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Choque de realidade promovido pelo trauma das bolas paradas

Portugal entrou para o último jogo da fase de grupos a sonhar com uma inédita presença nos quartos, mas esbarrou na excelência da Suécia e perdeu por 5-0. Os quatro primeiros golos das nórdicas foram de bola parada, num desaire que se explica por muito mais do que questões de centímetros

Pedro Barata, enviado ao Euro 2022

DANIEL MIHAILESCU/Getty

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A Suécia já vencia por 1-0 quando, após novo pontapé de canto perigoso para as nórdicas, Patrícia Morais esbracejou para o banco de suplentes. “A linha está muito recuada!”, queixava-se a guarda-redes a Francisco Neto, com quem foi depois falar à linha lateral durante breves instantes. Ali, naquela incapacidade portuguesa de contrariar a supremacia adversária nos lances em que a bola começa parada, se começava a explicar a derrota da seleção nacional.

Portugal foi para o intervalo a perder por 3-0, fruto de dois cantos e um livre lateral, mas — por muito que na antevisão à partida ambos os técnicos tivessem abordado a diferença de altura entre as equipas —, há diversas causas além dos centímetros que justificam esse sofrimento. Desde logo, ao longo do Europeu, a reação nacional às dificuldades nas bolas paradas foi ir recuando cada vez mais a linha para perto da baliza, desprotegendo a entrada da área, zona onde Angeldahl apareceu duas vezes sozinha para marcar.

A somar a isto, houve um défice de agressividade e assertividade na abordagem aos cruzamentos durante todo o torneio, visível desde a estreia contra a Suíça até este embate final. E, sobretudo, cada lance de bola parada gerava o pânico em Portugal, com jogadoras viradas para o banco questionando posicionamentos, ligeiros assertos que não deram resultado, tremideira a completar alívios ou a conseguir sacudir a bola de perigo. Pecados que, contra a elite, são insustentáveis e impedem que se possa competir contra quem, como reconheceu Francisco Neto, é melhor. E que em nada estão relacionados com ser mais ou menos alta.

Filippa Angeldal remata para o 2-0

Filippa Angeldal remata para o 2-0

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty

Os dias anteriores ao duelo contra a Suécia foram, na comitiva nacional, marcados por palavras como "sonho" ou "crença", mas o poderio nórdico transformou essas ambições num duro despertar para a realidade, com a goleada por 5-0 a sublinhar que, ainda que este grupo de jogadoras consiga discutir resultados contras as melhores, há um mundo de diferenças entre as estruturas de ambos os países.

Essa realidade começa a notar-se em pequenas coisas como a atenção mediática ou seguimento de adeptos que uma e outra equipa têm, até questões mais profundas e estruturais, sem as quais é difícil comer na mesa das melhores. E seria bom que este Europeu servisse para tentar dar mais condições às jogadoras em Portugal, nos mais variados níveis. São estes universos de mundos diferente ao nível da aposta no futebol feminino que se cruzam durante 90 minutos neste Europeu de contrastes: contra os Países Baixos, a seleção conseguiu esconder essas lacunas, mas na quente tarde de Leigh tudo caiu em cima de Portugal, qual esbarrar doloroso com a realidade.

Charlotte Tattersall - UEFA/Getty

A partida começou animada, com a Suécia a investir pelo lado direito português, através das combinações de Glas, Asllani e Rytting Kaneryd— esta última roçou o golo por duas vezes nos minutos iniciais, com Ana Borges e Patrícia Morais a impedirem o 1-0. Portugal respondeu através de remates com perigo de Tatiana Pinto e Carole Costa, mas logo o trauma das bolas paradas veio para atormentar Portugal.

Aos 21’, a Suécia marcou no primeiro canto de que dispôs. Francisco Neto apostou em Patrícia Morais para o lugar de Inês Pereira, talvez para ganhar centímetros nas bolas paradas, mas a guarda-redes hoje escolhida não conseguiu afastar para longe, a entrada da área estava mal protegida, e Angeldahl abriu o ativo.

O primeiro tempo, apesar dos três golos suecos, foi, regra geral, de ritmo baixo, com muitas paragens. Uma das mais prolongadas aconteceu quando, após lance com Rytting Kaneryd, Catarina Amado teve de sair lesionada de maca.

Catarina Amado, lesionada, teve de ser substituída

Catarina Amado, lesionada, teve de ser substituída

DANIEL MIHAILESCU

Entrando Joana Marchão para o lugar da lateral do Benfica, a parte final do primeiro tempo foi cheia de murros no estômago que praticamente acabaram com o tal "sonho" português. Aos 45', num livre lateral, a concentração de jogadoras portuguesas perto da linha de golo deixou todo o espaço para que Angeldahl rematasse. E, pouco depois, a passividade e desatino português voltou a vir ao de cima, com a intranquilidade evidente em cada face perante novo canto da direita. Ao primeiro poste, Carole Costa desviou para a própria baliza. 3-0 ao intervalo e a montanha de que falou Francisco Neto na antevisão era, agora, uma viagem à lua.

A vantagem gorda não fez a Suécia tirar o pé do acelerador na segunda parte. As nórdicas entraram cheias de energia, colocando o dedo na ferida das dificuldades de Portugal, qual predador a cheirar o sangue.

Logo no recomeço do jogo, Blackstenius fugiu a Diana Gomes, com Patrícia Morais a evitar o 4-0. O quarto golo surgiria mesmo aos 54', através de um penálti de Asllani, jogadora diferenciada, depois de mão de Diana Gomes.

Asllani faz o 4-0

Asllani faz o 4-0

Robbie Jay Barratt - AMA

Com a questão da passagem decidida, Portugal tentou dar a melhor imagem possível nos 30 minutos finais. Andreia Norton esteve perto de reduzir, mas, já com os muitos adeptos suecos nas bancadas em festa, seria Blackstenius a apontar o 5-0.

Ouvido o apito final, diversas jogadoras portuguesas choraram, com Francisco Neto a falar com todo o grupo durante largos minutos. E, no centro do relvado, um dos últimos abraços uniu Carolina Mendes a Kika Nazareth, ambas com água a escorrerem na face.

Kika, uma das mais novas, tentava consolar Carolina Mendes, a mais velha. Duas gerações unidas num abraço que tem muito de simbólico: as mais veteranas, que tiveram de crescer a sonhar com ser jogadoras de futebol num país que não lhes dava essa esperanças, com as mais jovens, que, já como adolescentes, beneficiaram de uma maior aposta federativa e de clubes.

Mas não é suficiente. Não basta algum interesse mediático e institucional durante algumas semanas para colmatar anos de défices e desigualdades estruturais. Porque, quando assim é, por muito que dias de inspiração como o dos Países Baixos façam parecer algo diferente, a realidade vem embater com estrondo. E não é por problemas de centímetros.

Kika Nazareth, inconsolável, foi a última a sair do relvado. Francisco Neto assumiu que um objetivo deste Europeu era, também, "criar referências". Que as meninas que, ao verem esta seleção jogar, passaram a ter o sonho de brilharem por Portugal possam ter mais condições num futuro próximo. Mais do que lamentar derrotas, tem de ser esse o objetivo. Enquanto isso não acontecer, choques de realidade virão.