelo meio-campo brasileiro dentro somente com quatro brasileiros atrás da linha da bola. Um contra-ataque em igualdade numérica, com quatro croatas a criarem perigo, ao minuto 117. Inexplicável.

Orsic cruzou o Petkovic rematou, com um desvio em Marquinhos a trair Alisson. Em 42 encontros que jogou na Série A, ao serviço de Bologna e Hellas Verona, Petkovic não fez qualquer golo. Mas agora o dianteiro do Dinamo Zagreb teve um dos disparos mais festejados da história do seu país.

Charlotte Wilson/Offside/Getty

Os penáltis chegaram como prémio para a Croácia e castigo para o Brasil. A limpeza com que os europeus executavam os remates contrastava com a montanha de tensão dos sul-americanos.

Depois de 2018, a turma de Modric voltará a disputar sete encontros num Mundial. Um prémio merecido para um dos mais fascinantes jogadores deste século, numa seleção que se soube renovar e que chega ao Catar com Gvardiol e Livakovic em estado de graça.

Do lado brasileiro, é mais uma desilusão que encherá discussões, debates e polémicas nos próximos tempos. O ciclo de Tite acaba com a sensação de que o nível da seleção subiu, de que a mediocridade de Dunga ou do Scolari 2.0. foi deixada para trás, mas os resultados em Mundiais foram iguais. Dois quartos de final contra Bélgica e Croácia, duas eliminações. O hexa terá de esperar, o hexa não rima com íc.