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No UFC também há medo

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A Tribuna Expresso andou por Las Vegas durante a International Fight Week e, antes do derradeiro dia dos esperados combates, esteve com alguns lutadores do Ultimate Fighting Championship no Sindicato de Artes Marciais Mistas, que é também um ginásio equipado para lutas. Falou-se do medo, se o sentem ou não, e do que temem quando estão naquele octógono

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Os corpos pacientes iam nutrindo serenamente as filas à porta da T-Mobile Arena, na Las Vegas Boulevard, debaixo de um sol impiedoso, perante o abraço das montanhas que engolem Las Vegas. A noite aproximava-se mas os termómetros não queriam saber. Ouvem-se conversas sobre o que vem aí, sobre lutadores e capítulos específicos. O logotipo gigante do UFC era o cenário preferido para as fotografias da praxe dos muitos entusiastas daquela indústria que mistura a riqueza de algumas artes marciais. Lá dentro estava tudo pronto para a cerimónia do UFC Hall of Fame, um dos pontos altos da International Fight Week.

As cadeiras mais perto do palco iam sendo brindadas com calor humano. As bancadas mais distantes ficariam meio despidas. As grandes figuras da noite eram porventura Daniel Cormier, um outrora wrestler amador e depois campeão de peso-pesado e meio-pesado do UFC, e Khabib Nurmagomedov, a lenda que superou Conor McGregor (a bulha galgou as fronteiras do octógono entre staff e amigos) e que terminou a carreira com um recorde de 29 vitórias e zero derrotas. O russo abandonou a modalidade quando morreu o pai, que era treinador e uma espécie de líder espiritual.

Os adeptos do Ultimate Fighting Championship gostam dos seus lutadores como se gostava das bandas importantes. Há gritos, palmas, energia ternurenta e enraivecida, sons encorajadores, mas também há apupos, palavras duras e provocações quando surge alguém que não apreciam tanto. É certo que Cormier se emocionou no seu longo discurso, faltou talvez aquela música castradora dos Óscares para a cena conhecer um final, mas a parte mais inspiradora foi oferecida por Kevin 'Cub' Swanson, agraciado no Hall of Fame como protagonista e triunfador de um dos grandes combates de sempre, em 2016. Dooho Choi e Swanson trocaram socos eternos, pontapés imortais, resistências desconhecidas e dignidades que só quem anda nesta vida pode compreender.

O lado mais tenro da mirada prende-se na vulnerabilidade destes homens, que vão para dentro de um ringue – o octógono, com pouco mais de nove metros de diâmetro e quase 60m² de área – e parecem transformar-se noutra coisa. Há técnica, plano, estudo (outras vezes não, para não fazerem o rival maior do que é) e cautela, é certo, mas também há uma filha qualquer da levitação que os transporta para um mundo paralelo, onde podem suportar levar pancadas que se ouvem numa arena enorme e onde, inesperadamente, são catapultados do inferno para um rumor de céu e começam eles a bater sem cessar, sem memória, sem piedade. É brutal.

'Cub' Swanson, com uma camisa impecável e sorriso hollywoodesco, ia explicando que ainda era o miúdo que via os vídeos de outros, que nunca quis ser campeão, mas que queria deixar uma marca, ser criativo e divertido ao ponto de inspirar a próxima geração. E ouviu aplausos e gritos de admiração. “Nunca desisti”, disse mais do que uma vez.

“Como jovem lutador, toda a gente mete o seu ar de durão, faz parte do jogo, intimidar. Quando fui ficando mais velho, quis ficar melhor”, ia abrindo o coração. “Aprendi a admitir os meus medos”, travão de mão no verbo enquanto escorriam lágrimas do rosto. “Fizeram-me mais forte como humano. Posso dizer-vos honestamente que tive medo em todos os combates, senti-me aterrorizado. E porque o digo? Porque sei que me faz mais forte como pessoa”, sentenciou, ganhando uma ovação do tamanho do maior prémio já gritado nos casinos de Las Vegas.

No dia seguinte, a 11 minutos daquela arena – ou a duas horas para quem ousasse caminhar naquele inferno e a carcaça não ruísse –, a Tribuna Expresso esteve no Sindicato de Artes Marciais Mistas (MMA, na sigla inglesa), com alguns lutadores. O medo, o tal medo que 'Cub' Swanson descascou na véspera, foi o norte das conversas. A que associam o medo? De que têm medo? O que é medo?

“Você tem de controlar o medo”, simplifica antes de complicar Gilbert ‘Durinho’ Burns, um brasileiro do UFC que já foi tricampeão mundial de jiu jitsu. “Na verdade, no começo era muito difícil controlar, eu tentava brigar contra isso. Hoje em dia já aceito, sei o que vai acontecer, que vou ficar nervoso, com medo, mas ao mesmo tempo acredito no meu trabalho, na minha capacidade, no que venho fazendo, é um sentimento normal. Sinto f*da quando não sinto [o medo], sinto nervoso quando estou sentido, faz parte.”

Gilbert 'Durinho' Burns, à direita

Gilbert 'Durinho' Burns, à direita

Cooper Neill

O medo é, no fundo, outra versão da ansiedade, explica. Não há receios de perder ou de ficar com a cara toda amarrotada. “É a adrenalina, o medo quando estou entrando, caraca está chegando a hora, mais isso do que o medo em si do oponente”, explica este brasileiro, de 35 anos, natural de Niterói.

Enquanto falamos vão acontecendo várias coisas. Por ali também se treina, é um ginásio, está todo equipado. Os miúdos, filhos dos lutadores, vão dando alguns golpes nos sacos e magicando algumas manobras no ringue. Imitam os seus heróis, vigiados pelas despreocupadas mães. Noutra sala, um grupo de adeptos do UFC que ganhou um passatempo vai lidando com algumas feras deste desporto e aprendendo as técnicas. Sami Virto, um finlandês de 26 anos, está ainda suado e de olhos tremendamente azuis bem abertos a falar sobre as maravilhas deste mundo. “Demorámos umas 20 horas a chegar aqui”, conta. Sami chegou no dia anterior, mas já conhecia uma coisa ou duas da vida noturna da sin city.

A Strip, a parte mais famosa da Las Vegas Boulevard, é a avenida onde todas as ruas, pecados e vontades vão dar. Sami recebeu algumas lições de boxe, gostou dos conselhos. “O meu lutador preferido tem sido o Conor [McGregor], mas hoje em dia acho que gosto do Max Holloway. E na Finlândia temos o Makwan Amirkhani.” Este finlandês, que trabalha em marketing e desporto, começou a acompanhar o UFC em 2013 por causa de um amigo que era campeão do mundo amador de MMA e treinador. Ele treinou durante alguns anos, mas depois deixou-se disso. Revela estar ansioso para sábado, o tal dia santo desta semana, com o combate entre Israel Adesanya e Jared Cannonier como cabeça de cartaz.

Michael Chandler, que anda a sugerir muito seriamente um combate com Conor McGregor, diz não ter medo do que se passa no octógono. Nunca sentiu, reforça. É por isso que também prefere não ver os combates dos outros quando os vai combater, para não parecerem melhores e maiores do que realmente são – “no final do dia, vestem as calças como tu”.

O medo, uma palavra que parece tão pesada e quase inibidora de orgulho, chega noutra forma. “Não tenho medo de ficar KO, de ficar magoado, de nada, só tenho receio de não ter um desempenho ao mais alto nível, é aí que entra o lamento. O meu maior medo é isso e desiludir a minha família”, explica este lutador, de 36 anos, que diz estar só a perseguir a sua melhor versão: ser melhor homem, melhor marido e mais feliz. Não ter medo de tal coisa também é notável.

No Sindicato de MMA em Las Vegas, durante a International Fight Week

No Sindicato de MMA em Las Vegas, durante a International Fight Week

Monster Energy

Impressionam as orelhas de alguns lutadores. Orelhas couve-flor, assim lhes chamam por causa do formato. É tudo menos agradável à vista e deve-se a lesões, contusões e infeções, mas também ao esfregamento contra quimono alheio e tapete. Mas é, para alguns lutadores e admiradores, um sinónimo de prestígio, há até quem acelere o processo da deformação das orelhas. Um lutador brasileiro contou certa vez ao “Uol Esporte” que se livrou de um assalto devido ao aviso em forma de couve-flor. “Viram a orelha, ficaram meio assim… aí o outro veio do meu lado e ficou olhando também. Um cutucou o outro, pediram desculpas e saíram. Quem vai mexer com lutador, ? Ninguém é bobo.” Uma cirurgia permite a correção.

A seguir, aproxima-se uma montanha. Não é daquelas que serve de muralha de Las Vegas, nem daquelas que se veem no deslumbrante Valley of Fire, a uma hora do centro da cidade. É Quinton ‘Rampage’ Jackson, um senhor de 44 anos que atuou no cinema como B.A. Baracus, em "Soldados da Fortuna". É portanto um sucessor de Mr. T, ou Laurence Tureaud, que também foi lutador e mora no Hall of Fame do WWE. Simpático, com a voz rouca, quase ameaçadora, explica que o MMA é, apesar do circo à volta, “real”. Com tanto trash-talk e insulto nestas andanças, perguntamos se é útil lutar zangado. “Acho que não é seguro. Perdi as estribeiras uma vez, foi muito mau para o outro tipo.” Em tempos disse que há um ‘Quinton’ e um ‘Rampage’, como se vivessem dois homens dentro dele.

Como Chandler, Rampage também não dá bola ao que os outros fazem. “Prefiro ver combates em que perdem”, garante. Será isso uma forma de medo? Afinal, ver o outro na melhor versão poderia permitir antecipar algo. “Fiz isso uma vez, no início da carreira, e fez-me mais dano do que me ajudou.” Quinton não romantiza o medo. Receia deixar mal os treinadores, ponto. “Queres deixá-los a eles e à família orgulhosos. É o único medo. Nunca tive receio de levar porrada.”

Os miúdos continuam num desvario, só permitido pelo potente ar condicionado, algo transversal na cidade inteira. Por vezes torna-se até mais agradável ir para o calor (essa irresponsabilidade demora 10 segundos a passar...). Lá fora quase nem se pode estar, mas uma pequena carrinha vai fazendo de quiosque, vendendo hambúrgueres, outras coisas saudáveis e, mais importante, bebidas frescas. Os convidados da mencionada ação promocional parecem garotos, felizes e deslumbrados. Acabariam por tirar algumas fotografias e receber luvas assinadas pelos lutadores, já carecas de saberem fazer isto, a forma como atuar, como estar, o que dizer. O produto está bem afinado, as personagens vestem a camisola, sabem como valorizar o fenómeno do UFC que parece estar a espreguiçar os tentáculos pelo mundo.

Chris Weidman

Chris Weidman

Monster Energy

Chris Weidman, de 38 anos, também sabe o que é ter um cinturão de campeão à cintura e participar em filmes de cinema. É agradável, paciente e aprecia que o entrevistador tenha um pequeno bloco de notas onde ficarão para sempre algumas perguntas. Algures a meio da conversa, mudaria o tom para dar um ralhete ao filho, que estava a virar alguém do avesso no ringue ali ao lado. “Desde que seja o meu filho a levar…”, anuncia sem esboçar um sorriso. Este homem engoliu o medo, superou uma lesão terrível – partiu a perna depois de um pontapé.

Há fantasmas e armadilhas nesta caminhada para a recuperação do verdadeiro “eu”? “Foi duro, muito duro manter a confiança”, vai refletindo. “Foi duro continuar a fisioterapia. Já tinha sido campeão, já tinha conseguido muita coisa neste desporto. Já tinha dinheiro. Manter a motivação foi difícil, houve sempre contratempos. Ter fé foi super importante para mim.”

A lógica circular das mini-entrevistas encaminha-se para o fim com Stipe Miočić a chegar à estação onde estaciona a Tribuna Expresso há largos minutos. O norte-americano, filho de croatas, parece o tipo mais porreiro do mundo, o sorriso é gentil e inocente. Parece uma criança grande, no melhor sentido da expressão. “Estás a usar perfume?”, questiona. “Meu Deus, cheira fantasticamente bem”, empolga-se, perguntando depois qual é. Foi o momento mais hostil à tradicional trash talk desta viagem.

Natural de Euclid, no Ohio, Miočić é enorme, literalmente. Também ele já foi campeão de peso-pesado do UFC, mas há um detalhe que o distingue. É bombeiro. E porquê? “Amo o que faço, ajudar pessoas, trabalho arduamente, há sempre algo a acontecer. Há pessoas que morrem, é a vida, mas às vezes não dá”, lamenta. Esta atividade já lhe ensinou ou transmitiu ferramentas que lhe são úteis para certos momentos no octógono. “Ensinou-me a ser calmo, tranquilo e focado”, resume. Está grato à luta, afinal retirou-o da rua, afastou-o dos problemas, desatou então a fazer só “coisas boas”, misturou-o com a disciplina. “Deu-me uma vida estruturada.”

E o medo? Com o mesmo desassombro que falou no perfume, falou neste fantasma que desassossega tanta gente. “Sempre tive medo. São mais nervos, tinha receio de embaraçar a minha família. Nunca aconteceu, mas estava na minha cabeça..."

* Esta é a segunda de uma série de reportagens que a Tribuna Expresso fez em Las Vegas, onde esteve a convite da Monster Energy.