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Em Las Vegas, no mundo do UFC, fala-se português: “Eu digo ao Fialho que é muito inteligente e técnico. A maioria não tem essa inteligência”

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Mike Kirschbaum

A Tribuna Expresso esteve num dos lugares mais importantes da história dos combates. Durante a International Fight Week, que teria a decisão de títulos mundiais de duas categorias do Ultimate Fighting Championship (UFC), estivemos à conversa com Gilbert 'Durinho' Burns, um brasileiro de Niterói com ascendência portuguesa, que treina com André Fialho. Tricampeão de jiu jitsu e adepto do Fluminense, o lutador conta como chegou a Las Vegas e os planos que tem para a sua cidade

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O Seu Herbert tinha uma oficina em casa, em Niterói, do outro lado da ponte que desagua no Rio de Janeiro. Renovava os interiores dos carros que por ali chegavam já muito cansados. Certa vez, no carro de um professor de jiu jitsu, os seus três filhos descobriram um quimono. Era um “carrinho velho, feio”. A brincadeira dos garotos, fardados para as lutas, deu uma ideia àquele homem. “Ele perguntou ao cliente para trocar: em vez de pagar, dava alguns meses para treinarmos”, conta Gilbert Burns à Tribuna Expresso, ao lado de um dos ringues no Sindicato de Artes Marciais Mistas (MMA, na sigla inglesa), na Rainbow Boulevard, em Las Vegas, onde vários atletas do Ultimate Fighting Championship (UFC) treinam.

‘Durinho’, como é conhecido, estava nesta cidade do Nevada para acompanhar a International Fight Week, que teria muitas atrações até à derradeira jornada, o sábado, o dia dos dias, o festival de combates e golpes, em que haveria disputas de título em duas categorias, com o empático Max Holloway a desafiar o trono do destrutivo Alexander Volkanovski e com Jared Cannonier a tentar roubar o céu dos pés do cool e calculista Israel Adesanya. Enquanto falamos, os filhos de alguns atletas que por ali andam vão testando o tapete e praticando manobras. “Desde que seja o meu filho a levar…”, diz um deles, preocupado com a saúde alheia.

Estar na rua é impensável, com o diabo a soprar na nuca de toda a gente, fazendo oscilar a temperatura entre os 38º e 42º. Las Vegas, onde estão plantados milhares de outdoors anunciando os concentros de grandes artistas ou mágicos, mas também a especialização de certos advogados, não foi desenhada para se viver de dia. Sobrevive-se dentro de lojas e casinos, com um potente ar condicionado. De vez em quando, para contrariar o que há de radiante, vê-se uma ou outra carcaça decadente a arrastar-se, talvez vítima das promessas que tilintam em cada esquina ou porta giratória. Quando o sol vai descansar, as luzes acordam, as pessoas vão para as ruas e a roleta das emoções volta a florescer. É assim todos os dias.

A infância de Burns não foi como uma caminhada em Copacabana. “Eu tive bronquite asmática, era muito, muito forte. Os meus irmãos também tinham, mas a minha era muito forte. Sempre que mudava o tempo, eu ficava muito mal”, conta. “O desporto ajudou-me muito, foi uma das razões pelas quais comecei a fazer desporto, foi pela bronquite. Hoje não [a] tenho mais, posso dizer que me curou, não sei o que aconteceu”, diz, com um sorriso sereno.

No combate contra Khamzat Chimaev, em abril, na Flórida

No combate contra Khamzat Chimaev, em abril, na Flórida

James Gilbert

A tal negociata, uma luz profética que ululou na mente de Seu Herbert, acabaria por dar certo. “O meu pai disse: ‘Se vocês gostam, têm de treinar duro, não tenho dinheiro para pagar. Têm três meses para treinar de graça. Depois disso, se não forem bons, vão ter de parar. Se forem bons, até posso perguntar se eles podem continuar a pagar e a ajudar-vos’. Então, começámos, gostámos ‘pra caramba, no segundo mês começámos a competir. O professor gostou da gente. Tivemos de ajudar a limpar a academia para treinar. Assim começou.”

O trajeto de Gilbert Burns no jiu jitsu colocou-o no mapa do desporto. Foi tricampeão mundial e decidiu dar o salto para MMA, onde combate na categoria peso meio-médio. Essa transição deu-se precisamente em Las Vegas, onde estamos. De Niterói para o coração da luta, do jogo, do glamour e decadência à vez. “Cara, foi duro, foi guerra”, recorda como chegou ali. “A primeira luta foi no Utah. Já estou morando na Flórida desde 2013, tem sido bem legal.”

A meio da conversa introduzimos o tema UFC em Portugal, um fenómeno que parece estar a crescer e a ganhar tempo na grelha na Sport TV. André Fialho, natural de Cascais, surge na conversa. E os olhos de Gilbert abrem. “Ele treina comigo! Há muito tempo. Temos o mesmo manager. Está a mandar bem ‘pra caramba no UFC. Acabou de ter uma derrota, mas ele é muito novo, vai aprender bastante. Tem um futuro brilhante. Estou sempre na torcida por ele, falamos bastante. Consegui trazê-lo para o meu preparador físico, melhorou muito o jogo dele”, revela.

Singapura. André Fialho, em meados de junho, no combate contra o australiano Jake Matthews

Singapura. André Fialho, em meados de junho, no combate contra o australiano Jake Matthews

Yong Teck Lim

Sobre o estilo de Fialho, as duas palavras que ‘Durinho’ mais repete são “técnico” e “inteligente”. “Nas lutas dele em Las Vegas e em Phoenix, lembro-me do que lhe disse: ‘Você é muito inteligente, você é muito técnico. A maioria dos caras não têm essa inteligência, não têm o seu QI de luta. Usa isso. Usa o seu QI de luta, a inteligência. Eu digo-lhe sempre que isso vai fazer a diferença”.

“Temos de criar um ambiente tenso, um drama”

Burns, de 35 anos, está há muitos anos no UFC. Houve muitos acertos, poucos erros. Vai aprendendo cada vez mais, garante. “Sei quem sou, sei de onde vim e sei onde quero chegar”, explica, atrelado aos “princípios e valores”. Em tempos perdeu a chance de ganhar o cinturão de uma das categorias de UFC, mas cometeu tantos erros que aquela promessa de manhã gloriosa nunca chegou. “Aprendi bastante e agora estou na caminhada de novo.”

Os norte-americanos sabem vender um produto e o UFC não escapa. Antes dos combates, existem todas as conferências de imprensa, as pesagens, os cara-a-cara que fazem faísca e as palavras que anunciam golpes duros no futuro próximo. Há mesmo muita trash talk, quase uma febre juvenil pelo insulto mole e de escola secundária.

“Temos de criar um ambiente tenso, um drama”, concede o brasileiro. “Mas ninguém quer o mal de ninguém, a gente quer ganhar a luta. Dali vêm as oportunidades, queremos ser campeões. Temos de fazer esse drama. Está cada vez mais famoso e na moda falar mais, não é muito o meu estilo. Faço um pouco, mas mantenho o respeito. Cada um tem de fazer uma história. Antigamente eram dois caras a lutar, só se tinha de treinar. Agora tem de se saber falar, dar uma boa entrevista, ter outro entendimento com os fãs, não é só treinar e lutar. Até para ter boas lutas e muita gente a assistir, tem de criar a personagem, drama e história. Tem de ter hype.”

'Durinho' antes de um combate, em abril, na Flórida

'Durinho' antes de um combate, em abril, na Flórida

Icon Sportswire

Gilbert, um adepto do Fluminense que anda encantado da vida com o futebol praticado pelos rapazes do bairro das Laranjeiras, tem ligações a Portugal. A avó Maria, do lado do pai, tinha ascendência portuguesa. Talvez do Porto, arrisca. Nunca lá foi, mas a Lisboa foram várias vezes e até acompanha o surf na Nazaré. “Gosto bastante de Portugal.” Mas casa, casa, é no Brasil, ali em Niterói, perto da Vila Ipiranga. Quando volta é recebido como um herói. E ele quer mesmo ser um herói do povo.

“Estou começando um projeto de jiu jitsu, quero fazer isso há muito tempo. Não é fácil. Quero fazer dentro da comunidade, então vem um político e quer fazer parte, mas não quero políticos ajudando”, explica, sentindo-se a impotência quase. “À parte do crime, que quer fazer parte, é difícil. Eu só quero ajudar. Estou tendo muito problema, mas tenho essa vontade.”

O lutador inspira-se no Instituto Reação, criado pelo medalhista olímpico Flavio Canto e pelo seu treinador Geraldo Bernardes, em 2003. Na Rua Bertha Lutz, no número 84, em São Conrado, Rio de Janeiro, promove-se o desenvolvimento das pessoas e a integração social através do judo. É uma ferramenta educacional para a transformação social. ‘Durinho’ quer fazer o mesmo em Niterói a reboque do jiu jitsu.

“Está engatado”, lamenta. “Está difícil, é uma guerra.”

* Esta é a primeira de uma série de reportagens que a Tribuna Expresso fez em Las Vegas, onde esteve a convite da Monster Energy.