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Do caos também nascem vitórias

Duas expulsões tiraram o chão tático ao Gil Vicente - Sporting na 1.ª parte, o jogo parecia caminhar para um vórtex de confusão, mas depois do intervalo Amorim fez a equipa subir e agarrar um encontro que chegou a estar difícil para o campeão nacional. Que no caos também consegue encontrar o caminho para a vitória - e logo por 3-0

Lídia Paralta Gomes

MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA

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Para uma equipa tão mecanizada, com processos tão entranhados, com rotinas tão estabilizadas, o pior que pode acontecer é mesmo uma expulsão. É certo que quando Neto foi expulso, aos 20 minutos, o Gil Vicente também já jogava com menos um (vermelho para Fujimoto ainda dentro dos 10'), mas a igualdade de cabeças em campo não era necessariamente consolo para a equipa de Rúben Amorim, que se via de repente obrigada a mudar a sua forma de jogar.

As duas expulsões eram só mais um elemento para o caos instalado em Barcelos, numa 1.ª parte em que houve mais VAR que futebol e em que até o médico do Sporting foi expulso. Isto num encontro que parecia fadado a ser interessante, com a solidez do Sporting contra uma das equipas não-grandes que melhor ataca na I Liga. As circunstâncias não o permitiram.

Foi dessa solidez que Amorim não quis abdicar. Ainda foram alguns minutos até Rúben ir ao banco, deixando até a dúvida se iria deixar o eixo da defesa entregue apenas a Coates e Inácio, mas logo tirou Sarabia para colocar Nuno Santos, fazendo Matheus Reis encostar ao corredor central. E foi a partir do ex-Rio Ave que grande parte do jogo do Sporting se fez na 1.ª parte.

Mas o caos demoraria a ir embora. Aos 37', novo lance de dúvida, agora na área do Gil, nova ida ao VAR, mais uns bons minutos perdidos (já assim tinha sido com as expulsões) e grande penalidade assinalada a favor do Sporting, que Pote não conseguiu marcar, naquele que seria o primeiro duelo do internacional português com o guardião esloveno (que teve direito a bancada vinda do seu país e tudo) e que teria mais episódios já na 2.ª parte. Entre paragens, o Sporting a tentar adaptar-se à nova realidade, com menos elementos no ataque, e um Gil Vicente a espreitar também partir para a frente sempre que possível, pouco futebol se jogou numa 1.ª parte que foi, bem, digamos, muito esquisita.

MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA

A 2.ª parte foi o desbloquear do caos. Rúben Amorim cedo pediu a Gonçalo Esteves para subir, para imitar um pouco o que Nuno Santos estava a fazer desde a sua entrada, e o Sporting foi obrigando o Gil Vicente ao erro. Que apareceu aos 53', quando Rúben Fernandes, a sair na transição, entregou a bola a Nuno Santos. O ala correu, rematou forte, com a bola a raspar em Lucas Cunha, tornando-se indefensável para Frelih.

O Gil Vicente respondeu bem ao golo, Fran Navarro teve quase de seguida uma oportunidade, mas o Sporting voltou a equilibrar, agora com a segurança que a vantagem num jogo difícil que lhe dava. A entrada de Palhinha deu robustez à linha média e aos 64', na sequência de um canto, apareceu o 2-0: Pote rematou à entrada da área na ressaca, a bola ainda embateu em Gonçalo Inácio e entrou na baliza - e o golo seria mesmo dado ao central.

A partir daí o jogo entrou numa fase mais anárquica, com o Sporting a confiar talvez em demasia na vantagem, um erro frente a uma equipa com grandes argumentos no ataque como é o Gil Vicente, que não perdia há cinco jogos. O Sporting ganhava, mas não controlava e só a entrada de Daniel Bragança veio trazer a serenidade necessária num jogo sempre muito exigente para os campeões nacionais. O médio segurou a bola, em menos de nada criou duas oportunidades de golo para Pedro Gonçalves - que perdeu sempre no duelo com Frelih - e no final ainda fez o golo que valeu o 3-0 ao Sporting, numa jogada rápida em que aproveitou o grande trabalho de Paulinho (tão mais do que um simples avançado, esta noite novamente) para aparecer em frente à baliza e encostar para o golo.

É uma vitória importante do Sporting, não só por ser a 10.ª seguida na I Liga, não só por atirar a equipa para a liderança isolada pelo menos durante uma noite, mas também pela forma como Rúben Amorim e os seus jogadores conseguiram desamarrar o nó de caos em que o jogo chegou a estar mergulhado, tirando da cabeça novas soluções (sem nunca abdicar da ideia de sempre) e construindo um resultado claro.

Dentro das rotinas mecanizadas, há sempre espaço para lidar com o inesperado. E Amorim provou que o consegue fazer.