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Vingegaard, o atacante, tornou-se Vingegaard, o gestor: como Pogacar não conseguiu responder ao dinamarquês no Alpe d’Huez

Na mais mítica montanha da Volta a França, o esloveno ainda esboçou dois ataques, mas o dinamarquês, depois da exibição da véspera, geriu com tranquilidade, respondendo sem dificuldades à primeira tentativa de vingança de Pogacar. Thomas Pidcock, campeão olímpico de ciclocrosse, brilhou agora na estrada, tornando-se no mais jovem de sempre a vencer no Alpe d'Huez

Lídia Paralta Gomes

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/Getty

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O filme da véspera no sobe e desce entre Albertville e o Col de Granon foi o seguinte: a Jumbo-Visma em bloco, numa missão de ataque constante para deitar abaixo um homem, Tadej Pogacar. É possível que o miúdo de 23 anos, cujo talento transcendente promete fazer riscar uns quantos recordes no ciclismo, nunca se tenha visto perante fogo tão cerrado. E reagiu com a impertinência dos jovens: respondeu a todas as ofensivas dos ciclistas da equipa neerlandesa, no Télégraphe, no Galibier, com a estocada final a aparecer a cerca de cinco quilómetros do fim, quando Jonas Vingegaard estraçalhou definitivamente o grupo reduzido que já se formava na derradeira subida.

E foi aí que Pogacar se terá arrependido de ter ido ao choque ao longo de toda etapa - o talento é indesmentível, mas o esloveno sairá desta Volta a França seguramente um ciclista mais cínico, com outra experiência. Não conseguiu nunca acompanhar Vingegaard, que lhe ganhou três minutos, roubando-lhe de permeio a camisola amarela.

Esta quinta-feira, o ciclista da UAE Emirates tinha desde já uma oportunidade para vingança, e vingança poderia até estar entre aspas porque ele próprio falou dela, já despojado do símbolo de líder da Volta a França, pouco depois de cruzar a linha de meta, de bofes de fora, no Col de Granon. Pogacar elogiou “a tática” da Jumbo-Visma, assumiu as dificuldades na subida final. Lembrou que o Tour ainda não acabou. Até porque horas depois havia Alpe d’Huez para escalar.

O Alpe d’Huez é matéria de lendas e heróis, Joaquim Agostinho ganhou ali nome em França, e parecia claro que, estando bem, o esloveno atacaria. E tentou um par de vezes nas 21 curvas da subida, depois de uma primeira parte de tirada bastante calma para os candidatos à geral. Sempre bem escudado pela Jumbo-Visma, Jonas Vingegaard saiu do registo "faca nos dentes" para vestir o fato de gestor: a vantagem de mais de dois minutos que tem para Pogacar na geral permite-lhe já olhar apenas de soslaio para o rival, controlar o duas vezes campeão do Tour, sem necessidade de grandes riscos. E sempre que Pogacar tentou surpreender, o dinamarquês estava lá para responder, aparentemente fresco que nem uma alface. De tal forma que, às tantas, Pogacar pareceu até resignado. Talvez já ensinado pelo caos da véspera. Percebeu que não era ali, naquela escalada mítica, que ia devolver a gracinha, que ia cortar a diferença. A falta de equipa notou-se e este Tour poderá mesmo marcar o fim da ideia pré-concebida que Tadej Pogacar é tão forte que é capaz até de ganhar uma grande volta sozinho.

Pidcock chegou isolado na meta do Alpe d'Huez

Pidcock chegou isolado na meta do Alpe d'Huez

GUILLAUME HORCAJUELO/EPA

Para ganhar a etapa tão-pouco dava: lá à frente estava Thomas Pidcock, o miúdo britânico da INEOS que entrou na fuga do dia (onde ainda andou o português Nélson Oliveira) e levou até ao fim o seu esforço, atacando a 7,5 quilómetros da meta, fazendo aquela subida praticamente sozinho, tornando-se aos 22 anos no mais jovem vencedor de sempre no Alpe d’Huez.

Uma vitória que ficará bem catita ao lado de outras que este especialista em outras montanhas (neste caso, nas bicicletas de montanha) tem no currículo: é o atual campeão olímpico de ciclocrosse.

Na geral, o Alpe d’Huez não fez as diferenças na geral que se esperariam, depois das cambalhotas da véspera. Apenas o último lugar do pódio tem novo dono, com Geraint Thomas (INEOS) a subir a terceiro, por troca com o francês Romain Bardet (Team DSM). E no final, Pogacar voltou a assumir o fracasso da véspera, muito duro consigo próprio: "Eu sei o que se passou ontem [quarta-feira]. Foram muitos ataques e eu fui um bocado estúpido por tentar seguir toda a gente. Não vai acontecer de novo".

Fica o aviso. E a ameaça.

A verdadeira resposta terá, no entanto, de esperar. Na sexta-feira, apesar das três contagens de montanha, duas de terceira categoria e uma de segunda nos 192,6 km entre Le Bourg d’Oisans e Saint-Étienne, o dia será propício para os favoritos pouparem forças e uma fuga vingar.