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(Quase) tão grandes como as maiores

No segundo jogo no Europeu, Portugal foi derrotado (3-2) pelos Países Baixos, campeãs em título. Perante um adversário que não perde um jogo oficial há mais de três anos, a seleção voltou a começar em desvantagem de dois golos, mas agigantou-se, conseguiu empatar e encostar as neerlandesas às cordas, sendo a partida decidida por um golaço de Van de Donk

Pedro Barata, enviado ao Euro 2022

OLI SCARFF/Getty

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Os Países Baixos são um colosso. Campeãs da Europa em título e vice-campeãs do mundo, possuem diversas estrelas e um registo impressionante: não perdem um encontro oficial há mais de três anos, desde a final do último Mundial, contra os Estados Unidos. São a elite da elite.

Foi contra este nível de opositor que Portugal realizou uma exibição cheia de momentos de brilhantismo, voltando a evidenciar a competitividade e crescimento desta equipa. Só um grande golo de Van de Donk deu os três pontos às neerlandesas, numa noite que ficará na história desta seleção.

Porque há partidas concretas que podem fazer mais pelo crescimento, visibilidade e mediatismo do futebol feminino do que muitos anos de necessário trabalho na sombra. Porque há derrotas que, não valendo qualquer ponto, são pequenas vitórias parciais num caminho de superação, grandes marcos que certificam o trabalho bem feito. Porque as imagens da emoção dos festejos no 2-2 vão correr o país e, como disse Francisco Neto, amanhã haverá raparigas a quererem celebrar como Diana Silva ou fintar como Jéssica Silva. Em nova partida que, como frente à Suíça, foi uma montanha-russa, Portugal elevou-se ao nível das maiores.

Charlotte Tattersall - UEFA/Getty

Portugal entrou no encontro com o mesmo onze da estreia, novamente com Diana Silva mais na ligação em zona central, Ana Borges partindo da esquerda e Jéssica Silva da direita. E os primeiros minutos da seleção mostraram personalidade e intenções claras: colocar a bola nas costas do lado direito neerlandês. Com esta fórmula Tatiana Pinto e Ana Borges remataram já dentro da área, com a número 9 a bater mesmo Van Domselaar. No entanto, ambos os lances foram anulados por fora-de-jogo, ainda que servissem para evidenciar as ideias e vontade portuguesas.

Apesar da entrada promissora, as bolas paradas entraram em cena para darem murros no estômago à equipa de Francisco Neto. Com Spitse a bater, o poderio aéreo de Egurrola ou Van der Gragt conjugava-se com alguma passividade defensiva para causar o caos perto da baliza de Inês Pereira.

Assim, aos 7’ Egurrola impôs-se no meio da área para cabecear para o 1-0. Logo a seguir, Beerensteyn fugiu pela direita e rematou, mas Inês Pereira evitou o golo com uma boa estirada. Portugal sentia o impacto, duvidava, e as campeãs da Europa pareciam cheirar o sangue. Aos 16’, a tremideira na área fez com que a bola não fosse afastada, acabando a sobrar para Van der Gragt, que dobrou a vantagem dos Países Baixos.

Nick Potts - PA Images/Getty

Da linha lateral, Francisco Neto gritava “vamos jogar!”. A talentosa Leike Martens ofereceu um golo a Van de Donk, que rematou ao lado, e, depois de novo canto de Spitse, Van der Gragt só não bisou porque Amado cortou em cima da linha. Dolores Silva pedia ao banco indicações sobre posicionamentos no meio-campo, Neto tentava explicar a Tatiana Pinto e Andreia Norton o que deveriam fazer.

Os Países Baixos tentavam esconder a bola, mas tinham rival nessa arte. Andreia Norton, autora de um Europeu de encher o olho, era, nos piores momentos de Portugal, a única que recebia, atraía a pressão, e soltava. Assim serviu Diana Silva para um remate por cima da avançada, e foi noutra desmarcação no espaço da jogadora do Sporting que a seleção ganhou ânimo reforçado

Aos 34’, Diana explodiu no espaço como é seu costume, cortou para dentro e foi derrubada por Janssen. Após (prolongada) consulta do VAR, o penálti foi concedido. Carole Costa não tremeu, 2-1.


Carole Costa remata para o 2-1

Carole Costa remata para o 2-1

Harriet Lander/Getty

Reduzir a diferença levou Portugal para um estado de espírito semelhante ao da segunda parte contra a Suíça, cheio de entusiasmo, vigor, velocidade, tudo usado ao serviço de futebol de qualidade. Subitamente, o controlo neerlandês foi ameaçado, com alguns cantos com relativo perigo a vincarem que, para a segunda parte, se poderia esperar pressão portuguesas.

E assim foi. Na primera ação da etapa complementar, Jéssica arrancou pela direita e cruzou, com o cabeceamento de Tatiana Pinto a ser travado por grande defesa de Van Domselaar. Na sequência do canto, a bola foi parar a Carole Costa que, qual extrema, cruzou com precisão para Diana Silva, que rematou para o 2-2.

O festejo nacional foi o normal tendo em conta a sensação de estar a bater o pé a um colosso, a uma das melhores equipas do mundo. Os minutos seguintes foram de continuação desse jogo sonhador e audaz, com Tatiana Pinto e Andreia Norton a elevarem-se no miolo.


Emma Simpson - UEFA/Getty

Mas os Países Baixos são oposição recheada de talento, e basta o menor detalhe para decidir um embate que, por mérito luso, foi equilibrado. Um detalhe como ficar na dúvida sobre para quem era um lançamento, hesitar e dar espaço a Martens. A extrema serviu Van de Donk que, de fora da área, desferiu um míssil sem defesa para Inês Pereira.

Francisco Neto reagiu, colocando Kika e Fátima Pinto, primeiro, e Vanessa Marques e Carolina Mendes, depois. Portugal ameaçou, acabou com três centrais e Amado e Borges projetadas, mas não conseguiu o empate.

Após o apito final, as neerlandesas festejaram efusivamente, com danças e cânticos com as bancadas. Celebrações que tinham gestos de alívio dentro. Conseguir que as campeãs da Europa celebrem assim ganhar a Portugal é o maior atestado de competência para a equipa de Francisco Neto.

Resta um jogo do grupo C, contra a Suécia. Só a vitória serve para passar.